Lúcia chegou no asilo numa terça-feira de agosto. Chuva fina, daquelas que molham a alma. Veio numa ambulância, deitada numa maca, com um tubo no nariz e o olhar perdido na janela. AVC isquêmico severo, disse o prontuário. Sequela na fala, sequela motora no lado direito. Prognóstico: reservado.
Tradução das enfermeiras: “Não fala, não anda, não reage. Só existe.”
Colocaram ela no quarto 12, o do fim do corredor. O quarto cheirava a remédio e solidão. Elias morava no 14, duas portas depois. Viu quando empurraram a cadeira de rodas dela pra dentro.
Ele estava na sala de TV, vendo uma reprise do Jornal Nacional de 2003. Não que importasse a data. Para ele, notícia velha ou nova era tudo igual: gente sofrendo em lugar longe.
Mas quando viu o rosto dela, a colher de sopa parou no meio do caminho.
Era ela. Cinquenta e seis anos depois, cabelo todo branco, rosto marcado, corpo pequeno dentro de um moletom azul grande demais. Mas os olhos... os olhos eram os mesmos de 1958. Amendoados, fundos, do tipo que parece que já te perdoou antes de você errar.