Depois da eleição, vi muita gente procurando culpados. Bastou olhar o mapa para que começassem as ofensas aos pobres e ao Nordeste. Como se fosse possível conhecer os sonhos, a inteligência e a história de alguém pela região onde mora ou pelo candidato em quem votou.
Fiquei pensando em quem nasceu numa casa e ainda vive nela muitos anos depois. Os filhos crescem ali; talvez os netos também cresçam. Em algumas dessas ruas, o chão continua de terra. E pode ser que aquelas pessoas estejam felizes. Aquela é a vida que conhecem, onde aprenderam a amar, trabalhar, criar os filhos e reconhecer os próprios momentos bons. Algumas talvez nunca tenham tido a oportunidade de experimentar uma vida muito diferente. Isso não torna sua felicidade menos verdadeira.
Também não significa que não desejem mais. Alguém pode amar sua casa e querer uma rua pavimentada. Pode gostar da cidade onde vive e esperar uma escola melhor para os filhos. Valorizar o que se tem e desejar uma mudança cabem na mesma vida.
Marco Aurélio nos propõe olhar para o que temos e lembrar o quanto desejaríamos essas coisas se nos faltassem. É um exercício que tento fazer. Sêneca nos alerta para o tempo que perdemos enquanto esperamos começar a viver. E lembro de Clóvis de Barros descrevendo a felicidade como aquele instante que gostaríamos que durasse um pouco mais. Há sabedoria em reconhecer o valor do presente, mesmo quando ainda temos sonhos pela frente.
Mas, depois da eleição, me chamou atenção outra coisa: entre as pessoas tomadas pela ira, há quem leia e compartilhe o estoicismo. A filosofia virou, para alguns, uma coleção de frases bonitas para publicar, enquanto as partes mais difíceis ficam de fora. Às vezes fazemos com os filósofos o que algumas pessoas fazem com a Bíblia: escolhemos os trechos como itens de um cardápio. Esse me serve. Aquele, que exige rever minha atitude, eu deixo passar.
Sêneca dedicou um livro à ira. Nele, aconselha a dar tempo à raiva antes de agir, para que possamos julgar melhor o que aconteceu. Epicteto dizia que algumas coisas dependem de nós e outras não; também chamava atenção para as interpretações que fazemos dos acontecimentos. É fácil gostar dessas ideias em um dia tranquilo. O difícil é lembrá-las quando o resultado contraria o que queríamos.
A eleição já aconteceu. Podemos discordar, cobrar, fiscalizar e trabalhar para mudar o país. Também podemos decidir o que fazer da nossa própria vida a partir de hoje. Quem melhorou de condição financeira sabe que suas escolhas, seu trabalho e seu planejamento tiveram um papel. Sabe também que decisões políticas podem abrir caminhos ou torná-los mais difíceis.
É por isso que me incomoda ver pessoas que conheceram a dificuldade tratando outras com desprezo. O medo de perder o que conquistamos é compreensível. Mas ele não nos dá o direito de reduzir milhões de vidas a uma ofensa. Tampouco a filosofia deveria servir para dizer a quem vive numa rua de terra que basta ser grato e aceitar tudo como está.
Quero continuar buscando meus sonhos sem deixar de perceber os bons momentos que já existem. E quero reconhecer a felicidade que outras pessoas encontram em suas próprias vidas, sem usar essa felicidade como desculpa para ignorar o que lhes falta.
Na minha página, escrevo que nem tudo se resume à frase estoica bonitinha. Ontem essa frase ganhou outro sentido para mim. Depois de citar Sêneca, Epicteto ou Marco Aurélio, ainda precisamos decidir como vamos tratar as pessoas — e o que vamos fazer quando a raiva passar.
Referências
SÊNECA. Sobre a brevidade da vida, 1; Sobre a ira, II, 29.
EPICTETO. Manual, 1 e 5.
MARCO AURÉLIO. Meditações, VII, 27.