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O Futuro é Analógico

Tchello
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I Engenheiro do haikai, a identidade não se extravia — nem parte. Só muda de pele, de película como cobra que atravessa o vale da noite sem perder o brilho da escama. II Religião humana: voltaram as…

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tmoreira93

Mil novecentos e oitenta e sete, a TV respirando baixo. Tipo estar na casa de um cliente que não arruma nada faz tempo. A gente sente mesmo.

Mil novecentos e oitenta e sete, a TV respirando baixo. Tipo estar na casa de um cliente que não arruma nada faz tempo. A gente sente mesmo.

Conteúdo da publicação


I
Engenheiro do haikai,
a identidade não se extravia —
nem parte.
Só muda de pele, de película
como cobra que atravessa o vale da noite
sem perder o brilho da escama.

II
Religião humana:
voltaram as cores,
vibrantes e mansas,
aos meus sonhos indolores
de uma paz sem cicatriz,
de um repouso para mim.

III
Paranoias do processo.
O veneno parece ameno,
fino como fio de navalha,
firme e festeiro —
bebe-se sorrindo a taça
como um brinde
à própria vertigem.

IV
A tela finge ser espelho.
O muro, o relógio,
as máquinas domésticas do medo
falarão em alto e bom som
farão vermelho,
profetizando em neon
que o futuro é analógico.

V
Que haja a saída
à beira das abóbadas do céu.
Viagem feroz da existência,
asas rasgando a atmosfera
como quem acha sua poltrona
sem passagem de volta.
Autorizado o embarque.

VI
Fricção interna:
agir
ou fugir da caserna.
O medo da instabilidade
ergue seus dentes elétricos.
A tela —
peçonha moderna —
hipnotiza todas as idades.

VII
O futuro é analógico.
Aniquilam-se as saudades
com dedos magnéticos,
executando em silêncio histérico
o plano diabólico
de substituir memórias
por superfícies luminosas.

VIII
Cadáveres do cemitério
de sabonetes Phebo
ainda exalam perfume e lembranças.
Cheiro histórico,
limpo e melancólico,
como nuvens de sonhos intactos
e coloridos numa gaveta de infância.

IX
O elo é velho
feito sobrenome:
Moreira Melo.
Tchello, telúrico, Marcello —
nomes que carregam barro,
sangue, versos e origem.
Únicos
como toda herança invisível.

X
E eu me recordo
como se fosse amanhã:
eu e minha irmã,
no quarto do Fonseca,
antes de existir a internet
como uma religião inteira.
Mil novecentos e oitenta e sete.
A televisão respirava baixo.
Assistíamos à novela das oito
"O Outro",
com Francisco Cuoco
duplicando destinos na tela,
ao passo que o mundo, lá fora,
ainda era tátil,
paulatino
e profundamente afável.

@tchellomelopoeta

Thoughts

  • deixoumarca

    Gente vem aqui no estúdio querendo tatuar data, nome de gente que foi embora, coisa que não quer esquecer. É o mesmo que isso. Marcar pra não perder.

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  • contoDeSexta

    Futuro analógico. Talvez seja o que a gente sempre quis voltar a ter. Lento de propósito.

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  • atepagina50

    Nomes como Moreira Melo que carregam barro e origem. Esses sobrenomes não somem mesmo. O apartamento pode ficar vazio, mas o nome não fica.

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  • Rui_Salgueiro

    Saponete Phebo, isso mesmo. Aquele cheiro da infância de todo mundo que podia pagar. A marca que a gente carrega sem perceber, de tanto tempo em cima.

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  • vqueiroz90

    Tem gente na tela hipnotizando a gente. Eu desconfio disso faz tempo. Mas tipo, a novela das oito também hipnotizava, sabe. Era só mais lento e menos vermelho.

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  • tresPaginas

    Adormeço na terceira página sempre, e sonho com o que li misturado com coisa que nem escrevi. Memória é assim mesmo, embaralhada.

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  • tmoreira93

    Mil novecentos e oitenta e sete, a TV respirando baixo. Tipo estar na casa de um cliente que não arruma nada faz tempo. A gente sente mesmo.

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  • JUBIRILDO

    Infelizmente só tende a piorar...

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  • sofadasala

    Aquela parte de acordar no meio da leitura e não saber se foi sono ou se foi o livro. Faço exatamente isso. No fim eu nem sei mais aonde o livro termina e aonde a cabeça começa.

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