A frase da mãe fica cortada a meio e ninguém a termina. Foi isso que me ficou, mais do que toda a violência que vem depois. Parece que escreveste isto a pensar mais nela do que no rapaz.
O menino e a areia
Neste mundo havia aldeias, demônios e guerras. Muitas guerras. Elas eram tão frequentes que todas as aldeias eram controladas por militares e guerreiros, e suas regras e culturas eram baseadas no…
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Pensamento
A frase da mãe fica cortada a meio e ninguém a termina. Foi isso que me ficou, mais do que toda a violência que vem depois. Parece que escreveste isto a pensar mais nela do que no rapaz.
Conteúdo da publicação
Neste mundo havia aldeias, demônios e guerras. Muitas guerras. Elas eram tão frequentes que todas as aldeias eram controladas por militares e guerreiros, e suas regras e culturas eram baseadas no militarismo e tinham como objetivo a vitória nas guerras, já que ela significava a sobrevivência da aldeia.
Um dia, em uma aldeia localizada no meio do deserto, nascia um menino de pele pálida, olhos azuis e cabelo vermelho como o amor. Seu pai era o chefe da aldeia e, como líder e militar, precisava pensar no melhor para seu povo. Por isso, pediu que uma anciã, médica aposentada, prendesse o Demônio da Areia no corpo do menino antes mesmo que ele nascesse. Com isso, o pai teria essa arma, o demônio, perto de si para usar pelo bem do povo, mesmo que isso custasse o seu próprio filho.
No entanto, prender o demônio no corpo do bebê ainda no ventre da mãe provocou um nascimento prematuro, além de um desgaste físico que a deixou fraca demais para sobreviver ao parto. Ela teve tempo de olhar nos olhos do menino, presenciar seu primeiro sorriso ao nascer e entregar palavras que seriam raras na vida que viria pela frente.
"Eu te amo, meu filho. Eu sempre vou te amar. Gostaria de te proteger..."
E antes que pudesse terminar, sua vida se foi, deixando o menino sozinho em um mundo nada gentil.
O menino cresceu isoladamente sendo treinado pelo próprio pai e pelo tio materno. Para o pai, ele não passava de uma arma que deveria ser usada quando fosse necessário pela aldeia, mas para o tio era o sobrinho amado por quem sua irmã deu a vida.
Raramente ele podia caminhar pela aldeia e interagir com outras pessoas, mas os outros não o recebiam bem, pois todos sabiam que ele era o portador do Demônio da Areia. Os adultos o evitavam e ensinavam as crianças a odiá-lo.
Até que um dia, quando o menino tentou se aproximar de outras crianças que já haviam escutado sobre ele, elas reagiram com xingamentos e pedras, tomadas pelo ódio.
Porém, o Demônio da Areia concedia alguns poderes ao garoto, entre eles, a autodefesa. Acreditava-se que, por causa do demônio, a areia o protegeria mesmo que ele não quisesse. O menino não precisava mover um dedo ou desejar que a areia o defendesse.
Então, enquanto se abaixava e se encolhia, chorando porque só desejava ser amado e tentando se proteger das pedras e dos xingamentos, o menino sentiu um cheiro, um cheiro vermelho, cheiro de vida e de morte ao mesmo tempo.
Era sangue, o sangue das crianças. O cheiro, a cor, a textura, tudo era desconhecido ao garoto que, por causa da areia, nunca havia se machucado.
O Demônio da Areia sorriu através dos lábios do garoto.
Mais tarde, ao explicar para o tio o que havia acontecido e tentar entender por que todos o odiavam, o menino perguntou o que era a dor. Como a areia o impedia de se machucar, ele não entendia bem o conceito. Após o tio explicar o que era dor, o menino prontamente respondeu:
"É isso que eu sinto no meu peito."
Os olhos do tio se encheram de lágrimas, então ele explicou que existem dois tipos de dor: algumas dores podem ser curadas com medicamentos; outras, como essa que você sente no peito, só podem ser curadas com amor.
Aquela conversa deixou o menino cheio de esperança. Ele sabia o que fazer para curar o coração das pessoas da aldeia que o odiavam. Ele pretendia dar amor e explicar o que sentia. Tinha certeza de que as pessoas o entenderiam. Então voltou à aldeia para se desculpar com as crianças que havia machucado sem querer.
A areia reagiu!
O garoto procurava desesperadamente descobrir de onde havia vindo o ataque que a areia evitara. Um guerreiro rápido demais para os olhos do garoto, que ainda estava em treinamento, movia-se entre as casas.
A areia evitou um ataque no coração, outro na nuca e, por fim, um golpe no rosto. Todos tinham uma única intenção: matar.
Tudo acontecia rápido demais para o garoto, mas não para a areia, que segurou o assassino, impedindo-o de se mover. O garoto estava assustado demais para se mover, sem entender por que um assassino mascarado tentaria matá-lo.
Mas o assassino não desistiu mesmo sendo restringido pela areia e tentou realizar um último ataque, que foi interrompido pela areia atravessando seu peito.
Ao perceber que o assassino não conseguiria atacá-lo novamente, a areia o soltou e o menino caminhou para remover a máscara. Enquanto a retirava lentamente com medo da confirmação, o menino notava os cabelos, o tamanho do corpo, o cheiro, o amor.
Ao retirar completamente a máscara, teve a certeza: era seu amado tio.
"Por quê?!"
O tio explicou que o próprio pai do menino o havia mandado. Um conselho de anciões da aldeia concluíra que o menino era um experimento falho e um perigo para a aldeia e que, por isso, deveria ser eliminado. O tio, como soldado, seguiria ordens independentemente de seus sentimentos.
O menino explodiu de ódio. O que fez para merecer essa vida? Todos o odiavam e ele só queria amar e ser amado.
Tudo isso por causa de um demônio que ele nem escolheu ter em seu corpo? Que culpa tinha se o demônio o protegia com sua areia? Por que só ele não poderia conhecer o amor?
Nem mesmo seu pai o ama e até o seu tio, a única pessoa que o amou, foi enviado para matá-lo.
Naquele momento, consumido pelo ódio e tomado pelo sorriso do demônio, o garoto se transformou. Então, a areia escreveu o símbolo do amor em sua testa. A areia que o protegia também era a única capaz de marcar sua pele.
A partir daquele dia, o sangue que, há pouco, era desconhecido se tornou familiar: o sangue dos outros. O menino bondoso abraçou o demônio e a própria loucura, matando qualquer um que entrasse em seu caminho.
Treinou e se tornou mais forte. Além da força extrema e da defesa involuntária proporcionada pela areia, o garoto agora possuía ataques poderosos e ódio o bastante para usá-los sem piedade.
Um verdadeiro perigo, um vilão, a arma que seu pai tanto queria. Infelizmente para seu pai, ele morreu cedo demais para ver o filho se tornar a arma desumana que ele desejara.
Anos se passaram, e o menino agora se alimentava do medo e do ódio dos outros. Chegaria a matar quem ousasse não temê-lo.
Um dia, esse menino, agora um jovem militar, foi convidado, junto com outros, a participar de um evento em uma aldeia aliada. A ocasião tinha como objetivo fortalecer os laços entre os aliados e também demonstrar seus poderes militares.
Simulações de guerra, combates e diversas atividades militares eram realizadas nesse evento.
Nesse evento, o menino conheceu outro jovem portador de um demônio. Ambos eram nada mais que armas para suas respectivas aldeias.
No entanto, o outro jovem tinha uma diferença marcante em relação ao menino da areia: ele sorria.
O menino do fogo sofrera rejeição, violência e solidão, assim como o menino da areia, mas continuava sorrindo, feliz e já havia conseguido alguns amigos.
Mesmo sendo odiado, mesmo apanhando, mesmo sendo atacado, o menino do fogo insistiu no amor, insistiu em fazer amigos e ser amado.
Durante um combate duríssimo entre os dois meninos, o menino do fogo jurou que não desistiria do menino da areia. Disse que o entendia e que o amaria se ninguém mais o amasse.
O menino do fogo chorou e pediu que o menino da areia tentasse mais uma vez. Mesmo que ninguém os aceitasse, eles aceitariam um ao outro.
Aquele discurso foi transformador para o menino da areia, que passara tantos anos arrancando sangue dos outros. Pela primeira vez, decidiu buscar uma forma de proteger as pessoas em vez de destruí-las.
Passou anos se redimindo diante de sua aldeia, demonstrando que havia mudado e que suas ações não eram controladas pelo demônio. Treinou tanto que se tornou o guerreiro mais forte de sua aldeia. Anos depois, foi promovido a chefe, assumindo o mesmo cargo que um dia pertencera ao seu pai.
Agora transformado, poderia criar uma vila mais humanizada e colocar em prática as lições de amor que aprendera com o menino do fogo. Eram lições que já praticava havia anos.
Após anos como chefe da aldeia, houve uma invasão. Como chefe e guerreiro mais forte, ele se apresentou imediatamente aos invasores para proteger a aldeia.
Iniciou-se um combate, e os invasores deixaram claro que o objetivo deles não era a aldeia ou qualquer bem físico, mas o Demônio da Areia, que estava no corpo do líder da aldeia.
Pelo bem da aldeia, ele entregaria o demônio se pudesse. Mas, se fizesse isso, aquela arma poderia ser usada contra seu próprio povo. Além disso, remover o demônio de seu corpo lhe custaria a vida.
O combate aéreo foi intenso. O inimigo era desconhecido, mas veio preparado para lutar contra o portador do Demônio da Areia, e, por isso, tinha uma grande vantagem: conhecia seu adversário.
Além disso, como chefe, ele mantinha uma camada de areia protegendo toda a aldeia, o que consumia grande parte da energia que poderia ser usada contra o invasor.
Com todas essas desvantagens, ainda que o invasor fosse mais fraco, o chefe perdeu o combate e foi sequestrado para ter o demônio extraído de seu corpo por uma organização misteriosa à qual pertenciam os invasores.
Quando as notícias se espalharam, diversos guerreiros se uniram e foram enviados para resgatar o menino, entre eles estava o portador do Demônio do Fogo, que provavelmente seria a próxima vítima da organização misteriosa, e uma anciã, a mesma médica aposentada que prendeu o demônio no corpo do menino.
Após muitos combates e investigações, localizaram o chefe da aldeia da areia, mas chegar até ele exigiu ainda mais batalhas.
Todos estavam no limite quando finalmente o encontraram. Mas o que conseguiram alcançar foi apenas o corpo do menino.
Com o demônio extraído, aquele corpo jazia sem vida. A areia não reagia.
Foi então que a anciã, responsável por prender o demônio no garoto e condená-lo àquela vida sofrida, decidiu usar uma magia para trazê-lo de volta à vida. Ela queria reparar, ainda que tarde demais, o que havia feito.
Isso custaria a vida da anciã, mas, como militar, ela aprendera a considerar sua própria vida um preço aceitável pela sobrevivência do chefe da aldeia.
Assim foi feito, e o menino foi revivido. Agora, sem o demônio em seu corpo, estava livre.
Algum tempo depois, aquela mesma organização misteriosa iniciou uma guerra contra o mundo.
Nessa guerra, a organização usou técnicas proibidas para trazer antigos guerreiros de volta à vida e fazê-los lutar ao seu lado. Mesmo contra a vontade desses guerreiros.
Dentre esses guerreiros estava o antigo chefe da aldeia da areia, o pai do menino.
O destino encarregou-se de colocar o antigo chefe contra o novo chefe, o pai cruel contra o filho sofrido.
Durante o combate, o pai descobriu que o filho já não tinha mais o demônio em seu corpo, mas que algo não fazia sentido: a areia continuava a protegê-lo.
Mesmo sem o demônio, a areia se movia involuntariamente, sem a vontade do menino.
O pai questionava, mas o menino não sabia nem queria responder.
No entanto, a areia respondeu. Ela se materializou em volta do garoto como mãos sobre sua cabeça, protegendo-o.
Um rosto apareceu na areia. Um rosto familiar ao pai do menino.
Era o rosto da mãe.
Nunca foi o demônio.
Nunca foi o ódio.
Quem sempre protegeu o garoto através da areia foi sua mãe.
Era o amor.
História de Suna no Gaara.
Thoughts
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PermalinkPobre miúdo. 😔
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PermalinkA areia continua a defendê-lo depois de lhe tirarem o demónio, e só o pai repara nisso. Mais ninguém na aldeia questiona como, o que é esquisito num sítio que vive de guerra.
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PermalinkO que ficou comigo não foi a luta, foi a cena da criançada aprendendo a odiar o menino porque os adultos ensinaram. Isso acontece antes de qualquer demônio aparecer. Quando a pedra sai da mão de um moleque de sete anos, alguém em casa passou meses preparando aquele braço. Eu vi essa preparação de perto.
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PermalinkO pai não aparece como monstro em nenhuma cena, e é isso que assusta. Ele calcula o que serve à aldeia e assina embaixo, do jeito de quem manda e faz a conta fechar. Pra mim o vilão da tua história não é o demônio nem o pai, é o conselho de anciãos que decidiu matar uma criança e foi dormir.
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PermalinkCheguei no fim e vi o nome do Gaara. Pra mim era um relato de deserto até ali, e o final mudou a cor de tudo que eu tinha lido antes.
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PermalinkSó pra deixar claro: o Gaara é um personagem secundário do mangá japonês Naruto. A história dele foi criada pelo Masashi Kishimoto; eu apenas reescrevi e adaptei os acontecimentos para contar essa história de uma forma mais emocionante. Não inventei o personagem nem os acontecimentos, só fiz uma releitura narrativa.
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PermalinkA frase da mãe fica cortada a meio e ninguém a termina. Foi isso que me ficou, mais do que toda a violência que vem depois. Parece que escreveste isto a pensar mais nela do que no rapaz.
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PermalinkA areia se levanta como duas mãos da mãe em cima da cabeça dele, no meio da luta contra o pai. Isso vira do avesso tudo que veio antes, porque a coisa que a aldeia inteira chamou de demônio estava protegendo o menino desde o parto. Gostei muito de ler isso hoje! Vai postar mais histórias assim por aqui?
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PermalinkO tio recebe a ordem e cumpre, e depois fica calado o resto da vida. Já vi isso de perto, gente fazendo o que mandaram contra o próprio sangue. Essa parte, pra mim, pesou mais que o demônio.
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