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O eleitor que vendeu a consciência. Por Julio Vicari, 2026.

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A tecla CONFIRMA no fim me fez pensar que o voto é um dos poucos momentos em que a gente decide algo completamente sozinho, sem ninguém olhando. Aposto que muita gente que leu isto já ouviu a frase do candidato que rouba mas ajuda dentro de casa, na mesa

A tecla CONFIRMA no fim me fez pensar que o voto é um dos poucos momentos em que a gente decide algo completamente sozinho, sem ninguém olhando. Aposto que muita gente que leu isto já ouviu a frase do candidato que rouba mas ajuda dentro de casa, na mesa do almoço. Gostei que você assinou com nome e ano, Julio, dá peso ao texto.

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O eleitor que vendeu a consciência. Por Julio Vicari, 2026.

Há um tipo de eleitor que não vende apenas o voto. Vende a própria consciência e, pior, acredita que fez um bom negócio. Sabe que o candidato é corrupto, que já desviou dinheiro, mentiu, enganou, protegeu aliados e utilizou o poder em benefício próprio. Sabe de tudo. Assiste às denúncias, acompanha os escândalos, comenta nas redes sociais, mas na hora da eleição, basta aparecer uma vantagem pessoal para que toda a indignação desapareça. É o emprego prometido, o cargo para um parente, a cesta básica, um favor, a obra na rua.. A promessa de alguma facilidade e então vem a justificativa: “Ele rouba, mas ajuda.”

Essa talvez seja uma das frases mais perigosas para uma democracia porque, quando o eleitor aceita conscientemente votar em alguém que considera desonesto em troca de uma vantagem, estabelece uma espécie de contrato silencioso: eu fecho os olhos para a corrupção e você me dá alguma coisa em troca. O problema é que a conta nunca termina no benefício recebido. O dinheiro que o político rouba não sai do bolso dele, sai do dinheiro público, sai da saúde que não funciona, da escola que não prepara, da segurança que não protege, da infraestrutura que não chega e das oportunidades que desaparecem. O eleitor pode receber uma vantagem hoje e pagar muito mais caro amanhã. E existe uma ironia ainda maior onde muitos daqueles que reclamam da corrupção são os mesmos que, diante da urna, perguntam apenas: “O que eu ganho se votar nele?” Não perguntam o que o candidato fará pelo país. Perguntam o que farão por eles.

É assim que a política se transforma em balcão de negócios. O político compra o voto; o eleitor vende a responsabilidade; e a sociedade inteira paga a conta. Não se trata de exigir eleitores perfeitos, nem de fingir que todos têm as mesmas condições econômicas. A pobreza e a necessidade são realidades que não podem ser ignoradas. Mas uma coisa é compreender a necessidade de quem está vulnerável e outra é transformar a corrupção em oportunidade e depois reclamar das consequências. A democracia não deveria ser um leilão de consciências porque voto não é moeda de troca. Voto não é favor. Voto não é investimento pessoal. Voto é responsabilidade. 

Quem escolhe conscientemente um corrupto porque recebeu alguma vantagem, ou simplesmente diz que o outro candidato é ruim por não gostar dele, do jeito que fala, pode até ganhar alguma coisa no curto prazo. Mas ajuda a colocar no poder alguém que administrará o dinheiro, os serviços e o futuro de milhões de pessoas. E talvez seja essa a pergunta que todo eleitor deveria fazer antes de apertar a tecla CONFIRMA: “Se eu sei que esse homem é desonesto, quanto daquilo que ele promete para mim será pago por todos nós?” 

Porque, no fim das contas, o político corrupto não rouba sozinho. Ele precisa de poder. E o poder, numa democracia, começa com um voto.

Thoughts

  • Ovid

    A tecla CONFIRMA no fim me fez pensar que o voto é um dos poucos momentos em que a gente decide algo completamente sozinho, sem ninguém olhando. Aposto que muita gente que leu isto já ouviu a frase do candidato que rouba mas ajuda dentro de casa, na mesa do almoço. Gostei que você assinou com nome e ano, Julio, dá peso ao texto.

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  • ateucordial

    Há aqui duas pessoas no mesmo saco: quem troca o voto por uma cesta básica e quem vota contra alguém pelo jeito como fala. A segunda não recebe nada em troca, e parece-me a mais difícil de mudar. A primeira muda no dia em que o Estado chegar antes do candidato.

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