O Cigarro e a Estrada
Meu cigarro é o espaço
Para minha solidão,
Apertada de fumaça,
Que são asas do coração,
Que me aprisiona
No cheiro e no
Quarto de despejo do pulmão.
E eu choro por
Não ver problema
Na imensidão da minha
Morte prematura.
E vejo o sangue
Derramado no chão.
Foi o rifle que apontei
Do tabaco
E queimei a pele de todos
Aqueles que me puseram à frente —
À frente de uma vida bonita,
À frente de um sorriso.
Um sorriso trancado
Pela decepção
Da fumaça do cigarro.
E esse cheiro queimado
Que me cerca é um diálogo,
Uma conversa de um rapaz
Enquanto ouvia o desamor.
E fui eu privado agora
De todos os prazeres,
Do trago e de ter
O seu corpo ao meu lado;
E o perfume desse homem é doce,
E o meu é o cigarro amargo,
E o seu corpo é um templo construído
Com suor árduo,
E o meu, fruto de um campo abandonado.
E tudo que me resta é a
Venda para os olhos,
E a boca cerrada,
E o mundo que eu ganharia
Se fizesse o que queria,
E a força que teria para ganhar o inferno,
Das cartas que disseram sim
E de Deus que me diz não.
E o coração é enganoso
Com meus passos incertos:
Digo que vou, mas não;
Digo que não, mas vou.
E nem creio eu no que professo
Em palavras, pois minhas palavras são
Pedras de granizo sobre a estrada.
Talvez eu acenda outro cigarro,
Talvez mortifique a razão dentro do carro,
Talvez dê um trago nesse perfume doce
E mate minha namorada,
Tapando a boca e tirando
Dela a esperança anunciada,
Talvez eu caia e morra
Atropelado pelas minhas pisadas.
Por Guilherme Souza