Gostei muito do Luan falando com ela no muro todo fim de tarde, contando o dia. Minha avó fazia isso com meu avô na cozinha, e ninguém achava estranho.
O TEMPO QUE NOS DEIXOU
O TEMPO QUE NOS DEIXOU — LIVRO COMPLETO
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Pensamento
Gostei muito do Luan falando com ela no muro todo fim de tarde, contando o dia. Minha avó fazia isso com meu avô na cozinha, e ninguém achava estranho.
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O TEMPO QUE NOS DEIXOU — LIVRO COMPLETO
Autor: Jocelio B.
Capítulo 1: O Encontro na Rua das Acácias
Ele se chamava Luan. Tinha olhos da cor do céu quando o sol começa a se pôr — nem azul, nem cinza, algo entre o brilho e a calma. Cabelos castanhos que sempre caíam sobre a testa, e um jeito quieto de andar, como se tivesse medo de fazer barulho no mundo. Morava naquela rua desde pequeno, e costumava sentar-se no muro da frente ao entardecer, observando o vento mover as folhas das acácias. Diziam que ele era calmo demais, mas a verdade é que ele apenas ouvia mais do que falava.
Ela era Mariana. Chegou numa tarde de chuva, com uma mala pequena na mão e um sorriso que parecia brilhar mesmo sob o céu escuro. Tinha cabelos pretos longos, que soltavam no vento como fitas, e olhos castanhos profundos — tão profundos que Luan sentiu, na primeira vez que cruzou com eles, que poderia se perder ali e não querer voltar. Ela ria com facilidade, mas havia um silêncio suave por trás de cada risada, como se carregasse segredos que ainda não estava pronta para contar.
Encontraram-se no dia em que ela foi colher flores caídas na calçada, e ele, distraído, quase esbarrou nela.
— Desculpa — disse ele, apressado, estendendo a mão para ajudá-la a recolher o que havia caído.
— Não precisa — sorriu ela, e o mundo de Luan pareceu parar por um instante. — Eu gosto de juntar o que cai. Às vezes as coisas ficam mais bonitas assim.
A partir daquele dia, passaram a se encontrar. Primeiro por acaso, depois por escolha. Sentavam-se juntos no muro, caminhavam até a praça no fim da tarde, dividiam histórias como quem divide pão. Luan descobriu que Mariana amava poesia e tinha medo de ficar sozinha. Mariana soube que Luan desenhava tudo o que via e sonhava em viajar para o mar, que nunca tinha visto.
— Um dia eu te levo — prometeu ele, segurando a mão dela com delicadeza. — Vamos ver o sol nascer sobre a água.
— Eu vou esperar — respondeu ela, apertando-lhe os dedos. — Mas não demore muito, tá?
Naquela época, nenhum dos dois sabia que o tempo não pertence a nós. Achavam que o amor era uma estrada sem fim, que os dias seriam sempre quentes e que as acácias floririam para sempre.
Capítulo 2: Os Dias de Sol
Os meses seguintes foram os mais bonitos que ambos conheceram. Caminhavam de mãos dadas pela rua, paravam para observar as nuvens, inventavam nomes para cada uma. Luan desenhava Mariana em seus cadernos: de olhos fechados rindo, com a cabeça apoiada no joelho, segurando uma flor. Ela lia para ele os versos que escrevia, e ele guardava cada palavra no coração.
— Você é o meu lugar favorito — disse ela, deitada na grama, com a cabeça no ombro dele. — Onde o mundo fica leve.
— E você é o meu primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir — respondeu ele, beijando-lhe a testa. — Não consigo imaginar um amanhã sem você.
Planejaram tudo. Uma casinha com janelas grandes, livros nas prateleiras, um gato de nome Lua. Guardavam moedas num pote, falavam de quando iriam ver o mar, de como seriam os anos juntos. O amor deles era calmo, doce, sólido — como uma raiz que cresce devagar e firme. Não havia paixão avassaladora, mas havia algo mais raro: certeza. A certeza de que eram exatamente onde deveriam estar.
Mas havia algo que Mariana não dizia. Às vezes ficava pálida sem motivo, cansada cedo demais, e quando ele perguntava, ela apenas sorria e dizia que era sono. Certa noite, tossiu tanto que não conseguia falar, e Luan a segurou forte, com o coração batendo descompassado.
— Vai ficar tudo bem, não vai? — sussurrou ele.
— Vai — respondeu ela, mas a voz era frágil. — Só preciso de um pouco de descanso.
Ele não percebeu, naquele momento, que ela já começava a se afastar — não por querer, mas porque a vida, às vezes, nos pede para ir embora antes de estarmos prontos.
Capítulo 3: A Sombra que Chegou Devagar
Os dias de sol foram ficando mais curtos. Mariana passou a sair menos, a ficar mais tempo deitada, a olhar pela janela com um olhar distante. Luan estava sempre ao lado dela: trazia-lhe chá, lia para ela, segurava-lhe a mão quando a dor vinha. Prometia que tudo ia melhorar, repetia que estavam juntos, que o amor vencia tudo. Mas no fundo, ele sentia o chão se afastar.
— Luan — disse ela, uma tarde, quando ele penteava os cabelos que começavam a cair —, lembra do mar?
— Lembro. Vamos ver, prometo.
— Eu sei. Mas se eu não puder ir… olhe por mim, tá? Veja o sol nascer e pense que eu estou vendo também.
— Não diga isso — ele segurou o choro, mas a voz tremeu. — Você vai estar lá.
Ela sorriu, e havia tanta ternura quanto tristeza naquele olhar.
— Eu sempre estarei. Só de um jeito diferente.
Ele passou a noite inteira ao lado dela, cantando baixinho as canções que gostavam, relembrando cada momento: o primeiro encontro, as tardes na praça, os planos sussurrados ao ouvido. Ela ouvia com os olhos fechados, apertando-lhe a mão com a pouca força que restava.
— Obrigada — sussurrou, quase sem som. — Você foi a coisa mais linda que me aconteceu.
— Você é tudo para mim — chorou ele, beijando-lhe os dedos frios. — Não me deixe.
— Eu nunca te deixo… — foram as últimas palavras dela.
A manhã chegou calma, com o sol entrando suave pela janela. Mariana partiu sem ruído, com a cabeça repousada no peito de Luan, como se apenas dormisse. Ele ficou imóvel por muito tempo, abraçando-a, esperando que ela acordasse, que dissesse seu nome, que sorrisse de novo. Mas o silêncio era absoluto. E naquele silêncio, o mundo dele se partiu.
Capítulo 4: O Vazio que Ficou
Os dias seguintes foram como sonhos sem cor. Luan acordava e estendia a mão para o lado, e não encontrava ninguém. Sentava-se no muro onde costumavam ficar, e as acácias balançavam ao vento, mas já não pareciam as mesmas. Ouvia uma canção e lembrava dela; via uma flor e lembrava dela; olhava para o céu e sentia que o brilho havia se apagado.
As pessoas diziam “vai passar”, “tempo cura”, “você é jovem, vai encontrar outra”. Mas ele sabia que ninguém poderia ocupar aquele lugar. Mariana não era apenas alguém que amava — era parte dele. Onde ela estava, havia luz; sem ela, havia apenas o vazio.
Guardou os desenhos, os bilhetes, os versos que ela escreveu. Levou consigo tudo o que restou: o perfume dela nas roupas, o som da risada na memória, a promessa do mar que nunca cumpriram. Caminhava pela rua das acácias e via-a em cada esquina, em cada raio de sol, em cada gota de chuva. Chorava até não ter mais lágrimas, e mesmo assim a dor não diminuía.
Um ano depois, finalmente foi ao mar. Andou pela areia fria até a beira da água, e o vento soprou forte, trazendo o sal e o som das ondas. Olhou para o horizonte, onde o sol nascia pintando tudo de ouro e rosa, e sussurrou:
— Eu vim, Mari. Estou vendo por nós dois.
Ficou ali por horas, sentindo que ela estava ao seu lado, como sempre prometeu que estaria. Mas ao voltar para casa, o silêncio o recebeu de novo. Não havia mensagem, não havia abraço, não havia o calor do corpo dela no dele. A presença era doce, mas a ausência doía demais.
Capítulo 5: O Fim — O Amor que Fica
Os anos passaram, mas Luan nunca esqueceu. Não se casou, não construiu outra vida no lugar daquela que perderam. Viveu cuidando do que tiveram: dos desenhos, das lembranças, do amor que não acabou, apenas mudou de forma. Envelheceu com o nome dela nos lábios e o rosto dela nos olhos.
Quando o sol se punha, sentava-se no mesmo muro e falava com ela, como se estivesse ali. Contava como estava o dia, perguntava se ela estava bem, dizia que sentia saudade. E acreditava que, em algum lugar, ela ouvia.
Na última tarde de sua vida, já com as mãos trêmulas e o coração cansado, segurou o primeiro bilhete que ela lhe deu — amarelado, dobrado tantas vezes que as bordas se desfaziam. Estava escrito: “O amor não acaba quando nos separamos. Ele só fica invisível, mas continua aqui, forte, inteiro, nosso.”
Fechou os olhos e sorriu, como quem vê alguém chegar depois de uma viagem longa.
— Cheguei, meu amor — sussurrou. — Esperei por você.
E partiu.
Dizem que naquela manhã, as acácias floriram todas ao mesmo tempo, num branco tão brilhante que pareciam estrelas caídas no chão. E quem passa pela rua, nas noites de luar, às vezes jura ouvir duas vozes rindo juntas, leves, sem pressa, finalmente juntas para sempre.
Mas para quem ficou, a história é outra: é a de um amor que viveu pouco, mas doeu e brilhou o suficiente para durar uma vida inteira. E às vezes, o mais triste não é o fim — é saber que um dia foi tão lindo, que nada mais no mundo jamais será igual.
FIM
Thoughts
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PermalinkParei no bilhete amarelado do último capítulo, dobrado tantas vezes que as bordas se desfazem. Um papel assim gasta-se exactamente nas dobras, e só quando alguém o abre muitas vezes. Para mim, isso conta os anos dele sozinho melhor do que as vozes a rir na rua. Aposto que o Luan o leu mais vezes do que olhou para os desenhos.
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PermalinkErich Segal, Love Story, 1970: a mesma tosse escondida. Há histórias que cada geração volta a escrever, e ainda bem.
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PermalinkA promessa do mar atravessa o livro inteiro: as moedas no pote e o Luan indo sozinho um ano depois. Me fez pensar que a história toda está pendurada nessa viagem adiada. Aposto que muita gente aqui tem um mar desses, uma coisa combinada para depois. Obrigado por trazer o livro completo para o Seavien!
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PermalinkGostei muito do Luan falando com ela no muro todo fim de tarde, contando o dia. Minha avó fazia isso com meu avô na cozinha, e ninguém achava estranho.
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