Você consegue ainda escrever quando ninguém está vendo? Tipo, num caderno que fica só pra você?
Publicar os teus poemas online muda aquilo que escreves a seguir?
Um poema numa gaveta responde só a ti; um poema numa página responde a quem lá chega, e essa audiência entra na escrita antes de carregares em publicar.
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Você consegue ainda escrever quando ninguém está vendo? Tipo, num caderno que fica só pra você?
Conteúdo da publicação
Escrevi poesia durante anos sem mostrar a ninguém, e depois abri uma página onde os poemas ficavam à vista. A diferença não foi de reação, foi anterior a isso. Comecei a saber, enquanto escrevia, quais os versos que iam ser lidos, guardados, respondidos. E a mão foi atrás.
Não é uma queixa contra publicar. É uma observação sobre o preço. Um poema fechado numa gaveta responde só a ti. Um poema numa página responde a quem lá chega, e essa audiência entra na escrita muito antes de carregares em publicar. Passas a corrigir para um leitor imaginado, que quase sempre é mais simpático, mais rápido e menos paciente do que tu eras sozinha.
Reparei nisto em coisas pequenas. Um poema meu tinha uma imagem áspera a meio, uma coisa que não fechava bem e de que eu gostava por não fechar. Antes de publicar, suavizei-a. Ninguém me pediu. Antecipei o comentário que nunca chegou a existir e escrevi contra ele. Foi aí que percebi que a exposição me corrige antes de eu me corrigir.
O gosto do leitor tem uma direção conhecida. Prefere o verso que se percebe à primeira e o fecho que arruma. E a poesia que me interessa vive muitas vezes do contrário: da imagem que resiste, do que fica por dizer, do incómodo que não se resolve. Quando escreves com a audiência à espreita, empurras devagar para o lado do que agrada, e o que agrada raramente é o que fica.
Isto tem uma exceção que não quero esconder. Há quem escreva melhor com leitores por perto, porque a preguiça própria é pior crítica do que qualquer estranho. Conheço esses casos e não os desprezo. Mas mesmo aí o mecanismo é o mesmo: a página educa-te para um certo poema. A questão é se é o poema que querias escrever.
Não escrevo isto para te dizer que guardes tudo. Escrevo para que saibas o que estás a trocar. Publicar dá-te leitores e tira-te uma parte da tua estranheza, e essa troca faz-se calada, sem aviso. Se vais publicar, publica a sabê-lo. Deixa pelo menos um poema por mostrar, o mais teimoso, para veres como escreves quando não estás a escrever para ninguém.
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PermalinkPassei por várias experiências nesse sentido. Primeiro online, depois livros físicos, vídeos-ensaios, roteiros... Meu criar também é muito diversificado, o que me permite experimentar a aceitação neste ou naquele suporte.
Abri uma página aqui porque percebi que, de um ano para cá, venho escrevendo em quantidade significativa e queria dar a esse material a possibilidade de ser lido. Publiquei um livro depois de ter prometido deixar a mídia física (me arrependi, de certa forma, não pelo público, mas pela falta de escrúpulos das editoras). E, nesse meio tempo, no sentido do que você falou, percebi que esta ou aquela mídia tende a aceitar determinados formatos e detrimento de outros. Por exemplo, por parte das editoras (nem tanto pelo público) poemas curtos como haicais são menos aceitos ou completamente receitados. Acho que o metro quadrado do papel é caro para eles, não sei! Já estes são muitos bem aceitos em plataformas como estas, sobretudo as que são lidas por intermédio de telas.
Textos mais longos, no entanto, parecem ter mais vida no papel. São recitados, catados, contados.
Mas, uma coisa que você falou é digna de muita atenção e cuidado: o quanto a gente escreve em função da leitura e do retorno e o quanto ser lido influencia o que s gente escreve após esse contato.
A percepção que tenho (e que ainda carece pisar muito chão para se firmar) é que tudo é questão de equilíbrio. Nem ceder demais ao ponto de se perder de sua essência, de se tornar agradável e homogêneo; nem se distanciar demais ao ponto de virar um código, uma cifra, aquilo que só os "iniciados" podem entender.
A despeito do que muitos dizem, escrever nunca será um ato solitário. É pueril esta visão do nosso ofício. Gabriel Garcia Márquez uma vez disse que quem escreve, escreve para que os outros gostem e "eu escrevo para que gostem mais de mim". Nunca um autor foi tão exato e sincero.
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