O Pecado dos Espelhos
Dizem que os espelhos foram inventados
para ensinar os homens a suportarem a própria existência.
Mentiram.
Foram criados à tua espera.
Durante séculos limitaram-se
a repetir rostos fatigados,
olhos onde a esperança já apodrecera,
sorrisos gastos pelo comércio quotidiano da sobrevivência.
Aprenderam a reflectir,
mas nunca compreenderam.
Então chegaste.
E, pela primeira vez,
o vidro deixou de ser vidro.
Vi-o hesitar.
Como um velho sacerdote
que encontra Deus tarde demais,
o espelho esqueceu a sua obrigação
de devolver o mundo
e ajoelhou-se diante de um único reflexo.
Desde esse dia,
nós já não nos vemos.
Somos apenas visitantes
num templo erguido para a tua passagem.
Os nossos rostos atravessam o cristal
como sombras que pedem licença
a uma luz que nunca lhes pertenceu.
Há qualquer coisa de cruel na tua beleza.
Não porque humilhe,
mas porque revela.
Ela recorda-nos
que a natureza desperdiça milagres
com a mesma indiferença
com que distribui a ferrugem,
a doença
e o esquecimento.
Talvez seja por isso
que os espelhos permanecem em silêncio
quando te aproximas.
Sabem que toda a verdade possui um preço.
E contemplar-te
é descobrir,
com a serenidade de uma sentença,
que alguns seres não foram feitos
para ser amados.
Foram feitos
para condenar o resto de nós
à insuportável consciência
de que a perfeição existiu,
ainda que apenas por um instante,
e escolheu um rosto
que nunca seria o nosso.