Que pergunta pesada.
O homem que sempre amei ainda existe? Pergunta Sem resposta
Pensamento
Que pergunta pesada.
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Às vezes, eu volto ao passado não porque queira viver nele, mas porque ainda não consegui compreender como alguém pode mudar tanto diante dos meus olhos sem que eu perceba exatamente quando começou a partir.
Houve um tempo em que você se dedicava a mim. Você fazia coisas que eu nem precisava pedir, porque, de alguma maneira, parecia saber do que eu precisava antes mesmo que eu encontrasse palavras para explicar. Havia uma espontaneidade no seu cuidado, uma vontade que não precisava ser cobrada, uma presença que me fazia acreditar que o amor também era isso: alguém que escolhia estar, que se movimentava por nós sem que eu precisasse implorar por um lugar na sua vida.
Lembro de quando você praticamente me levou contra a minha vontade à sua casa. Eu resistia, hesitava, talvez até fingisse não querer, mas você insistia em me ter por perto. Hoje, quando penso naquela cena, sinto uma tristeza difícil de explicar. O homem que precisou quase me convencer a entrar em sua casa é o mesmo que, agora, parece não encontrar disposição para atravessar o caminho até a minha. Antes, você queria me levar para dentro do seu mundo. Hoje, parece que a minha presença é um esforço que você prefere evitar.
Como pode alguém que um dia fez questão da nossa proximidade tornar-se tão indiferente à possibilidade de estar perto?
Foram apenas quatro meses de relação. Quatro meses, se contados no calendário, talvez pareçam pouco. Mas existem histórias que não obedecem à duração dos dias. Algumas permanecem dentro de nós por anos, atravessam outras experiências, sobrevivem às despedidas e continuam respirando em algum lugar silencioso da memória. Nosso relacionamento durou quatro meses, mas o meu amor não terminou quando aqueles meses acabaram. Ele ficou. Ficou apesar do tempo, apesar das mudanças, apesar de tudo aquilo que eu deveria ter deixado para trás.
E talvez seja justamente isso que mais doa: perceber que eu continuei amando alguém que, de alguma forma, já não consigo reconhecer.
Eu pensava que conhecia você. Pensava que havia compreendido suas maneiras, seus gestos, suas contradições e até os silêncios que, naquela época, pareciam apenas intervalos entre uma conversa e outra. Eu acreditava conhecer o homem por trás das palavras, porque tinha visto uma versão sua que me ofereceu motivos para confiar. Hoje, porém, olho para você e me pergunto se alguma vez conheci o homem inteiro ou se amei uma parte sua que o tempo, a distância ou as circunstâncias acabaram escondendo.
Eu não te conheço como pensava.
Essa constatação tem o peso de uma perda que não consigo nomear. Porque perder alguém não significa apenas deixar de vê-lo, de tocá-lo ou de ouvir sua voz. Às vezes, a perda acontece enquanto a pessoa continua existindo, respirando, trabalhando, seguindo a própria vida. Ela permanece no mundo, mas deixa de ocupar o lugar que um dia nos ofereceu. E nós ficamos diante de uma presença que se parece com a pessoa amada, mas já não nos alcança da mesma maneira.
Hoje, você me ignora. E o seu silêncio me fere de uma forma que talvez você nunca compreenda inteiramente.
Não é apenas a ausência de mensagens, nem a demora de uma resposta. É o que o silêncio parece dizer quando vem de alguém que já demonstrou tanta vontade de estar perto. É a comparação involuntária entre o homem que procurava minha companhia e aquele que agora parece não sentir falta dela. É recordar que um dia fui recebida com insistência e perceber que hoje preciso conviver com a possibilidade de não ser procurada.
O silêncio de um desconhecido não teria o mesmo peso. Eu não teria lembranças para confrontá-lo, promessas para reinterpretar ou gestos antigos para colocar ao lado dos gestos de agora. Mas o seu silêncio conhece o caminho até as minhas feridas porque foi você quem, um dia, me ensinou outra maneira de me sentir amada.
E talvez você nem perceba a dimensão dessa mudança. Talvez, para você, a vida apenas tenha seguido seu curso. Talvez tenha mudado de sentimentos, de prioridades, de desejos. Talvez aquilo que vivemos tenha adquirido outro significado com o passar dos anos. Eu não sei. O que sei é que, para mim, existe uma distância dolorosa entre o que você foi e o que você tem sido.
O homem do passado jamais faria algumas das coisas que o homem de hoje faz. Ou, pelo menos, é nisso que meu coração insiste em acreditar.
Porque, quando a saudade aperta, a memória se transforma em testemunha e defesa ao mesmo tempo. Eu me lembro de quem você foi e tento compreender quem você é agora. Procuro alguma continuidade entre essas duas versões, algum gesto familiar, alguma palavra que me devolva a sensação de que aquele homem não desapareceu completamente. Procuro, em você, vestígios de alguém que conheci há tantos anos e que, de alguma maneira, nunca deixou de morar em mim.
Como eu queria você de volta.
Mas não quero dizer apenas que gostaria de recuperar nosso relacionamento, como se bastasse regressar ao início e repetir os mesmos passos. Eu queria de volta a sua disposição, a sua espontaneidade, a maneira como você se aproximava sem que eu precisasse perguntar se ainda desejava estar ali. Queria recuperar a tranquilidade de não precisar comparar o presente com o passado para descobrir se ainda sou importante.
Queria aquele homem que fazia questão de mim.
E há uma tristeza quase vergonhosa em admitir isso, porque sei que o tempo não devolve as pessoas ao estado em que as encontramos. Não podemos pedir a alguém que volte a ser quem foi, nem transformar lembranças em obrigações. O passado não é um contrato que o presente precisa cumprir. O que vivemos foi real, mas sua realidade não garante que continue existindo da mesma forma.
Ainda assim, eu sinto falta.
Sinto falta até daquilo que talvez você já não se lembre de ter feito. Das pequenas iniciativas, dos gestos que pareciam insignificantes, da proximidade que não precisava ser negociada. Sinto falta de uma versão sua que talvez tenha sido passageira para você, mas que se tornou permanente dentro de mim.
E é aqui que a minha saudade se confunde com o luto. Porque não sei se estou sofrendo pela perda de um amor ou pela transformação de alguém que continua vivo diante de mim. Não sei se preciso aceitar que aquele homem ficou no passado ou se ainda existe nele alguma parte capaz de me surpreender novamente.
Às vezes, tenho medo de estar amando uma lembrança. De estar segurando com as duas mãos uma imagem antiga enquanto o homem real segue adiante, diferente, distante, talvez já sem os mesmos sentimentos. Tenho medo de que a minha fidelidade ao que vivemos tenha me impedido de enxergar o que estamos vivendo agora.
Porque amar alguém por muito tempo não significa necessariamente continuar conhecendo essa pessoa. O amor pode permanecer enquanto o conhecimento envelhece. Podemos guardar intimidade com as lembranças de alguém e, ainda assim, tornarmo-nos estrangeiros diante de suas atitudes presentes.
Talvez eu precise conhecer você novamente. Não para apagar o passado, mas para descobrir se ainda há algo nele que possa ser encontrado no presente. Preciso olhar para quem você é hoje sem obrigar meus olhos a enxergar o homem de ontem. Preciso escutar o que suas atitudes dizem, mesmo quando a memória tenta falar mais alto.
Mas conhecer você de novo também significa aceitar a possibilidade de não gostar inteiramente do que vou descobrir. Significa admitir que a pessoa que amo talvez não corresponda mais àquela que guardo em minhas recordações. E essa é uma verdade difícil para quem passou tanto tempo acreditando que o amor sobreviveria porque, dentro de si, nunca deixou de existir.
No fundo, acho que não sinto saudade apenas de você. Sinto saudade de quem eu era quando acreditava conhecer você. Da mulher que olhava para os seus gestos e encontrava segurança. Daquela que não precisava procurar significados escondidos na ausência, porque a presença parecia suficiente para responder às suas dúvidas.
Hoje, sou obrigada a perguntar. E as perguntas que mais doem são justamente aquelas para as quais não encontro resposta.
Eu perdi meu amor?
Ou estou diante dele, depois de tantos anos, precisando conhecê-lo novamente?
Não sei qual das duas possibilidades me assusta mais. Perder você seria aceitar que uma história tão pequena no tempo se tornou imensa em mim e que talvez precise aprender a existir sem a reciprocidade que um dia conheci. Conhecer você novamente seria enfrentar o risco de descobrir que o homem que amo já não é o homem que está diante de mim.
Talvez eu esteja tentando reencontrar uma pessoa que só existe inteira dentro da minha memória. Talvez você também tenha saudade de quem foi, mas não saiba como voltar. Ou talvez apenas eu tenha permanecido naquele lugar, esperando que o tempo nos devolvesse ao ponto em que nossos caminhos pareciam querer seguir juntos.
Não tenho como saber o que se passa dentro de você. Só posso reconhecer o que acontece dentro de mim.
E dentro de mim ainda existe aquele homem do passado, não como uma certeza, mas como uma lembrança que se recusa a perder a cor. Existe o amor que sobreviveu aos quatro meses, atravessou os anos e chegou até aqui sem compreender por que o presente parece tão diferente daquilo que o fez nascer.
Eu queria poder encontrá-lo uma última vez, mesmo que fosse apenas para perguntar onde foi parar o homem que fazia questão de me ter por perto. Queria que ele me explicasse em que momento a vontade se tornou indiferença, em que momento a proximidade se tornou distância, em que momento eu passei de alguém que ele queria levar para casa a alguém cuja casa ele não deseja visitar.
Mas talvez essa explicação nunca venha.
E eu precise aprender que algumas respostas não chegam pela boca das pessoas, mas pela repetição de suas atitudes. Que a saudade pode explicar por que continuo amando, mas não pode, sozinha, provar que ainda existe entre nós aquilo que procuro.
Mesmo assim, se eu pudesse pedir alguma coisa ao tempo, não pediria que apagasse o que vivemos. Pediria apenas que me desse clareza. Que me permitisse distinguir o homem que existiu daquele que existe agora, sem desmerecer nenhum dos dois e sem abandonar a mim mesma na tentativa de reuni-los.
Porque ainda amo a história que tivemos. Ainda me comovo com o homem que você foi. Ainda há uma parte de mim que espera encontrar, em algum gesto seu, a continuidade de tudo aquilo.
Mas já não sei se espero pelo seu retorno ou se espero apenas que você me mostre, de uma vez por todas, quem se tornou.
E talvez essa seja a pergunta mais triste de todas: eu ainda tenho um amor para reencontrar ou estou apenas tentando trazer de volta alguém que já não existe da maneira como me lembro?
(Lágrimas).
Respostas
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PermalinkQuatro meses e depois anos inteiros carregando isso. O tamanho de uma história no calendário quase nunca bate com o espaço que ela ocupa, e quem olha de fora costuma cobrar pelo calendário. Meu palpite é que ele guardou essa época num lugar bem menor que o seu, e o silêncio dele vem mais daí do que de desprezo.
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PermalinkA saudade de quem você era naquela época, essa eu reconheço de perto. Tem dia que a falta é mais daquela mulher do que dele, uai.
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PermalinkQue pergunta pesada.
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PermalinkAposto que você ainda abre a conversa dele de vez em quando só pra ver se ele visualizou. A última mensagem fica ali parada olhando pra gente.
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