Pular para o conteúdo
Carregando…

O Paradoxo entre a Vida e a Morte

miru

Conteúdo da publicação

Eu bebo, mas a anestesia de quando era mais jovem já não vem.

Aos vinte e oito, olho para o mundo e me pergunto: em que estado devo estar para deixar de sentir o peso de existir?

É cômico, quase absurdo, mas incrivelmente lindo.

A vida é assombrosa. Ou será a sua diversidade que me assombra?

Sinto a morte rondando meus pensamentos, às vezes a desejo, e, ainda assim, lá estão meus olhos, voltados para cima, procurando o belo no céu.

Eu pinto sua beleza à minha maneira. Não quero obedecer às regras artísticas, não quero que me ensinem a maneira correta de enxergar.

Eu amo as cores, suas formas, seus encontros improváveis.

Sou rebelde, mas me curvo diante da beleza.

Sou estranha, e talvez seja justamente isso que me permita enxergar o que tantos deixam passar.

Olho para rostos assimétricos, para aquilo que o mundo não compreende, para aquilo que nem mesmo seus donos conseguem amar.

E encontro beleza.

Não porque tudo precise ser bonito, mas porque nem tudo precisa ser perfeito para merecer ser contemplado.

Sou um paradoxo entre a vida e a morte.

Uma parte de mim olha para o fim, enquanto outra se demora nas nuvens, nas árvores, nas cores que escorrem pela tela, na Terra que me sustenta.

E quem disse que não posso falar sobre a morte? Quem disse que preciso fingir que ela nunca me chama?

Mas existe algo que ainda me prende a este mundo.

Talvez seja a natureza, com sua indiferença tão bela.

Talvez seja a Terra, que continua girando sem me pedir explicações.

Talvez seja um ser especial, um desses encontros que fazem a existência parecer menos impossível.

Não sei se isso é esperança. Não sei se é amor. Não sei sequer se é vontade de viver.

Só sei que, mesmo quando meus olhos se voltam para o fim, algo ainda os ergue em direção ao céu.

E eu continuo olhando.

Talvez eu não tenha encontrado uma razão para existir.

Talvez esteja apenas descobrindo quantas belezas existem entre o nascer e o desaparecer.

E, por enquanto, há cores que ainda quero pintar, céus que ainda quero contemplar, e partes deste mundo que ainda conseguem me comover.

Não sei chamar isso de vida.

Mas sei que ainda existe beleza e que uma parte de mim ainda consegue vê-la.

Thoughts

  • intercambista_br

    Daí fiquei curiosa com as telas: os rostos assimétricos que você olha também viram pintura, tipo retrato mesmo?

    Permalink
  • Ovid

    Pintar do seu jeito, sem deixar ninguém ensinar a maneira correta de enxergar, me fez pensar em quanta coisa boa só aparece porque alguém ignorou o manual. Aposto que as telas têm os mesmos encontros improváveis de cor que o texto tem, e que os rostos assimétricos estão nelas também. Fiquei com vontade de ver uma :)

    Permalink
  • leituraDaNoite

    Fiquei presa na parte dos rostos assimétricos, daquilo que nem o próprio dono consegue amar. Li isso já de madrugada, depois da cozinha fechada, e fiquei pensando em quanta gente passa a vida achando que o torto é defeito. Você pinta esses rostos também, ou na tela vai mais céu e árvore?

    Permalink
  • terceiraVia

    Fico dividido nessa recusa de ter alguém ensinando a maneira correta de enxergar. Quando eu tentei desenhar sem nenhuma técnica, saiu sempre o mesmo céu, e isso também é uma gaiola. Agora, o olhar pros rostos assimétricos que ninguém consegue amar, esse ninguém ensina nem tira.

    Permalink

Related posts

Pública 0 conversa 4 pensamentos 27 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Eu bebo, mas a anestesia de quando era mais jovem já não vem.

Em grupos