POETAS PRECISAM SOFRER
Só em casa compreendi:
à mesa,
minha obsessão ocupara a outra cadeira.
Reconheci-lhe os modos.
Era ela quem me ensinava
a esperar a próxima colher
como se nela
coubesse, enfim,
a minha fome.
E eu aceitava.
Meu âmago é meu estômago.
Sei quanto custa
levantar-se de uma mesa
ainda faminto,
levando nos lábios
o cuidado de agradecer.
Daquele modo,
alimentado,
morreria à míngua.
Tirei o blazer.
Guardei no bolso
o gesto que não chegara a fazer.
Pendurei-o com cuidado.
Havia alguma vergonha
em trazer de volta
o que, em mim,
já havia partido
para ser de alguém.
Depois, deitei.
Queria sofrer sem fazer nada
daquilo.
Dar ao silêncio
o outro lado da cama.
Deixar que a noite passasse
sem precisar merecer
um verso.
Mas lembrei de vós.
Há quem me queira
vestido daquilo
que tento, incansavelmente,
despir.
Mas a paixão
é uma roupa de pele:
quanto mais a puxo,
menos sei
se me dispo
ou me firo.
Há quem espere
que eu encontre uma forma bonita
de não suportar.
E eu,
que tão pouco recebera à mesa,
ainda vos devia
o jantar.
Levantei pingando.
O sangue do poeta
é a tinta da paixão.
O corpo aprende a vertê-lo
por onde a mão
alcança o papel.
Sentei.
Empunhei a caneta.
Um pouco de vinho.
Um pouco de whisky.
Como se à dor faltasse
alguma ajuda
para circular.
Paixão.
Passione.
Na boca, o querer.
Na página,
o que ele custa.
Escrevi até que a fome
tivesse uma forma
que pudésseis reconhecer.
Acertei o ritmo
onde a respiração falhava.
Retirei uma palavra.
Deixei o corte.
É preciso algum cuidado
para que o sangue
chegue belo
aos olhos dos outros.
Então vos servi.
E vós,
sofredores também,
aproximastes as cadeiras.
Um disse:
era isso que eu sentia.
Outro:
este é o teu melhor.
E por um instante
o aplauso me aqueceu
no lugar do blazer.
E por um instante
quis sofrer tão bem
outra vez.
Fadado
a morrer do que sinto
e viver do que escrevo,
sangro para não morrer,
publico
para que a ferida
também me sustente.
Fiquei à cabeceira
vendo-vos comer.
Poetas precisam sofrer.
Disse,
enquanto me serviam
mais uma colher
de reconhecimento.
— Tomaz Villar