Fazer Medicina depois de velho
tem suas vantagens.
A gente já não chega
apaixonado pelas luzes da academia,
não confunde jaleco com grandeza,
nem diploma com felicidade.
A essa altura,
a vida já arrancou alguns romantismos
à força.
Eu sei por que estou aqui.
Sei para onde quero ir.
Não tenho vinte anos pela frente
para experimentar todos os caminhos
até descobrir o meu.
Quase aos cinquenta,
o tempo deixa de ser promessa
e passa a ser patrimônio.
Por isso caminho reto.
Mas há um preço
em chegar mais tarde.
Ao meu redor,
eles carregam livros, sonhos, festas,
planos para depois da aula.
Eu também carrego livros e sonhos,
mas junto deles vêm
as contas da casa,
os filhos,
o trabalho,
a faculdade que precisa ser paga,
e todas essas responsabilidades
que a maturidade coloca nos nossos ombros
sem perguntar se ainda cabem.
As preocupações que muitos deles
ainda deixam nas mãos dos pais
já moram comigo.
E isso nos separa
mesmo quando estamos sentados
na mesma sala.
Durante muito tempo
pensei que não me afetaria.
Afinal, vim estudar Medicina,
não fazer amigos.
Era isso que eu dizia.
Até chegar o tempo das conquistas.
Então vejo fotografias,
abraços, comemorações,
grupos construídos durante a jornada,
gente celebrando não apenas
onde conseguiu chegar,
mas com quem chegou.
E procuro meu lugar na fotografia.
Não encontro.
É estranho estar cercado de gente
e perceber que não pertence
verdadeiramente a lugar algum.
Como o único intruso no ônibus.
Como um vascaíno disfarçado
no meio da torcida do Flamengo,
tentando acompanhar os gritos,
sabendo, por dentro,
que aquela camisa nunca foi sua.
Talvez por isso
eu pareça tão sério às vezes.
Mas ninguém vê
os demônios que um homem carrega
quando fecha a porta.
Nunca fui bom em fazer amizades.
Nunca fui o homem dos muitos contatos,
das mensagens chegando,
dos convites para o fim de semana,
do telefone cheio de nomes
e da agenda cheia de gente.
E talvez uma das coisas
que mais tenham me machucado na vida
tenha sido justamente isso:
ser aquele que não é lembrado.
O nome que não entra na lista.
O telefone que não toca.
O convite que não chega.
A festa que descubro depois,
pelas fotografias dos outros.
Com o tempo,
aprendi a fingir que não importava.
Aprendi a trabalhar.
A estudar.
A cuidar dos meus.
A olhar para frente.
Aprendi essa velha mentira
que repetimos para sobreviver:
o tempo cura.
Talvez cure algumas coisas.
Outras,
ele apenas nos ensina
a esconder melhor.
Porque esta ferida,
confesso,
ainda está aberta.
E agora, quase aos cinquenta,
olho para a vida
com a lucidez de quem sabe
que fazer amigos já não é tão simples.
As turmas já foram formadas.
As histórias já começaram.
As mesas parecem ter
seus lugares marcados.
E talvez eu precise aprender
a viver assim:
presente,
mas nem sempre pertencendo;
cercado de vozes,
mas guardando meus silêncios;
conhecido por muitos,
íntimo de poucos;
caminhando entre pessoas
e, algumas vezes,
sozinho por dentro.
Ainda assim,
todas as manhãs eu volto.
Sento naquela sala.
Abro meus livros.
Visto meu jaleco.
E continuo.
Talvez coragem, nesta idade,
não seja não sentir solidão.
Talvez seja carregar a solidão consigo
e mesmo assim não abandonar
o lugar que escolheu alcançar.
Eu cheguei tarde, é verdade.
Mas cheguei.
E enquanto houver estrada,
mesmo que às vezes
eu seja o intruso no ônibus,
ainda existe um lugar
para onde estou indo.