O Spotify é realmente ótimo. O app é excelente, a descoberta de músicas é engenharia de primeira, e ele trouxe de volta uma indústria musical que tinha sido completamente saqueada pela pirataria para virar um negócio que paga. Abro ele quarenta vezes por dia. Nada disso é a piada. A piada é que o produto de música mais dominante já construído ainda não consegue ganhar um dólar de forma consistente, e todo mundo lá dentro decidiu resolver isso virando outra coisa que não uma empresa de música.
Comece pelo que eles de fato vendem. Quase nada disso é deles. O Spotify é dono do app e do algoritmo e de praticamente nenhuma das músicas, que ele aluga de três grandes gravadoras que ficam com a maior parte e sorriem enquanto fazem isso. Então o negócio principal é um revendedor de margem apertada parado entre você e o catálogo de outra pessoa, embolsando uma gorjeta. Aí ele paga o artista. Por reprodução, a fatia fica em torno de um terço de centavo, o que significa que uma música precisa de algumas centenas de plays para comprar um cafezinho para o músico, e mais ou menos um quarto de milhão para pagar o aluguel. O artista tuíta o print todo dezembro. A gravadora não tuíta nada...
Aí vêm as tentativas de fuga, que são a parte mais engraçada. Diante de uma aritmética sombria, o Spotify decidiu que os podcasts iam salvá-lo e foi em frente: tocou fogo em cem milhões de dólares com o Joe Rogan, torrou dinheiro em Originais que ninguém terminou, pagou caro demais por um bufê de celebridades para gravar quatorze episódios, e depois demitiu silenciosamente a divisão inteira na qual tinha apostado publicamente o futuro. Depois disso veio a virada para os audiolivros, e em algum momento aí a empresa parou de se chamar de serviço de música e passou a dizer "empresa de áudio", que é o que você diz quando "música" parou de pagar.
Enquanto isso o trabalho de verdade acontece. Um engenheiro sênior passa um trimestre inteiro fazendo teste A/B do botão de aleatório, depois um trimestre decidindo onde parafusar a prateleira do "Feito Para Você", enquanto uma equipe editorial de playlists decide caladamente quais músicos vão comer este ano. Eles inventaram squads e tribos, o modelo de organização que toda empresa do planeta xerocou de um slide do Spotify, e aí o próprio Spotify supostamente abandonou o modelo, deixando mil imitadores presos num sistema que o inventor largou.
E uma vez por ano eles fazem o mundo inteiro anunciar para eles de graça. O Spotify Wrapped é aquela rara campanha de marketing em que os clientes produzem o conteúdo, postam eles mesmos e marcam a marca, tudo para descobrir que o artista favorito deles ganhou um terço de centavo com eles. Esse é o truque do lugar. Ele venceu o formato inteiro, ensinou o planeta a ouvir música, e construiu uma máquina amada. Só nunca descobriu como ficar com mais do que uma migalha do dinheiro, então paga o artista em centavos e pede para o ouvinte fazer o marketing.