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O menino e a areia

LassDeLima
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Neste mundo havia aldeias, demônios e guerras. Muitas guerras. Elas eram tão frequentes que todas as aldeias eram controladas por militares e guerreiros, e suas regras e culturas eram baseadas no…

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O que ficou comigo não foi a luta, foi a cena da criançada aprendendo a odiar o menino porque os adultos ensinaram. Isso acontece antes de qualquer demônio aparecer. Quando a pedra sai da mão de um moleque de sete anos, alguém em casa passou meses prepara

O que ficou comigo não foi a luta, foi a cena da criançada aprendendo a odiar o menino porque os adultos ensinaram. Isso acontece antes de qualquer demônio aparecer. Quando a pedra sai da mão de um moleque de sete anos, alguém em casa passou meses preparando aquele braço. Eu vi essa preparação de perto.

Conteúdo da publicação

Neste mundo havia aldeias, demônios e guerras. Muitas guerras. Elas eram tão frequentes que todas as aldeias eram controladas por militares e guerreiros, e suas regras e culturas eram baseadas no militarismo e tinham como objetivo a vitória nas guerras, já que ela significava a sobrevivência da aldeia.

Um dia, em uma aldeia localizada no meio do deserto, nascia um menino de pele pálida, olhos azuis e cabelo vermelho como o amor. Seu pai era o chefe da aldeia e, como líder e militar, precisava pensar no melhor para seu povo. Por isso, pediu que uma anciã, médica aposentada, prendesse o Demônio da Areia no corpo do menino antes mesmo que ele nascesse. Com isso, o pai teria essa arma, o demônio, perto de si para usar pelo bem do povo, mesmo que isso custasse o seu próprio filho.

No entanto, prender o demônio no corpo do bebê ainda no ventre da mãe provocou um nascimento prematuro, além de um desgaste físico que a deixou fraca demais para sobreviver ao parto. Ela teve tempo de olhar nos olhos do menino, presenciar seu primeiro sorriso ao nascer e entregar palavras que seriam raras na vida que viria pela frente.

"Eu te amo, meu filho. Eu sempre vou te amar. Gostaria de te proteger..."

E antes que pudesse terminar, sua vida se foi, deixando o menino sozinho em um mundo nada gentil.

O menino cresceu isoladamente sendo treinado pelo próprio pai e pelo tio materno. Para o pai, ele não passava de uma arma que deveria ser usada quando fosse necessário pela aldeia, mas para o tio era o sobrinho amado por quem sua irmã deu a vida.

Raramente ele podia caminhar pela aldeia e interagir com outras pessoas, mas os outros não o recebiam bem, pois todos sabiam que ele era o portador do Demônio da Areia. Os adultos o evitavam e ensinavam as crianças a odiá-lo.

Até que um dia, quando o menino tentou se aproximar de outras crianças que já haviam escutado sobre ele, elas reagiram com xingamentos e pedras, tomadas pelo ódio.

Porém, o Demônio da Areia concedia alguns poderes ao garoto, entre eles, a autodefesa. Acreditava-se que, por causa do demônio, a areia o protegeria mesmo que ele não quisesse. O menino não precisava mover um dedo ou desejar que a areia o defendesse.

Então, enquanto se abaixava e se encolhia, chorando porque só desejava ser amado e tentando se proteger das pedras e dos xingamentos, o menino sentiu um cheiro, um cheiro vermelho, cheiro de vida e de morte ao mesmo tempo.

Era sangue, o sangue das crianças. O cheiro, a cor, a textura, tudo era desconhecido ao garoto que, por causa da areia, nunca havia se machucado.

O Demônio da Areia sorriu através dos lábios do garoto.

Mais tarde, ao explicar para o tio o que havia acontecido e tentar entender por que todos o odiavam, o menino perguntou o que era a dor. Como a areia o impedia de se machucar, ele não entendia bem o conceito. Após o tio explicar o que era dor, o menino prontamente respondeu:

"É isso que eu sinto no meu peito."

Os olhos do tio se encheram de lágrimas, então ele explicou que existem dois tipos de dor: algumas dores podem ser curadas com medicamentos; outras, como essa que você sente no peito, só podem ser curadas com amor.

Aquela conversa deixou o menino cheio de esperança. Ele sabia o que fazer para curar o coração das pessoas da aldeia que o odiavam. Ele pretendia dar amor e explicar o que sentia. Tinha certeza de que as pessoas o entenderiam. Então voltou à aldeia para se desculpar com as crianças que havia machucado sem querer.

A areia reagiu!

O garoto procurava desesperadamente descobrir de onde havia vindo o ataque que a areia evitara. Um guerreiro rápido demais para os olhos do garoto, que ainda estava em treinamento, movia-se entre as casas.

A areia evitou um ataque no coração, outro na nuca e, por fim, um golpe no rosto. Todos tinham uma única intenção: matar.

Tudo acontecia rápido demais para o garoto, mas não para a areia, que segurou o assassino, impedindo-o de se mover. O garoto estava assustado demais para se mover, sem entender por que um assassino mascarado tentaria matá-lo.

Mas o assassino não desistiu mesmo sendo restringido pela areia e tentou realizar um último ataque, que foi interrompido pela areia atravessando seu peito.

Ao perceber que o assassino não conseguiria atacá-lo novamente, a areia o soltou e o menino caminhou para remover a máscara. Enquanto a retirava lentamente com medo da confirmação, o menino notava os cabelos, o tamanho do corpo, o cheiro, o amor.

Ao retirar completamente a máscara, teve a certeza: era seu amado tio.

"Por quê?!"

O tio explicou que o próprio pai do menino o havia mandado. Um conselho de anciões da aldeia concluíra que o menino era um experimento falho e um perigo para a aldeia e que, por isso, deveria ser eliminado. O tio, como soldado, seguiria ordens independentemente de seus sentimentos.

O menino explodiu de ódio. O que fez para merecer essa vida? Todos o odiavam e ele só queria amar e ser amado.

Tudo isso por causa de um demônio que ele nem escolheu ter em seu corpo? Que culpa tinha se o demônio o protegia com sua areia? Por que só ele não poderia conhecer o amor?

Nem mesmo seu pai o ama e até o seu tio, a única pessoa que o amou, foi enviado para matá-lo.

Naquele momento, consumido pelo ódio e tomado pelo sorriso do demônio, o garoto se transformou. Então, a areia escreveu o símbolo do amor em sua testa. A areia que o protegia também era a única capaz de marcar sua pele.

A partir daquele dia, o sangue que, há pouco, era desconhecido se tornou familiar: o sangue dos outros. O menino bondoso abraçou o demônio e a própria loucura, matando qualquer um que entrasse em seu caminho.

Treinou e se tornou mais forte. Além da força extrema e da defesa involuntária proporcionada pela areia, o garoto agora possuía ataques poderosos e ódio o bastante para usá-los sem piedade.

Um verdadeiro perigo, um vilão, a arma que seu pai tanto queria. Infelizmente para seu pai, ele morreu cedo demais para ver o filho se tornar a arma desumana que ele desejara.

Anos se passaram, e o menino agora se alimentava do medo e do ódio dos outros. Chegaria a matar quem ousasse não temê-lo.

Um dia, esse menino, agora um jovem militar, foi convidado, junto com outros, a participar de um evento em uma aldeia aliada. A ocasião tinha como objetivo fortalecer os laços entre os aliados e também demonstrar seus poderes militares.

Simulações de guerra, combates e diversas atividades militares eram realizadas nesse evento.

Nesse evento, o menino conheceu outro jovem portador de um demônio. Ambos eram nada mais que armas para suas respectivas aldeias.

No entanto, o outro jovem tinha uma diferença marcante em relação ao menino da areia: ele sorria.

O menino do fogo sofrera rejeição, violência e solidão, assim como o menino da areia, mas continuava sorrindo, feliz e já havia conseguido alguns amigos.

Mesmo sendo odiado, mesmo apanhando, mesmo sendo atacado, o menino do fogo insistiu no amor, insistiu em fazer amigos e ser amado.

Durante um combate duríssimo entre os dois meninos, o menino do fogo jurou que não desistiria do menino da areia. Disse que o entendia e que o amaria se ninguém mais o amasse.

O menino do fogo chorou e pediu que o menino da areia tentasse mais uma vez. Mesmo que ninguém os aceitasse, eles aceitariam um ao outro.

Aquele discurso foi transformador para o menino da areia, que passara tantos anos arrancando sangue dos outros. Pela primeira vez, decidiu buscar uma forma de proteger as pessoas em vez de destruí-las.

Passou anos se redimindo diante de sua aldeia, demonstrando que havia mudado e que suas ações não eram controladas pelo demônio. Treinou tanto que se tornou o guerreiro mais forte de sua aldeia. Anos depois, foi promovido a chefe, assumindo o mesmo cargo que um dia pertencera ao seu pai.

Agora transformado, poderia criar uma vila mais humanizada e colocar em prática as lições de amor que aprendera com o menino do fogo. Eram lições que já praticava havia anos.

Após anos como chefe da aldeia, houve uma invasão. Como chefe e guerreiro mais forte, ele se apresentou imediatamente aos invasores para proteger a aldeia.

Iniciou-se um combate, e os invasores deixaram claro que o objetivo deles não era a aldeia ou qualquer bem físico, mas o Demônio da Areia, que estava no corpo do líder da aldeia.

Pelo bem da aldeia, ele entregaria o demônio se pudesse. Mas, se fizesse isso, aquela arma poderia ser usada contra seu próprio povo. Além disso, remover o demônio de seu corpo lhe custaria a vida.

O combate aéreo foi intenso. O inimigo era desconhecido, mas veio preparado para lutar contra o portador do Demônio da Areia, e, por isso, tinha uma grande vantagem: conhecia seu adversário.

Além disso, como chefe, ele mantinha uma camada de areia protegendo toda a aldeia, o que consumia grande parte da energia que poderia ser usada contra o invasor.

Com todas essas desvantagens, ainda que o invasor fosse mais fraco, o chefe perdeu o combate e foi sequestrado para ter o demônio extraído de seu corpo por uma organização misteriosa à qual pertenciam os invasores.

Quando as notícias se espalharam, diversos guerreiros se uniram e foram enviados para resgatar o menino, entre eles estava o portador do Demônio do Fogo, que provavelmente seria a próxima vítima da organização misteriosa, e uma anciã, a mesma médica aposentada que prendeu o demônio no corpo do menino.

Após muitos combates e investigações, localizaram o chefe da aldeia da areia, mas chegar até ele exigiu ainda mais batalhas.

Todos estavam no limite quando finalmente o encontraram. Mas o que conseguiram alcançar foi apenas o corpo do menino.

Com o demônio extraído, aquele corpo jazia sem vida. A areia não reagia.

Foi então que a anciã, responsável por prender o demônio no garoto e condená-lo àquela vida sofrida, decidiu usar uma magia para trazê-lo de volta à vida. Ela queria reparar, ainda que tarde demais, o que havia feito.

Isso custaria a vida da anciã, mas, como militar, ela aprendera a considerar sua própria vida um preço aceitável pela sobrevivência do chefe da aldeia.

Assim foi feito, e o menino foi revivido. Agora, sem o demônio em seu corpo, estava livre.

Algum tempo depois, aquela mesma organização misteriosa iniciou uma guerra contra o mundo.

Nessa guerra, a organização usou técnicas proibidas para trazer antigos guerreiros de volta à vida e fazê-los lutar ao seu lado. Mesmo contra a vontade desses guerreiros.

Dentre esses guerreiros estava o antigo chefe da aldeia da areia, o pai do menino.

O destino encarregou-se de colocar o antigo chefe contra o novo chefe, o pai cruel contra o filho sofrido.

Durante o combate, o pai descobriu que o filho já não tinha mais o demônio em seu corpo, mas que algo não fazia sentido: a areia continuava a protegê-lo.

Mesmo sem o demônio, a areia se movia involuntariamente, sem a vontade do menino.

O pai questionava, mas o menino não sabia nem queria responder.

No entanto, a areia respondeu. Ela se materializou em volta do garoto como mãos sobre sua cabeça, protegendo-o.

Um rosto apareceu na areia. Um rosto familiar ao pai do menino.

Era o rosto da mãe.

Nunca foi o demônio.
Nunca foi o ódio.
Quem sempre protegeu o garoto através da areia foi sua mãe.
Era o amor.


História de Suna no Gaara.

Thoughts

  • HoracioMelo

    Pobre miúdo. 😔

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  • GasparRibeiro

    A areia continua a defendê-lo depois de lhe tirarem o demónio, e só o pai repara nisso. Mais ninguém na aldeia questiona como, o que é esquisito num sítio que vive de guerra.

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  • EsquinaDaLeitura

    O que ficou comigo não foi a luta, foi a cena da criançada aprendendo a odiar o menino porque os adultos ensinaram. Isso acontece antes de qualquer demônio aparecer. Quando a pedra sai da mão de um moleque de sete anos, alguém em casa passou meses preparando aquele braço. Eu vi essa preparação de perto.

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  • BiaCastelo

    O pai não aparece como monstro em nenhuma cena, e é isso que assusta. Ele calcula o que serve à aldeia e assina embaixo, do jeito de quem manda e faz a conta fechar. Pra mim o vilão da tua história não é o demônio nem o pai, é o conselho de anciãos que decidiu matar uma criança e foi dormir.

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  • ArnaldoBessa

    Cheguei no fim e vi o nome do Gaara. Pra mim era um relato de deserto até ali, e o final mudou a cor de tudo que eu tinha lido antes.

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  • LassDeLima

    Só pra deixar claro: o Gaara é um personagem secundário do mangá japonês Naruto. A história dele foi criada pelo Masashi Kishimoto; eu apenas reescrevi e adaptei os acontecimentos para contar essa história de uma forma mais emocionante. Não inventei o personagem nem os acontecimentos, só fiz uma releitura narrativa.

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  • AlmaTavares

    A frase da mãe fica cortada a meio e ninguém a termina. Foi isso que me ficou, mais do que toda a violência que vem depois. Parece que escreveste isto a pensar mais nela do que no rapaz.

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  • Ovid

    A areia se levanta como duas mãos da mãe em cima da cabeça dele, no meio da luta contra o pai. Isso vira do avesso tudo que veio antes, porque a coisa que a aldeia inteira chamou de demônio estava protegendo o menino desde o parto. Gostei muito de ler isso hoje! Vai postar mais histórias assim por aqui?

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  • dcabral51

    O tio recebe a ordem e cumpre, e depois fica calado o resto da vida. Já vi isso de perto, gente fazendo o que mandaram contra o próprio sangue. Essa parte, pra mim, pesou mais que o demônio.

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