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O avesso de existir

Dudaah
Pensamento

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WeAreSigmarsHeirs

O espelho que não devolve o rosto me lembrou O Espelho, do Machado: o alferes que só se enxerga quando veste a farda. Seu poema pede coragem para o caminho inverso, tirar a farda e olhar.

O espelho que não devolve o rosto me lembrou O Espelho, do Machado: o alferes que só se enxerga quando veste a farda. Seu poema pede coragem para o caminho inverso, tirar a farda e olhar.

Conteúdo da publicação

Uma poesia inspirada nos abismos da alma e nas perguntas que a literatura de Clarice Lispector desperta.

Há pessoas que escrevem histórias.

E há aquelas que abrem a própria existência

como quem abre uma janela

para um lugar que nem sabia habitar.

Clarice parecia conhecer

os corredores secretos do pensamento,

aqueles em que a razão caminha sozinha

e a alma, descalça,

toca o chão frio das próprias verdades.

Ela não precisava atravessar oceanos

para encontrar o desconhecido.

Bastava olhar para dentro.

E talvez esse fosse o seu maior mistério:

transformar o que não sabemos dizer

naquilo que, depois de lermos,

já não conseguimos calar dentro de nós.

Porque existem perguntas

que não chegam para serem respondidas.

Chegam para nos desarrumar.

Quem sou eu

quando retiro os nomes que me deram,

as expectativas que carreguei,

as versões de mim

que construí para caber no mundo?

O que resta

quando deixo de representar

a pessoa que todos aprenderam a reconhecer?

Talvez reste o silêncio.

Mas não aquele silêncio vazio,

que existe quando ninguém fala.

Refiro-me ao silêncio que nos encara,

que conhece nossas contradições,

que sabe quantas vezes dissemos sim

quando tudo dentro de nós gritava não.

Um silêncio tão profundo

que até a verdade parece ter medo

de pronunciar o próprio nome.

Há qualquer coisa de assustador

em descobrir a própria existência.

Porque, enquanto procuramos respostas,

ainda podemos acreditar

que somos aquilo que imaginamos.

Mas, quando finalmente olhamos para dentro,

encontramos quartos fechados,

janelas que nunca abrimos,

desejos que enterramos sob a palavra prudência

e verdades que chamamos de loucura

apenas porque não sabemos onde guardá-las.

E então compreendemos:

nem sempre temos medo de nos perder.

Às vezes,

temos medo de nos encontrar

e descobrir que a pessoa que procurávamos

nunca foi exatamente aquela

que aprendemos a ser.

Clarice parecia escrever

na fronteira entre o que somos

e o que acontece conosco

quando deixamos de fugir de nós mesmos.

Como se cada palavra fosse um espelho

que não devolvesse o nosso rosto,

mas aquilo que existe

por trás dele.

E eu me pergunto

se viver não será justamente isso:

uma sucessão de descobertas

que nos obrigam a abandonar

as certezas que um dia nos protegeram.

Talvez amadurecer seja perder,

pouco a pouco,

a necessidade de compreender tudo.

Aceitar que existem sentimentos

que não cabem em definições,

que a felicidade nem sempre faz barulho,

que a solidão pode existir

mesmo quando estamos rodeados de pessoas

e que, às vezes,

o maior encontro da vida

acontece quando deixamos de procurar alguém

e finalmente escutamos a nós mesmos.

Porque existir não é uma tarefa simples.

É acordar dentro de um corpo,

carregar um universo invisível,

sentir coisas que não sabemos explicar

e, ainda assim,

precisar escolher o que fazer

com cada novo amanhecer.

É descobrir que a vida

não nos entrega um significado pronto.

Entrega-nos o instante.

E, dentro dele,

a possibilidade de sermos diferentes

daquilo que fomos ontem.

Talvez seja por isso

que certas obras não terminam

quando fechamos o livro.

Continuam dentro de nós,

caminhando pelos nossos pensamentos,

despertando perguntas durante a madrugada,

mudando a maneira como olhamos

para aquilo que antes parecia tão comum.

A literatura, quando nos alcança assim,

deixa de ser apenas literatura.

Torna-se uma espécie de espelho

que aprendemos a temer

e, ao mesmo tempo,

não conseguimos abandonar.

E talvez seja essa a herança

mais profunda de uma escritora

que soube transformar o invisível em palavras:

lembrar-nos de que a alma humana

não é um território conquistado,

mas um mistério em permanente descoberta.

Porque há livros que nos contam

quem somos.

E há aqueles que nos deixam sozinhos

diante da pergunta mais difícil:

e se tudo aquilo que acredito ser

for apenas a superfície

de alguém que ainda não tive coragem

de conhecer?

Talvez seja nesse instante,

quando a última página termina

e o silêncio começa,

que a verdadeira leitura acontece.

Não a do livro.

A de nós mesmos.

Thoughts

  • WeAreSigmarsHeirs

    O espelho que não devolve o rosto me lembrou O Espelho, do Machado: o alferes que só se enxerga quando veste a farda. Seu poema pede coragem para o caminho inverso, tirar a farda e olhar.

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