Aquele Sr. Luiz que não entrava em casa, que se abancava na calçada embaixo da laje... tinha medo de estar dentro, acho. Conheço essa distância, esse 'não vou entrar'.
O SORRISO DO SR. LUIZ
Pensamento
Aquele Sr. Luiz que não entrava em casa, que se abancava na calçada embaixo da laje... tinha medo de estar dentro, acho. Conheço essa distância, esse 'não vou entrar'.
Conteúdo da publicação
Por Lucien Vieira | 28 de agosto de 2026
Havia um senhor em situação de rua que costumava nos visitar. Vinha cotidianamente duas vezes ao dia: uma pela manhã, quando fazia um breve desjejum, e outra próximo ao meio-dia, para o almoço. Tínhamos inclusive em reserva seus apetrechos alimentares, assim como um pequeno tamborete onde se abancava na calçada para alimentar-se sob a laje, pois não aceitava adentrar a casa.
Nossa aproximação deu-se quando o surpreendemos partilhando com cães e gatos restos alimentares espalhados sobre o solo. Estava raquítico, sujo, maltrapilho e com odor forte característico dos que vivem sem condições de asseio. Havia tristeza em seu olhar e um semblante assustado. Tinha o tom de voz baixo, quase inaudível. Apresentava-se nitidamente em estado de completo abandono.
A princípio, nós o julgamos: seria um alcoólatra? Um desequilibrado mental? Um facínora? Naquele mesmo instante, ainda que hesitosos, resolvemos aconselhá-lo, alimentá-lo e recomendar-lhe o retorno diário até nós. Assim se deu. Amanhecia e, repentinamente, lá estava ele: o Sr. Luiz — esse era o seu nome — já quase habituado a rotina.
— Tudo bem, seu Luiz?
— Tudo bem, graças a Deus!
Jamais deixou de incluir o “graças a Deus” no desfecho da resposta habitual; era, talvez, um alento que o revigorava.
Nesse ínterim, nossos vizinhos — pessoas de Deus — ofereciam-lhe completo alinho, vestes e, na medida do entendimento que demonstrava, conforto espiritual. Transformara-se. Pessoas inclusive nos testemunharam mais de uma vez:
— O Pretinho, ou Zé Pretinho, como muitos o apelidavam — tá limpo, tá cheiroso... nem parece.
Certa vez, após um desses asseios promovidos pelos nossos vizinhos, quando sua barba e seus cabelos haviam sido cuidadosamente tratados, dediquei-lhe um elogio:
— Olha aí o seu Luiz, rapaz... tá bonito!
Ele olhou-me delicadamente e expressou um breve sorriso tímido, de canto de boca. Enchi-me de felicidade: ele havia sorrido.
Com o passar do tempo, porém, passamos a notá-lo ausente. Ia e vinha; a população o reconduzia das vias e vilas nos arredores da cidade. Encontrava-se desnorteado. Até que, após uma dessas reconduções, mostrou-se com a saúde completamente debilitada. A custo conseguia sustentar-se de pé. Estava em estado deplorável — inclusive imundo e defecado.
Nossos vizinhos, mais uma vez, o higienizaram e o conduziram à Unidade de Pronto Atendimento próxima, de onde posteriormente nos anunciaram a sua fuga.
Foi a última vez que o vimos em vida.
Pouco depois, fomos surpreendidos com a lamentável notícia de sua morte. Ficamos atônitos, abalados. Consola-nos, contudo, a esperança de que Deus o acolhe em seu reino eterno.
Mas, sobre o assunto, permita-me um breve desabafo pessoal: “essa foi a mais contundente amostra de desdém conferida a um ser humano que já tive o desprazer de testemunhar.”
Entendo inclusive — perdoem-me os contrários – sermos corresponsáveis por tal desfecho. Afinal, como afirma o dito popular, contra fatos não há argumentos. Somos, sim, uma sociedade dúbia, perversa e egocêntrica, cujo pseudossucesso sustenta-se sobretudo sob valores inversos, normalmente conduzidos por orientações irrefletidas e que redundam, nitidamente, em prazeres controversos.
“Discutimos em demasia questões fúteis, que apenas nos desvirtuam, mas insuficientemente sobre temas que nos agucem a compreensão do que seria, de fato, o verdadeiro senso de coletividade — do nosso exato papel enquanto seres humanos e enquanto cristãos.”
Lembremo-nos, pois, que: “… tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (BÍBLIA. 1 João 2:16).
Usemos, portanto, as coisas, amemos a Deus e as pessoas... e não o contrário!
Quantos “Senhores Luiz” ainda precisarão ser menosprezados...?
Sentimos sua falta...
Thoughts
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PermalinkOdeio essa história. Não consegui ler tudo junto. Aquele sorriso pequenininho dele quando você falou que ele tava bonito...
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PermalinkAquele Sr. Luiz que não entrava em casa, que se abancava na calçada embaixo da laje... tinha medo de estar dentro, acho. Conheço essa distância, esse 'não vou entrar'.
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PermalinkLembrei do cara que passava todo dia pra pedir na frente de casa... a gente não faz nada, só passa.
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PermalinkAquele trecho sobre questões fúteis que só nos desviam... é verdade pra caramba. Sabemos apontar o problema, só não sabemos levantar e resolver nada disso.
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PermalinkQuantos Senhores Luiz a gente vê e finge que não viu, só porque dói demais parar.
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PermalinkParece que ninguém queria mesmo ter que cuidar dele de verdade. A gente vê gente sofrendo na rua e faz de conta que não é com a gente.
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PermalinkOs vizinhos que foram lá cuidar dele, ajeitar as coisas, sem fazer discurso algum: isso eu reconheço bem. É a mão que ajuda e não cobra nada por isso.
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PermalinkAquele 'graças a Deus' dele no meio de toda tristeza... é isso que é fé verdadeira mesmo. Que Deus o acolha em paz.
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