A autossabotagem é tão estranha que eu
nem consigo explicar como ela funciona.
Ela chega devagar, quase sem fazer barulho,
e quando eu percebo, já estou pensando
coisas que eu nem queria pensar.
Ela fala que eu não sou suficiente,
que eu só atrapalho,
que talvez fosse melhor desistir,
e eu, cansada de lutar comigo mesma,
às vezes quase acredito.
Até que um dia
a morte resolve bater na minha porta.
E ela começa a conversar comigo,
mas é estranho, porque
parece que ela está falando
tudo aquilo que eu falaria para mim mesma.
Ela fala dos meus medos,
das coisas que eu penso quando estou sozinha,
das vezes que eu quis sumir
e de todas as vezes que pensei
que seria melhor não estar aqui.
E eu fico em silêncio.
Porque, no fundo,
eu sei que aquelas palavras
não vieram realmente dela.
Vieram de mim.
Talvez seja por isso que
a autossabotagem seja tão difícil de explicar.
Porque às vezes a gente passa tanto tempo
ouvindo a própria cabeça dizer
que não é suficiente,
que começa a acreditar que essa é a verdade.
E naquele dia,
quando a morte bateu na minha porta,
eu não sabia o que dizer.
Só fiquei ali,
olhando para ela,
pensando em tudo que ainda existe
mesmo quando eu não consigo enxergar.
Então eu não abri a porta.
Não porque tudo ficou bem,
mas porque talvez,
bem lá no fundo,
ainda exista uma parte de mim
que quer descobrir
o que acontece depois de hoje.