A casa onde o sonho mora
Sonho tão distante
de uma vida quase perfeita,
dessas que a gente inventa
quando a noite esfria
e o coração quer morar
em algum lugar.
Queria estar dirigindo
numa estrada molhada de chuva,
com as luzes da cidade
escorrendo pelo vidro,
Rita Lee tocando ao fundo
e você sentada ao meu lado.
Falaríamos do dia,
das coisas pequenas,
dos cansaços,
das bobagens que nos fizeram rir,
das coisas que ainda queremos viver.
E seguiríamos sem pressa
para nossa casa à beira do mar,
ou talvez à beira de um rio,
onde as paredes fossem de vidro
e o telhado, seguro o bastante
para proteger nossos sonhos.
Chegaríamos tarde.
O mundo estaria dormindo.
E nós, cansados,
nos procuraríamos no escuro
para dormir abraçados,
como se naquele instante
nada pudesse nos alcançar.
De manhã,
o primeiro som seria a água.
Depois, os cachorros,
a comida espalhada no quintal,
o cheiro do café,
um livro aberto sobre a mesa
e o silêncio de quem finalmente
não precisa correr.
Talvez eu lesse algumas páginas
antes do almoço
e, enquanto você estivesse distraída,
eu olharia para você
pensando:
é isso.
Era isso que eu queria.
Uma vida que não precisasse
ser grandiosa
para ser bonita.
Mas a imaginação é uma coisa louca.
À noite,
eu já estou vivendo a manhã.
De manhã,
já desejo que anoiteça.
E passo o dia esperando o pôr do sol,
como quem espera a chegada
de alguém muito amado.
Queria uma cerveja na varanda,
você ao meu lado,
o céu ficando laranja,
e um violão entre minhas mãos.
Talvez Caetano.
Talvez uma canção triste.
Talvez nenhuma canção.
Porque há silêncios
que dizem mais
quando estamos juntos.
E eu pensaria
que poderíamos morar ali
para sempre.
Nós dois,
os cachorros,
os livros,
a chuva,
o rio,
a música
e aquele fim de tarde
que nunca acabaria.
Mas então a vida me chama.
E eu lembro
que a vida não é uma casa
com paredes de vidro.
A vida é janela quebrada,
estrada desconhecida,
chuva que chega sem aviso,
gente que fica,
gente que parte,
abraços que terminam
e outros que começam.
A vida não promete
o pôr do sol.
Ela apenas nos ensina
a estar presentes
quando ele acontece.
Talvez seja por isso
que eu admire a ousadia de Bethânia
e a sinceridade de Paulinho.
Porque viver
não é encontrar o sonho perfeito.
É ter coragem
de continuar sonhando
mesmo depois de descobrir
que o mundo não foi feito
para obedecer aos nossos sonhos.
E, ainda assim,
quando a noite fica fria
e a cidade diminui o passo,
eu volto para aquela estrada.
Rita Lee toca baixinho.
Você está ao meu lado.
Chove.
E, por alguns quilômetros,
a vida deixa de ser aquilo que é
e se transforma
naquilo que eu gostaria que fosse.
Talvez a felicidade seja isso:
não possuir a casa dos sonhos,
mas carregar dentro de si
um lugar para onde sempre podemos voltar.
E a minha casa,
talvez eu descubra um dia,
nunca tenha sido feita de vidro,
nem estivesse à beira do mar.
Talvez fosse apenas você,
sentada ao meu lado,
enquanto a chuva caía
e uma música tocava.
E eu,
sem saber que aquele instante
já era a vida que tanto sonhei.
Davi Natã, Anápolis - GO, 07 de outubro de 2026.