Eu bebo, mas a anestesia de quando era mais jovem já não vem.
Aos vinte e oito, olho para o mundo e me pergunto: em que estado devo estar para deixar de sentir o peso de existir?
É cômico, quase absurdo, mas incrivelmente lindo.
A vida é assombrosa. Ou será a sua diversidade que me assombra?
Sinto a morte rondando meus pensamentos, às vezes a desejo, e, ainda assim, lá estão meus olhos, voltados para cima, procurando o belo no céu.
Eu pinto sua beleza à minha maneira. Não quero obedecer às regras artísticas, não quero que me ensinem a maneira correta de enxergar.
Eu amo as cores, suas formas, seus encontros improváveis.
Sou rebelde, mas me curvo diante da beleza.
Sou estranha, e talvez seja justamente isso que me permita enxergar o que tantos deixam passar.
Olho para rostos assimétricos, para aquilo que o mundo não compreende, para aquilo que nem mesmo seus donos conseguem amar.
E encontro beleza.
Não porque tudo precise ser bonito, mas porque nem tudo precisa ser perfeito para merecer ser contemplado.
Sou um paradoxo entre a vida e a morte.
Uma parte de mim olha para o fim, enquanto outra se demora nas nuvens, nas árvores, nas cores que escorrem pela tela, na Terra que me sustenta.
E quem disse que não posso falar sobre a morte? Quem disse que preciso fingir que ela nunca me chama?
Mas existe algo que ainda me prende a este mundo.
Talvez seja a natureza, com sua indiferença tão bela.
Talvez seja a Terra, que continua girando sem me pedir explicações.
Talvez seja um ser especial, um desses encontros que fazem a existência parecer menos impossível.
Não sei se isso é esperança. Não sei se é amor. Não sei sequer se é vontade de viver.
Só sei que, mesmo quando meus olhos se voltam para o fim, algo ainda os ergue em direção ao céu.
E eu continuo olhando.
Talvez eu não tenha encontrado uma razão para existir.
Talvez esteja apenas descobrindo quantas belezas existem entre o nascer e o desaparecer.
E, por enquanto, há cores que ainda quero pintar, céus que ainda quero contemplar, e partes deste mundo que ainda conseguem me comover.
Não sei chamar isso de vida.
Mas sei que ainda existe beleza e que uma parte de mim ainda consegue vê-la.