O Campo e o Corvo
E o corvo que grita,
e os olhos vazios de um homem vadio que não sabe o que é amar.
E um sexo que é lixo,
que se faz pelo caminho e se larga pelo mesmo,
sem ao menos se abraçar.
E uma sacerdotisa ordinária, que faz do sangue uma praga,
que ela derrama em sua cama e se apraz quando ele diz que vai embora.
E esses amores tão mal vistos de um mancebo menino,
que ainda pensa que o amor não é uma putaria sem pudor.
Que ainda pensa que há vazio nesse maldito e abençoado sacrifício,
neste altar desvairado, no esperma derramado
e no filho morto ao lado do vaso.
O corvo grita, perguntando:
“Quem é o errado? O menino jovem ou a Sacerdotisa do Diabo?”
Cuidado, mancebo, podem te atirar desse prédio chamado consciência.
E aos 20 vai perceber que não há sol na América do Sul,
mas claridade, em um quarto sujo e nu.
“Cuidado”, grita o corvo, “cuidado ao se achegar,
pois é melhor tirar do que ser fácil de se dar”.
Não é isso que eles dizem?
E o corvo gargalha à luz da lua,
vendo os vadios buscando a quem tragar,
a quem usar, a quem se limpar.
E o campo diz que errado é não se amar, é se doar,
errado é se amarrar — dizem ao mancebo.
Que um dia ele há de mudar,
e que esse sangue que há no chão, é ele quem vai derramar.
E o mancebo chora com o seu cigarro aceso,
pois o vício que destrói o ar seria melhor do que trepar
para nunca amar, como num jogo de bilhar.
E o corvo sorri, porque vê alguém com esperanças de se germinar
naquele cemitério onde há tempos o corvo custa a voar.
E o corvo volta a voar sobre esse campo, que é o mundo
que ama abortar e odeia criar.
Criar um amor,
criar um altar,
criar um abraço,
criar um ficar.
Por Guilherme Souza!