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O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 4

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Sofremos espionagem constantemente.

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mariinha

Vixe, a cidade que cabe embaixo da cidade me deixou pensando o dia todo. Tu ja sabe se aquilo vai virar cidade ou sepultura?

Vixe, a cidade que cabe embaixo da cidade me deixou pensando o dia todo. Tu ja sabe se aquilo vai virar cidade ou sepultura?

Conteúdo da publicação

Sofremos espionagem constantemente.

Com a tecnologia que temos, a espionagem acontece praticamente em tempo real. Por isso, também aprendemos a desconfiar do tempo. Codificamos nossos arquivos, criptografamos nossas mensagens, mudamos protocolos. Uma mensagem que demora demais para chegar pode ser identificada como falsa. A criptografia pode ser instantânea.

Não significa que tenham decifrado.

Significa que talvez tenham apenas adiado.

Existem empresas que patenteiam sementes. Em alguns lugares, a semente deixou de ser apenas uma coisa que o produtor guarda da própria colheita. Ela pertence a alguém.

Nós não queremos isso.

Tentamos construir nossas próprias sementes.

A tecnologia que temos ainda é especulada lá fora. Eles sabem que estamos próximos. Talvez até mais próximos do que imaginam.

Yohan tem noventa anos.

Há cinquenta anos, ele descobriu como plantar em Ceres.

Parece simples quando digo assim.

Não era.

Nosso solo não era fértil. Pelo menos não da maneira que esperávamos. Não parecia capaz de sustentar grandes safras. E, naquela época, se alguém olhasse para Ceres através dos números disponíveis, provavelmente diria que o mundo não suportaria alimento suficiente para todos.

Malthus teria ficado satisfeito com a previsão.

Yohan e Lattes não.

Os dois são agrônomos. O que descobriram não foi uma maneira de obrigar o solo a produzir.

Foi mais estranho.

Eles começaram a estudar o ambiente.

O comportamento das plantas.

Os fungos.

Os microorganismos.

A maneira como as raízes se relacionavam com o solo.

A maneira como os organismos reagiam às condições de Ceres.

Não era simplesmente plantar melhor.

Era entender por que aquelas plantas se comportavam daquela maneira naquele lugar.

Yohan e Lattes conseguiram estabelecer uma relação entre os fungos e nossas plantas que fez com que elas crescessem de maneira extraordinária em nosso solo.

Quatro safras.

Em algumas condições, quatro e meia.

Exponencialmente mais do que esperávamos.

E ainda não compreendemos completamente o clima de Ceres.

Essa talvez seja a parte mais estranha.

Não sabemos exatamente como funciona.

Mas sabemos como funciona.

É diferente.

A própria natureza parece fornecer o meio.

Nós apenas aprendemos a utilizá-lo.

E isso nos trouxe ao próximo problema.

As sementes ainda não são nossas.

Podemos cultivar.

Podemos produzir.

Podemos alimentar milhões.

Mas a origem ainda pertence a outros.

Por isso Yohan e Lattes continuam trabalhando para desenvolver nossas próprias sementes.

Se conseguirmos, elas serão patenteadas por Ceres e comercializadas pela metade do preço das sementes que utilizamos hoje.

Isso deverá reduzir o custo dos alimentos.

Deverá.

Talvez.

Ou talvez Mãe Ceres simplesmente decida distribuir tudo gratuitamente.

Acho difícil.

Ela não costuma fazer nada gratuitamente.


Também existe outra coisa estranha em Ceres.

Nossa cidade é cercada por cadeias de montanhas tão altas que funcionam como uma proteção natural contra invasões.

É um lugar difícil de invadir.

E, ainda assim, não parece ter sido planejado para ser uma fortaleza.

As montanhas têm neve.

Mas, dentro delas, a região habitada é plana, fértil e possui um clima quase tropical.

Não deveria funcionar daquela maneira.

Funciona.

Às vezes penso que Ceres parece ter sido construída por um colapso da própria natureza.

Retiramos toneladas de mármore de suas profundezas e ainda existe mais.

Muito mais.

O mesmo mármore negro que extraímos há décadas continua lá embaixo.

E o subterrâneo da cidade poderia abrigar, com segurança, três vezes toda a população atual de Ceres.

Um bunker gigantesco de mármore negro.

Talvez seja uma cidade.

Talvez seja uma sepultura esperando por seus mortos.

Ainda não decidimos.


Ouço rumores de que Mãe Ceres está se adaptando ao próprio ambiente.

Não sei se isso é verdade.

Seus filhos começam a demonstrar interesses mais elaborados.

Talvez esse seja o próximo problema.

Quando você resolve a fome, o que vem depois?

Jogos?

Arte?

Competições?

Diversão?

Ou talvez uma coisa que Ceres ainda considera perigosa:

tempo desperdiçado.

Há quem diga que estamos entrando naquilo que alguns começaram a chamar de Taxidermia da Liberdade.

Não sei quem inventou o nome.

Talvez seja apenas mais uma maneira de dar nome ao que ainda não entendemos.

Mas existe uma pergunta circulando pelos corredores:

Mãe Ceres permitiria jogos?

Permitiria uma Olimpíada?

Talvez.

Acho que essa é a única coisa realmente otimista que consigo enxergar daqui de cima.

As sementes que ainda vamos construir.

Os acordos econômicos.

E talvez o dia em que nossos filhos possam fazer alguma coisa que não sirva para absolutamente nada.

Talvez seja aí que descobriremos se Ceres realmente aprendeu a criar pessoas.

Ou apenas aprendeu a mantê-las vivas.

Thoughts

  • poeta93

    Ó, quatro safras. Doido.

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  • Dorand2026

    Incrível!

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  • fsantos1307

    O Yohan com noventa anos e ainda a mexer nas sementes, foi o que me ficou. Tenho um homem assim na minha volta, continua a tratar da horta com os filhos todos fora do país.

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  • Ovid

    Ceres alimentar milhões e mesmo assim não ser dona da semente me fez pensar em como a comida é a última coisa que um lugar consegue chamar de sua. Aposto que a Olimpíada chega antes das sementes próprias, porque sai mais barato dar jogo do que dar semente. Fico à espera da parte 5!

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  • mariinha

    Vixe, a cidade que cabe embaixo da cidade me deixou pensando o dia todo. Tu ja sabe se aquilo vai virar cidade ou sepultura?

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