O sereno
Depois do sol,
Vieram as nuvens.
Depois das nuvens, fez-se a chuva.
A chuva se precipitou,
Pensou que havia de ser tempestade.
A tempestade a muitos derribou.
Vendo os destroços,
A tempestade se entristeceu.
Então veio o sereno.
O sereno percebeu
Que nutriu a terra,
Constatou
Que expulsou o que havia de ruim,
Percebeu que também se fez
Necessária a tempestade.
O sereno se inclui
Na derradeira primavera.
Chuva serena,
Homem de tez plena,
Vê que fez o que pôde.
Sentou em sua poltrona,
Viu a criança de sua semente
Nascer, crescer,
Cheirar a flor de outras florestas.
Viu sua mulher se revoltar
Por palavras que não
Deveria declamar,
Viu ela se alegrar
Com ele fazendo o jantar.
Homem tão gentil,
Tão sorridente,
Tão rude e deprimente.
Olhou para a janela,
Viu o sereno cair,
Viu o céu se limpar.
O sereno, sentado sobre a cadeira,
Teve que aceitar
Que sua vida foi tempestade,
Foi sol e caridade.
Nutriu, também desidratou,
Brincou e também se cansou.
Basta aceitar:
Agora só restou o sereno,
E um café para tomar.