O dia inteiro pareceu que não ia acabar nunca. Fiquei de olho no relógio o tempo todo, contando os minutos pra o sol ir embora e a noite chegar de uma vez. Só quando todo mundo já tivesse ido, só quando a escola ficasse quietinha e quase vazia… é que eu ia poder te ver. Era sempre assim, sem precisar ficar explicando. A gente sabia.
Quando finalmente deu a hora, fui saindo devagar, deixando os outros passarem na frente. Esperei até ouvir as vozes se afastando e o portão fechar. O corredor ficou só comigo e com a luz fraca dos postes lá fora. Caminhei sem fazer barulho, com o coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca. E quando cheguei perto da porta dele, tava entreaberta, igual sempre. Ele tava lá, parado, olhando pra fora, como se tivesse me esperando o tempo todo.
Quando me viu, veio logo me puxando pra dentro e fechou a porta com cuidado. Me abraçou de uma vez, apertadinho, como se tivesse passado o dia inteiro com medo de que eu não aparecesse.
— Pensei que não vinha, sabia? — falou baixinho, com a voz toda doce. — Fiquei aqui pensando que talvez tivesse desistido.
— Desistir de você? — falei, chegando mais perto e tocando o rosto dele. — Nem pense isso. Pensei em tudo, é verdade. Pensei no risco, no que pode acontecer se alguém descobrir… mas nunca pensei em não vir. Ficar sem te ver é pior do que qualquer medo.
Ele soltou um suspiro, me olhou nos olhos e pareceu meio nervoso, como se tivesse algo importante pra dizer. Apertou minhas mãos nas dele e falou bem baixinho:
— Tenho uma coisa pra te contar. Não sei como vai levar isso… mas consegui outro emprego. Numa empresa bem grande, muito conhecida. É uma oportunidade incrível, e eu aceitei. Então… não vou continuar dando aulas aqui. Vou me desligar da escola em poucos dias.
Fiquei ali parada, sem saber o que dizer. A notícia me pegou de surpresa, e por um instante senti um frio na barriga.
— Vai sair? — perguntei, com a voz um pouco trêmula. — Então… não vamos mais nos ver?
Ele me abraçou mais forte, beijou o topo da minha cabeça e respondeu com carinho:
— Claro que vamos. É justamente por causa disso que quero falar. Agora não vamos mais ter que nos esconder desse jeito. Não vou mais ser seu professor. Vou ser só ele… o homem que gosta de você. Aí a gente pode ficar sem medo, sem ter que correr toda hora, sem segredos.
Senti um alívio enorme tomar conta de mim. Sorri, e os olhos até encheram de água de tanta alegria.
— É verdade? — falei, olhando pra ele. — Aí não tem mais perigo de alguém falar, de alguém proibir…?
— Exatamente. — sorriu ele, me beijando bem devagar. — Vou sair daqui, e aí é só nós dois. Dois adultos que se gostam, sem ninguém pra interferir.
Apertei ele nos braços, feliz demais, sentindo que finalmente tudo ia dar certo. O medo ia ficando pra trás, e o que vinha pela frente era nosso, de verdade.