— Eu sinto dor...
— O que te dói?
— A alma.
— Mas onde exatamente?
— Não sei explicar. Não é no peito, não é na cabeça, não é em lugar nenhum que eu consiga apontar. Só dói.
— E por que você está chorando?
— Porque eu cansei.
— De quê?
— De fingir que não dói. De dizer que estou bem quando tudo dentro de mim pede socorro. De ser forte o tempo inteiro, quando, na verdade, eu só queria que alguém percebesse que eu também preciso ser cuidada.
— Você quer que alguém te salve?
— Não. Acho que só queria que, por um instante, alguém ficasse. Sem me pedir para explicar. Sem dizer que vai passar. Só... ficasse.
— E você? Você fica por você?
— Às vezes, eu não sei.
— Então começa por aí.
— Por onde?
— Por não abandonar a si mesma só porque está doendo.
— Mas eu estou cansada.
— Eu sei.
— E se eu não conseguir?
— Então hoje você não precisa conseguir tudo. Só precisa continuar.
— Mesmo doendo?
— Principalmente doendo.
— E se a minha alma continuar doendo?
— A gente cuida dela. Um dia de cada vez.
— “A gente”?
— Sim. Eu e você.
— Você nunca foi embora?
— Eu sou você. Só estava esperando você voltar a me ouvir.