Que jeito legal de contar. Aquela decisão de Porcina no aeroporto é o tipo de coisa que marca mesmo.
O Retorno de Roque Santeiro.
Na cena final de Roque Santeiro, a Viúva Porcina (Regina Duarte) decide ficar com Sinhozinho Malta (Lima Duarte) em vez de ir embora com Roque Santeiro (José Wilker).O Desfecho de Porcina. No…
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Que jeito legal de contar. Aquela decisão de Porcina no aeroporto é o tipo de coisa que marca mesmo.
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Na cena final de Roque Santeiro, a Viúva Porcina (Regina Duarte) decide ficar com Sinhozinho Malta (Lima Duarte) em vez de ir embora com Roque Santeiro (José Wilker).O Desfecho de Porcina. No aeroporto, dividida entre os dois amores, Porcina opta por retornar para Sinhozinho Malta, reconhecendo que, embora amasse Roque, o seu lugar verdadeiro era ao lado do coronel.
Roque sobe no avião, indo embora da cidade.
Anos depois da partida do avião, a fofoca em Asa Branca ainda era a mesma: ninguém entendia direito o que fez a Viúva Porcina dar meia-volta naquele aeroporto. O povo jurava que ela tinha escolhido o luxo, o poder do ouro ou o medo de encarar uma vida simples e sem holofotes ao lado do mito que ressuscitou. Mas só quem conhecia a alma de Porcina sabia o real peso daquela decisão.
Poucos sabiam que Roque estava vivo, e que de santo não tinha nada.
Naquela tarde abafada, enquanto o motor da aeronave roncava na pista empoeirada, o olhar de Porcina encontrou o de Roque uma última vez através da janela. O peito dela apertou com a força de um furacão. Roque era a paixão idealizada, a promessa de um amor bonito, limpo e grandioso que ela guardara no coração durante toda a juventude,apesar de conhecer Roque somente depois de seu retorno a cidade, era como se o conhecesse a vida inteira. Mas Roque também era uma sombra da própria lenda. Ao lado dele, ela seria eternamente a viúva de um santo, a coadjuvante de um milagre inventado por homens gananciosos.
Ao olhar para trás e ver Sinhozinho Malta encolhido no canto do hangar, chacoalhando o pulso com aquele ruído inconfundível de pulseiras de ouro, Porcina enxergou a verdade crua. Sinhozinho era a vida real. Era o homem imperfeito, bruto, ciumento e extravagante que a conhecia em cada defeito, que a aceitava sem véus e sem altares. Com Roque, havia a ilusão; com o coronel, havia o chão sob os pés, a cumplicidade escancarada e um amor de carne, osso e deboche.
Quando subiu no salto alto, ajeitou o turbante extravagante e caminhou na direção do coronel, o abraço dos dois selou mais do que uma escolha amorosa. Foi o triunfo da realidade sobre o mito. Roque voou para o desconhecido, levando consigo a lenda que Asa Branca precisava preservar. Porcina ficou para trás, senhora do seu próprio destino, sabendo que sua história nunca seria contada nos livros de santidade, mas seria vivida com toda a intensidade e o escândalo que só a vida real é capaz de oferecer.
Asa Branca parou. O barulho do helicóptero preto e dourado ecoou pelo vale, abafando o berrante do gado e o sino da igreja. Não era o Coronel Sinhozinho Malta chegando. Era algo novo, mais imponente, que reluzia sob o sol forte do Nordeste.
Quando a porta se abriu, um homem de terno italiano impecável desceu. O rosto, marcado por 18 anos de estradas e mundos que Asa Branca sequer sonhava, ainda conservava o contorno do mito. Mas não era mais o artesão de santos sonhador. Roque Santeiro estava de volta. E desta vez, ele não trazia apenas milagres inventados; trazia posses, poder e um cofre cheio de segredos que poderiam implodir a cidade.
A notícia correu como fogo em rastro de pólvora, chegando à Fazenda Malta antes que Roque pisasse na praça.
Na sala principal, o Coronel Malta, envelhecido, e acamado, uma sombra patética do homem que já foi, mas ainda com o pulso firme e o chacoalhar de pulseiras de ouro, empalideceu. Ele olhou para a Viúva Porcina. Ela, imponente como sempre, com turbantes ainda mais extravagantes, deixou cair a xícara de porcelana. O barulho do caco quebrando soou como um tiro no silêncio da fazenda.
O que Roque não sabia — e o que o Coronel Malta protegera com dentes, garras e muito dinheiro durante quase duas décadas — era o segredo que Porcina carregava na barriga quando correu para os braços do coronel naquele aeroporto.
A segurança que ela buscara ao lado de Sinhozinho Malta não fora apenas para si. Fora para o filho. Um menino que agora, com 18 anos, tinha os olhos sonhadores de Roque, mas o temperamento impetuoso e o sobrenome de Malta.
Roque voltara pronto para enfrentar o mito que ele mesmo criara, mas ele não estava preparado para enfrentar a sua própria carne e sangue, o herdeiro de Asa Branca que crescera odiando a lenda do pai sem saber a verdade.
A batalha final de Asa Branca não seria entre a fé e a farsa. Seria entre o passado e o presente, entre dois homens poderosos e a mulher que, mais uma vez, teria que escolher o destino da cidade e de seu próprio coração.
O coração de Porcina disparou ao ver Roque.
A penumbra do quarto principal da Fazenda Malta era quebrada apenas pelo rangido da cadeira de balanço e pelo arfar pesado do coronel. Aquele homem que outrora fazia a terra tremer ao chacoalhar suas pulseiras de ouro agora repousava no leito, definhado por um câncer de próstata agressivo em fase terminal. Sinhozinho Malta não conseguia mais andar, mas o olhar ainda guardava o resto de orgulho que lhe sobrava.
Quando a porta se abriu e Roque entrou, o contraste foi imediato. O antigo santeiro trazia o garbo de quem venceu a vida: após a partida de Asa Branca, começara do zero comprando algumas cabeças de gado e aprendera os segredos do manejo com o lendário Rei do Gado, Bruno Mezenga. Enriquecera com o próprio suor e a sabedoria das estradas de boiada.
— Chegue mais perto, Roque... — a voz de Sinhozinho era um sussurro rouco, sem o deboche de outros tempos. — Não precisa me olhar com pena. O boi velho sabe quando chegou a hora do abate.
Roque aproximou-se em silêncio, o terno impecável destoando daquele cenário de despedida.
— Por que me mandou chamar, coronel?
— Pra acertar minhas contas com o mundo antes de me deitar debaixo da terra — Sinhozinho tossiu, levando a mão frágil ao peito. — Você passou quase vinte anos achando que a Porcina me escolheu por conta do meu dinheiro, da minha influência... Mas a verdade é outra, Roque. Naquele dia, no aeroporto... ela já carregava um filho seu na barriga.
Roque paralisou. O ar pareceu faltar no quarto.
— Um filho...?
— É. Um menino — confirmou o coronel, com o olhar marejado. — Ela ficou comigo porque sabia que a lenda do Roque Santeiro ia destruir a vida daquela criança. O povo de Asa Branca ia cobrar o filho do santo, ia devorar a infância dele, os poucos que sabiam que você estava vivo, resolveram se calar, para a cidade prosperar, mas contaram para familiares, e todos ficaram em silêncio pela prosperidade da cidade em cima de um santo que nunca existiu. Eu dei meu nome, dei meu teto e dei meu amor. Criei o rapaz como se fosse do meu próprio sangue. Ele é forte, Roque. Tem o seu olhar sonhador, mas aprendeu a lidar com a terra comigo.
Sinhozinho fez um gesto fraco em direção ao criado-mudo, onde repousava um documento assinado com o selo do cartório.
— Eu tô deixando tudo pra ele. As terras, o gado, o sobrenome Malta. Ele é o herdeiro de tudo o que eu construí. Mas eu tô partindo, Roque... e a Porcina não pode ficar sozinha. O câncer tá me consumindo por dentro e eu não tenho mais forças nem pra me levantar dessa cama.
O coronel olhou no fundo dos olhos do antigo rival, a voz trêmula de emoção.
— Eu tô te entregando o meu bem mais precioso. Quero que você assuma o seu lugar de pai e que cuide da Porcina. Ela sempre foi sua, Roque. Naquele aeroporto ela me escolheu por desespero e por proteção ao menino, mas o coração dela nunca saiu daquele avião com você. Agora que você é homem de posse, de respeito, que aprendeu o valor da terra... cuide dos dois.
Antes que Roque pudesse responder, a porta do quarto se abriu devagar. Na luz do corredor, a figura de Porcina apareceu ao lado de um jovem alto, de feições marcantes e olhar curioso. O silêncio que se instalou na sala selou o encontro entre o passado que retornara e o futuro que finalmente começava.
Sinhozinho Malta explicou tudo para o jovem, -Duarte meu filho, este é teu pai, eu fui teu pai de criação, criei você desde pequeno, mas Roque foi que te deu a vida, ele não pôde estar ao seu lado, por uma obra do destino, um dia você vai saber o porquê, ele não sabia da sua existência, sua mãe ficou comigo para poder criar você, mas estou partindo, talvez ainda hoje não estarei mais com vocês, coff...... coff.....
Antes de poder dizer mais alguma coisa, Sinhozinho Malta coloca as mãos no peito, puxa o ar profundamente enquanto ergue o peito, como que puxando um ar que não vinha, tomba seus braços para o lado e antes de partir , balança os pulsos , fazendo suas pulseiras de ouro chacoalhar, naquele som que deixava muita gente nervosa.
O adeus a Sinhozinho Malta foi marcado pelo lamento sincero de Asa Branca. O homem que, com punho de ferro e pulseiras de ouro, ditara os rumos da cidade por décadas, partia deixando um vazio que muitos temiam ver preenchido por caos. Mas o destino, com sua ironia peculiar, já traçara um plano diferente.
Com o testamento do coronel lido, a surpresa foi geral, mas a maior revelação ainda estava por vir. No casarão da fazenda, em um momento de intimidade e dor, Roque, Porcina e o jovem herdeiro se reuniram. Foi ali, longe dos olhos curiosos da cidade, que a verdade foi revelada. Roque nunca soube da gravidez de Porcina quando partiu 18 anos atrás. A segurança que ela buscara ao lado do coronel Malta fora a proteção para o filho, livrando-o da cobrança e do peso que a lenda do Roque Santeiro imporia à sua infância.
O menino, com os olhos sonhadores do pai e o temperamento impetuoso do homem que o criara, ouviu a história em silêncio. A compreensão e o perdão tardio selaram o encontro entre o passado que retornara e o futuro que finalmente começava. Roque, agora um homem de posses, rico e respeitado após aprender os segredos do manejo com o Rei do Gado, Bruno Mezenga, assumiu seu lugar de pai.
Mas a maior transformação ocorreu em Porcina. A mulher extravagante, sempre coberta por turbantes e cores vibrantes, parecia, pela primeira vez, em paz. O peso de décadas de segredos e escolhas difíceis foi deixado para trás. Ao lado de Roque, ela encontrou não apenas o amor que lhe fora roubado, mas a cumplicidade e o chão firme que Sinhozinho Malta lhe prometera.
No tempo em que ficaram juntos, o Coronel não buscou mais por Porcina, no começo era uma espécie de vingança, mas com o tempo, aprendeu que o amor ❤️ de Roque e Porcina era verdadeiro, e resolve cuidar dela e do filho, satisfazendo suas necessidades com mulheres da vida em Bordéus de cidades vizinhas.
O final que Asa Branca nunca imaginara para a Viúva Porcina foi o triunfo da realidade sobre o mito. Roque e Porcina, enfim juntos, não como viúva e santo, mas como um casal que superara o tempo e a distância. E o filho, herdeiro de duas lendas, cresceu sabendo que sua história, embora complexa, fora moldada por amor e proteção.
A história que nunca tivera um final, enfim, encontrou seu desfecho, não nos livros de santidade, mas na vida real, com toda a intensidade e verdade que só ela é capaz de oferecer. Asa Branca continuou com suas fofocas, mas agora a conversa era sobre o amor que resistira a tudo e a família que, contra todas as probabilidades, se unira.
E o segredo da cidade continua sendo guardado por todos que conheciam a verdade.....
Fim
Thoughts
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PermalinkRetorno hits different 📺
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PermalinkVerdade.
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PermalinkPersonagem bem construída. Ela entendeu que o homem novo é só romantismo se você não tem onde pisar.
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PermalinkEsse ponto de Porcina escolhendo a segurança do que conhece em vez do sonho é real. Muda com a idade, mas nunca deixa de dizer não.
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PermalinkObrigado por escrever isso. A gente esquece que Porcina também era sábia. Você tem mais de Roque?
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PermalinkIsso! Gosto quando alguém defende a novela de verdade, não só pra criticar de longe. Porcina merecia essa história.
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PermalinkQue jeito legal de contar. Aquela decisão de Porcina no aeroporto é o tipo de coisa que marca mesmo.
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