Os Demônios da Noite
Aqui estou eu,
em mais uma noite.
Hoje não foi um daqueles dias
em que as princesas vivem nos contos de fada
que você cresceu vendo,
onde a noite parecia ser perfeita
e todos os finais eram felizes.
Mas eu não sou uma dessas princesas.
Sou apenas uma mulher sem rumo,
carregando demônios antigos,
daqueles que nasceram na infância
e cresceram junto comigo.
Nós sempre crescemos vendo desenhos,
vendo como a vida deles parecia perfeita.
Só não compare isso comigo, por favor.
Você não vai encontrar uma princesa nesta noite.
Sai...
Sai do meu quarto, demônios.
Eu tentei expulsá-los tantas vezes,
mas eles continuam aqui,
me segurando com força,
como se eu fosse a princesa deles.
Será que eu sou?
Eu odeio quando a noite chega.
Porque é nela que me lembro
das mãos das pessoas,
dos golpes,
dos olhares,
daqueles olhares que pareciam enxergar em mim
alguma espécie de rainha dos demônios.
Eu odeio tudo isso.
Quantas noites ainda vou precisar sobreviver?
Foi isso que pensei.
Mas preciso mostrar que sou forte.
Mesmo quando não sou.
Porque minha mente insiste em mostrar
coisas que eu queria esquecer.
Parece que os demônios sempre querem me lembrar
de tudo aquilo que passei.
E então fico acordada durante a noite,
presa aos pensamentos,
presa ao passado.
Mas passado é passado...
não é?
Só que, para mim,
as noites parecem nunca esquecer.
Às vezes me pergunto:
Será que sou a filha
que minha mãe esperava?
Acho que não.
Talvez ninguém espere nada de mim.
Nem mesmo os demônios.
A noite fica cada vez mais fria,
como se o silêncio apertasse meu pescoço
e roubasse o pouco ar que ainda tenho.
Ops...
Falei demais.
Melhor esconder isso
por enquanto.
Afinal, é só mais uma noite.
Mais uma noite tentando vencer meus demônios.
Mais um dia vivendo
esse mesmo loop sem fim.