Não sou a minha mente.
Não sou o meu corpo.
Não sou a voz, muito menos o som que escuto.
Então, o que sou no meio de tantas coisas que consigo observar?
Se sou um conjunto de coisas, então não sou um.
Não tenho domínio sobre minha mente, sobre meus pensamentos, sobre aquilo que acontece consciente ou inconscientemente. Há coisas que surgem em mim sem que eu tenha pedido por elas, pensamentos que chegam antes mesmo que eu consiga decidir se quero pensá-los.
Então, o que sou eu no meio de tudo isso?
Observo minha mente pensar.
Quando ela começa com seus pensamentos absurdos, acabo verbalizando alguma coisa para tentar controlar o que acontece dentro dela.
Como se uma parte de mim precisasse falar com outra para impedir que ela avance.
Mas, então, qual das duas sou eu?
Não posso ser o pensamento inicial que surgiu de surpresa. Ele simplesmente apareceu. Não pedi por ele, não o escolhi, não o construí conscientemente.
Será que sou a consciência que percebeu o pensamento e tentou calá-lo?
Mas, quando conscientemente tropeço nos meus próprios pensamentos, ainda sou eu? Ou posso culpar alguma outra parte que opera dentro de mim sem que eu consiga alcançá-la?
Onde termina o que sou e começa aquilo que simplesmente acontece em mim?
Não sei como consigo mexer minhas mãos.
Sei que posso decidir movê-las, mas não sei explicar o processo que transforma uma intenção em movimento até a ponta dos dedos. Se tivesse que explicar exatamente como faço isso, não conseguiria.
Não sei por que sinto aquela coceira do lado interno da pele. É incômodo. Às vezes dói. E ainda assim, ela simplesmente está ali, acontecendo em mim, sem que eu saiba de onde veio.
Não sei como meu corpo decide tantas coisas antes que eu sequer perceba que elas aconteceram.
Não sei por que, às vezes, meus pulmões parecem não compreender a própria capacidade.
Eles deveriam saber respirar.
Eu deveria saber existir.
Mas, quando observo tudo de perto, percebo que não sei explicar nenhuma das duas coisas.