Na minha rua era igual, só que o aviso era a minha mãe à janela, e com ela não havia mais um bocadinho que valesse.
Quando a luz acendia, a brincadeira mudava
Pensamento
Na minha rua era igual, só que o aviso era a minha mãe à janela, e com ela não havia mais um bocadinho que valesse.
Conteúdo da publicação
Ensaio por Alex Brito
Na rua onde minha vó morava, o fim da tarde parecia ter um aviso próprio. O céu começava a perder a cor, as vozes das crianças ainda atravessavam de uma calçada para outra e ninguém queria ser o primeiro a aceitar que o dia estava acabando. Continuávamos brincando como se fosse possível atrasar a noite por alguns minutos, até que, quase sempre sem que percebêssemos, a luz do poste acendia e alguma voz vinha de dentro de casa nos chamar.
Quase sempre era minha vó ou Neide, que dividia conosco muito mais que o muro. Nossas famílias e nossas infâncias pareciam, muitas vezes, uma coisa só. Era difícil distinguir de qual casa vinha aquela voz chamando, mas nossos ouvidos já sabiam exatamente como responder:
— Só mais um pouquinho!
Não havia nada em nossos pulsos ou bolsos que nos dissesse que horas eram. O que existia era algo muito mais coletivo e impossível de ignorar: os postes da rua se acendiam e nos avisavam que o dia estava chegando ao fim.
Muitas vezes, o aviso dos postes não encerrava apenas a brincadeira do momento, como um juiz que apita o fim da partida. Aquela mudança marcava muito mais que a passagem do dia para a noite; também alterava o rumo das brincadeiras. Durante o dia, brincávamos de bola, corríamos pela rua descalços, jogávamos bola de gude e tudo parecia não ter fim.
Quando os postes anunciavam que o dia estava chegando ao fim, as brincadeiras mudavam. Passávamos a jogar sete pedrinhas, dono da rua, esconde-esconde e todas aquelas que exigiam menos tempo entre uma rodada e outra. Era como se, sem perceber, aprendêssemos a escolher brincadeiras que coubessem nos poucos minutos que ainda conseguíamos arrancar da noite.
Sem perceber, levamos esse aprendizado para a vida adulta. Quando outros postes se acendem diante de nós, anunciando que alguma coisa está prestes a mudar, quase sempre queremos permanecer um “cadinho” mais no mesmo lugar. Talvez já não possamos continuar a mesma brincadeira, mas encontramos outras maneiras de prolongá-la, como fazíamos quando escolhíamos aquelas que ainda cabiam nos poucos minutos antes de alguém nos chamar para dentro.
Essa sensação voltou a mim outro dia, depois de uma longa jornada de trabalho no escritório. A luz natural já não entrava pelas janelas, e precisei me levantar para acender a luz. Naquele instante, quase sem perceber, busquei uma nova forma de continuar. Ajustei a altura da cadeira, inclinei um pouco mais o monitor do computador e acelerei o ritmo da escrita.
No fundo, eu sabia que alguma voz já havia me chamado para dentro. Eu já tinha pedido, de alguma forma, aquele mesmo “só mais um pouquinho”, mas a sensação de que a brincadeira ainda precisava continuar permanecia ali.
Não sei exatamente em que momento aprendemos a negociar com o tempo. Quando crianças, não calculamos as horas; simplesmente acreditamos que a tarde vai durar enquanto ainda houver alguém disposto a brincar. Então a luz do poste se acende, procuramos outra brincadeira que caiba nos minutos restantes e seguimos como se fosse possível adiar a noite.
Talvez seja isso que continuamos fazendo depois de adultos. Mudam as brincadeiras, os lugares e as pessoas ao nosso redor, mas ainda procuramos maneiras de permanecer um pouco mais quando percebemos que alguma coisa está chegando ao fim. Nem sempre sabemos quantas tardes ainda teremos para aproveitar nossa própria companhia, os amigos ou aquilo que faz a vida parecer menos apressada.
Hoje, quando alguma luz se acende diante de mim avisando que é hora de parar, ainda reconheço um pouco daquela rua, das vozes misturadas entre uma casa e outra e da vontade de permanecer só mais um pouco. Crescer talvez tenha sido aprender que nem sempre podemos prolongar a brincadeira, mas também entender que algumas tardes continuam acesas dentro de nós muito depois que os postes se acendem.
E, quando a vida nos chama para dentro, ainda carregamos conosco a criança que um dia respondeu, quase sem pensar:
— Só mais um pouquinho, vó.
Thoughts
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PermalinkNa minha rua era igual, só que o aviso era a minha mãe à janela, e com ela não havia mais um bocadinho que valesse.
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PermalinkGostei muito da ideia de que ninguém tinha relógio no pulso e mesmo assim a rua inteira sabia a hora junto, porque o poste acendia pra todo mundo de uma vez. Hoje cada um carrega a própria hora no bolso, e ser chamado pra dentro virou coisa que cada um resolve sozinho. A Neide ainda mora do outro lado daquele muro?
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PermalinkCadinho é palavra de mineiro, minha filha, aposto que essa rua da sua vó ficava pras bandas de Minas. Lá em casa o aviso também era o poste, e a vizinha gritava antes da mãe.
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