A cozinha estava mergulhada numa luz dourada. Sobre a bancada, tomates maduros, manjericão fresco, figos abertos e uma garrafa de vinho tinto aguardavam como se também participassem de um segredo.
— Vai ficar aí me olhando ou pretende me ajudar?
Ele sorriu.
— Depende. Você pretende me deixar experimentar alguma coisa?
Ela ergueu uma sobrancelha, divertida, e estendeu-lhe um pedaço de figo.
Ele se aproximou. Em vez de pegar a fruta, segurou delicadamente os dedos dela e provou o figo diretamente de sua mão.
Houve um instante de silêncio.
Enquanto a massa fervia, começaram a experimentar os ingredientes. Ela ofereceu-lhe uma azeitona, ele colocou um pouco de molho na ponta de seu dedo para que ela provasse. Riram quando uma gota de vinho caiu sobre a bancada.
A cozinha tornou-se um território particular, onde os objetos mais comuns adquiriam uma intimidade inesperada. A colher de madeira, o pano de prato, a faca esquecida junto às ervas. Tudo parecia pertencer àquela pequena cerimônia de aproximação.
O beijo aconteceu quando ela se virou. Não foi apressado. Começou como uma pergunta, aprofundou-se como uma resposta e terminou com ambos sorrindo, ainda próximos, como se tivessem descoberto uma linguagem que dispensava palavras.
O molho começou a ferver com insistência.
— Acho que estamos queimando o jantar — ele disse.
— Então salve o jantar.
Mas ela não o soltou.
Ele beijou sua testa, depois a ponta do nariz, e ela sentiu uma ternura quase dolorosa. Era estranho perceber que o desejo podia ser tão físico e, ao mesmo tempo, tão delicado. Que uma pessoa pudesse despertar fome e tranquilidade, inquietação e repouso.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
E, enquanto a última vela tremulava junto à garrafa vazia, compreenderam que o verdadeiro banquete daquela noite não estava nos pratos, nem no vinho, nem nos frutos espalhados pela cozinha.
Estava naquela descoberta deliciosa de que o desejo, quando encontra companhia, deixa de ser apenas fome.
Torna-se vontade de permanecer.