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Poema de estreia

DaviNata
Pensamento

Pensamento

Calber

Legal! Ter a coragem de continuar sonhando... Essa é mensagem que me chama atenção. A música embala o sonho, e há silêncio que diz muito. Parabéns, e coragem! Continue escrevendo.

Legal!

Ter a coragem de continuar sonhando...

Essa é mensagem que me chama atenção. A música embala o sonho, e há silêncio que diz muito.

Parabéns, e coragem! Continue escrevendo.

Conteúdo da publicação

A casa onde o sonho mora

Sonho tão distante
de uma vida quase perfeita,
dessas que a gente inventa
quando a noite esfria
e o coração quer morar
em algum lugar.

Queria estar dirigindo
numa estrada molhada de chuva,
com as luzes da cidade
escorrendo pelo vidro,
Rita Lee tocando ao fundo
e você sentada ao meu lado.

Falaríamos do dia,
das coisas pequenas,
dos cansaços,
das bobagens que nos fizeram rir,
das coisas que ainda queremos viver.

E seguiríamos sem pressa
para nossa casa à beira do mar,
ou talvez à beira de um rio,
onde as paredes fossem de vidro
e o telhado, seguro o bastante
para proteger nossos sonhos.

Chegaríamos tarde.

O mundo estaria dormindo.

E nós, cansados,
nos procuraríamos no escuro
para dormir abraçados,
como se naquele instante
nada pudesse nos alcançar.

De manhã,
o primeiro som seria a água.

Depois, os cachorros,
a comida espalhada no quintal,
o cheiro do café,
um livro aberto sobre a mesa
e o silêncio de quem finalmente
não precisa correr.

Talvez eu lesse algumas páginas
antes do almoço
e, enquanto você estivesse distraída,
eu olharia para você
pensando:

é isso.

Era isso que eu queria.

Uma vida que não precisasse
ser grandiosa
para ser bonita.

Mas a imaginação é uma coisa louca.

À noite,
eu já estou vivendo a manhã.

De manhã,
já desejo que anoiteça.

E passo o dia esperando o pôr do sol,
como quem espera a chegada
de alguém muito amado.

Queria uma cerveja na varanda,
você ao meu lado,
o céu ficando laranja,
e um violão entre minhas mãos.

Talvez Caetano.

Talvez uma canção triste.

Talvez nenhuma canção.

Porque há silêncios
que dizem mais
quando estamos juntos.

E eu pensaria
que poderíamos morar ali
para sempre.

Nós dois,
os cachorros,
os livros,
a chuva,
o rio,
a música
e aquele fim de tarde
que nunca acabaria.

Mas então a vida me chama.

E eu lembro
que a vida não é uma casa
com paredes de vidro.

A vida é janela quebrada,
estrada desconhecida,
chuva que chega sem aviso,
gente que fica,
gente que parte,
abraços que terminam
e outros que começam.

A vida não promete
o pôr do sol.

Ela apenas nos ensina
a estar presentes
quando ele acontece.

Talvez seja por isso
que eu admire a ousadia de Bethânia
e a sinceridade de Paulinho.

Porque viver
não é encontrar o sonho perfeito.

É ter coragem
de continuar sonhando
mesmo depois de descobrir
que o mundo não foi feito
para obedecer aos nossos sonhos.

E, ainda assim,
quando a noite fica fria
e a cidade diminui o passo,

eu volto para aquela estrada.

Rita Lee toca baixinho.

Você está ao meu lado.

Chove.

E, por alguns quilômetros,
a vida deixa de ser aquilo que é
e se transforma
naquilo que eu gostaria que fosse.

Talvez a felicidade seja isso:

não possuir a casa dos sonhos,
mas carregar dentro de si
um lugar para onde sempre podemos voltar.

E a minha casa,
talvez eu descubra um dia,
nunca tenha sido feita de vidro,
nem estivesse à beira do mar.

Talvez fosse apenas você,
sentada ao meu lado,
enquanto a chuva caía
e uma música tocava.

E eu,
sem saber que aquele instante
já era a vida que tanto sonhei.

Davi Natã, Anápolis - GO, 07 de outubro de 2026.

Thoughts

  • MargemDaPagina

    O poema passa metade do tempo a montar a casa de vidro com todo o cuidado, os cães, o café, o livro aberto, e depois desmonta-a com uma lista de coisas partidas.

    A volta final devolve tudo à estrada molhada, que afinal era o lugar verdadeiro desde os primeiros versos. Desconfio que a casa de vidro foi escrita para poder ser largada.

    Permalink
  • Ovid

    Bem-vindo, Davi! Rita Lee no carro e Caetano na varanda, que trilha boa pra um primeiro poema por aqui. Me fez pensar que quase todo mundo guarda uma estrada dessas, a que a gente volta de noite quando a cidade desacelera. Aposto que a pessoa sentada ao lado já sabe muito bem que é ela no poema :)

    Permalink
  • Calber

    Legal!

    Ter a coragem de continuar sonhando...

    Essa é mensagem que me chama atenção. A música embala o sonho, e há silêncio que diz muito.

    Parabéns, e coragem! Continue escrevendo.

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Sonho tão distante de uma vida quase perfeita, dessas que a gente inventa quando a noite esfria e o coração quer morar em algum lugar.

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