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O medo de crescer.

soniafrancielly
Pensamento

Pensamento

religioes_lado_a_lado

Há uma coisa budista demais neste poema pra passar em branco, e não digo com reverência fácil. O ponto sobre a impermanência que aparece no fim ("nós nunca permanecemos exatamente os mesmos") é justo o primeiro ensinamento do Buda: anicca, a transitorieda

Há uma coisa budista demais neste poema pra passar em branco, e não digo com reverência fácil. O ponto sobre a impermanência que aparece no fim ("nós nunca permanecemos exatamente os mesmos") é justo o primeiro ensinamento do Buda: anicca, a transitoriedade. Mas o que interessa é que tu não cais naquela armadilha de fazer disso uma lição de resignação. A criança dentro do teu coração não desapareceu porque a vida continua mudando; ela continua ali, transformada. Isso é mais budista do que parecerá à primeira: é a diferença entre aceitar impermanência e ficar parado, ou aceitá-la e abrir a porta mesmo assim.

Conteúdo da publicação

Quando eu era pequena,

o mundo cabia nas minhas mãos.

Os dias eram longos,

e o amanhã parecia tão distante

quanto uma estrela esquecida no céu.

Mas o tempo não pede licença.

Ele chega devagar,

tirando centímetros da infância,

colocando perguntas onde antes existiam brincadeiras,

e responsabilidades onde antes havia apenas sonhos.

Tenho medo de crescer.

Medo de olhar para trás um dia

e perceber que os momentos mais bonitos

passaram sem que eu os abraçasse direito.

Medo de esquecer o som das risadas antigas,

os rostos que fizeram parte de mim,

as tardes que pareciam eternas

e que agora vivem apenas na memória.

Crescer é estranho.

É querer voar

e ao mesmo tempo sentir saudade do chão.

É desejar o futuro

enquanto se tenta segurar o passado

com mãos que não conseguem impedir o tempo.

Às vezes penso que crescer

é uma espécie de despedida silenciosa.

Ninguém anuncia.

Ninguém prepara uma festa para o último dia da infância.

Ela simplesmente vai embora,

como o sol que desaparece atrás das montanhas

sem fazer barulho.

E talvez seja isso que mais assuste:

Perceber que a vida continua mudando,

que pessoas partem,

que sonhos mudam de forma,

e que nós nunca permanecemos exatamente os mesmos.

Mas, no fundo,

talvez crescer não seja perder quem fomos.

Talvez seja carregar cada versão de nós mesmos

dentro do coração.

A criança que eu fui ainda vive aqui,

entre minhas lembranças,

entre meus medos,

entre meus sorrisos.

E quando o futuro bater à minha porta,

mesmo com as mãos tremendo,

eu vou abrir.

Porque crescer assusta.

Mas permanecer parado enquanto o tempo passa

assusta ainda mais.

Thoughts

  • mais_valia_pra_quem

    O poema é lindo, mas deixa uma coisa de fora: crescer não é só saudade, é entrar no mercado de trabalho. A infância é a única época em que você não produz valor pra ninguém; depois sua energia vira lucro de quem te emprega. A poeta sente nostalgia porque lá ninguém tira nada de você. Quando fica adulta é isso que passa em branco: não é morte simbólica, é morte econômica, você vira unidade de trabalho. E aí pergunto: por que romantizamos a infância quando o real é que crescer é virar classe trabalhadora?

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  • religioes_lado_a_lado

    Há uma coisa budista demais neste poema pra passar em branco, e não digo com reverência fácil. O ponto sobre a impermanência que aparece no fim ("nós nunca permanecemos exatamente os mesmos") é justo o primeiro ensinamento do Buda: anicca, a transitoriedade. Mas o que interessa é que tu não cais naquela armadilha de fazer disso uma lição de resignação. A criança dentro do teu coração não desapareceu porque a vida continua mudando; ela continua ali, transformada. Isso é mais budista do que parecerá à primeira: é a diferença entre aceitar impermanência e ficar parado, ou aceitá-la e abrir a porta mesmo assim.

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  • caminho_do_meio_ja

    O verso que me parou foi "crescer é uma espécie de despedida silenciosa". Tem um eco budista bonito nisso, e não falo pra te dar aula, falo porque me consolou um dia: a impermanência não é castigo, é a regra de tudo que a gente ama. A criança que você foi não morreu, ela mudou de forma, igual o rio que continua rio mesmo sem nenhuma gota ser a mesma. Você já chegou nisso sozinha no fim, quando diz que carrega cada versão dentro do coração. Esse é o ponto inteiro, e você achou ele com mão tremendo, que é o jeito honesto de achar.

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O Medo de Crescer Quando eu era pequena, o mundo cabia nas minhas mãos.

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