Existe uma antiga crença que quase ninguém conhece.
Ela diz que algumas histórias não são escritas.
Elas esperam.
Esperam até encontrar a pessoa certa.
Se esta história não for para você...
Pode parar de ler agora.
Não vai acontecer absolutamente nada.
...
Você ainda está aqui.
Interessante.
A maioria vai embora antes desta linha.
Os curiosos continuam.
Os culpados também.
Ainda não sei em qual dos dois grupos você está.
Mas vou descobrir.
Há muitos anos, existia um teatro onde nenhuma peça era apresentada.
Mesmo assim, todas as noites era possível ouvir aplausos.
Risos.
Choros.
Como se alguém estivesse assistindo a um espetáculo invisível.
Diziam que, se uma pessoa entrasse naquele teatro sozinha, nunca mais sairia da mesma forma.
Uma garota decidiu descobrir se aquilo era verdade.
À meia-noite, atravessou as portas antigas.
O palco estava vazio.
As cadeiras também.
Então as luzes se apagaram.
Uma voz ecoou por todo o teatro.
— Bem-vinda, último espectador.
Ela olhou para os lados.
Não havia ninguém.
Tentou responder.
Sua voz não saiu.
As cortinas se abriram lentamente.
E, pela primeira vez, o palco mostrou alguma coisa.
Não eram monstros.
Nem fantasmas.
Eram pessoas comuns.
Gente que viu alguém sofrer...
...e escolheu não fazer nada.
Pessoas que riram de alguém para acompanhar a maioria.
Pessoas que acreditaram em mentiras porque era mais fácil do que descobrir a verdade.
Cada cena terminava da mesma forma.
Com alguém apenas olhando.
Assistindo.
Sem mover um dedo.
A garota fechou os olhos.
— Eu nunca estive aqui...
A voz respondeu:
— Tem certeza?
Nesse momento...
pare de ler por um instante.
Pense.
Quantas vezes você viu algo errado...
...e decidiu continuar a sua vida?
Quantas vezes julgou alguém antes de conhecer sua história?
Quantas vezes ficou em silêncio quando poderia ter falado?
...
Você voltou.
Eu sabia.
Todos voltam.
A garota abriu os olhos novamente.
No centro do palco havia apenas uma cadeira.
Vazia.
Ela caminhou lentamente até ela.
Esperava encontrar o próprio nome.
Mas não havia nome algum.
A cadeira era para quem chegasse até o fim desta história.
Foi então que ela sorriu.
Porque finalmente entendeu.
Ela nunca foi a protagonista.
Era apenas o caminho.
A verdadeira história sempre foi sobre quem estava do outro lado.
Você.
Curioso...
Você continua descendo a tela.
Achei que iria embora depois das últimas linhas.
A maioria vai.
Mas algumas pessoas continuam.
Porque querem respostas.
Ou porque têm medo de parar agora.
Ainda não sei qual é o seu caso.
Mas descobrirei.
Afinal...
desde a primeira linha eu não estava contando uma história.
Eu estava observando você.
E o mais curioso...
é que você nunca percebeu quando deixou de ser leitor...
...e passou a fazer parte dela.