CAPÍTULO 5
UM LUGAR NOVO PARA NÓS DUAS
Eu passei a manhã inteira pensando naquele encontro.
Não era apenas um encontro.
Era a primeira vez que eu conheceria uma das pessoas mais importantes da vida dele.
A filha dele.
Eu sabia que não deveria criar expectativas.
Ele havia me explicado que queria que tudo acontecesse naturalmente, sem pressa e sem colocar sobre ela qualquer responsabilidade em relação a mim.
Mesmo assim, meu coração estava inquieto.
E se ela não gostasse de mim?
E se me achasse estranha?
E se percebesse que eu fazia parte de uma história que ela não conhecia e não quisesse que eu estivesse ali?
Eu sabia que nenhuma dessas coisas seria culpa dela.
Mas insegurança não costuma pedir licença para aparecer.
Escolhemos um parque infantil que tinha brinquedos, espaço para correr e uma pequena área onde as crianças podiam brincar livremente.
Quando chegamos, a primeira coisa que percebi foi que aquele lugar parecia ter sido escolhido justamente para que ninguém precisasse ficar sentado diante de uma mesa tentando encontrar assunto.
As crianças brincavam.
Os adultos conversavam.
Havia movimento por todos os lados.
E eu agradeci por isso.
Quando a vi, senti um frio no estômago.
Ela era apenas uma menina.
Não a personagem de uma história que eu havia criado na minha cabeça.
Não um obstáculo.
Não alguém que precisava decidir se eu merecia estar ali.
Apenas uma criança chegando com sua própria personalidade, seus próprios interesses e seu próprio jeito de enxergar o mundo.
Ele se abaixou para falar com ela e depois me apresentou.
Eu sorri.
— Oi.
Ela me observou por alguns segundos.
— Oi.
Foi simples.
Tão simples que quase ri de mim mesma por ter passado tanto tempo imaginando aquele momento.
Sentamos por alguns minutos, mas logo ela apontou para um brinquedo.
— Posso ir?
Ele olhou para mim e depois para ela.
— Pode.
Ela saiu correndo.
Eu respirei aliviada.
— Ela é tímida? — perguntei.
Ele sorriu.
— Depende. Quando começa a se sentir à vontade, você vai descobrir.
Não demorou muito.
Pouco depois, ela voltou correndo para contar alguma coisa sobre o brinquedo.
Depois outra.
E outra.
Eu comecei a fazer perguntas.
Queria saber o que ela gostava.
Qual era o brinquedo preferido.
O que ela gostava de assistir.
Qual era a comida favorita.
E, aos poucos, a conversa deixou de parecer uma apresentação formal.
Ela começou a me contar coisas por vontade própria.
Descobri que ela tinha uma imaginação enorme.
Que gostava de inventar histórias.
Que tinha opiniões muito fortes sobre algumas coisas.
E que, aparentemente, eu estava errada sobre qual era o melhor brinquedo do parque.
— Esse é o mais legal — ela disse, apontando.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Então você vai ter que me convencer.
Ela me olhou séria por alguns segundos.
Depois começou a explicar, com uma convicção que me fez rir.
E foi assim que aconteceu.
Sem perceber, comecei a rir com ela.
Em determinado momento, ela me chamou para ver uma brincadeira que havia inventado.
— Você precisa fazer assim!
— Assim?
— Não! Assim!
Ela começou a demonstrar e eu tentei acompanhar.
Ela caiu na risada.
— Você não sabe brincar!
— Estou aprendendo.
— Então eu vou ensinar.
E, naquele instante, alguma coisa dentro de mim relaxou.
Não porque eu tivesse recebido uma aprovação.
Mas porque percebi que não precisava conquistar aquela menina.
Precisava apenas permitir que ela me conhecesse.
Sem pressa.
Sem tentar ocupar um lugar que não era meu.
Quando paramos para tomar um lanche, ela continuou falando.
E eu comecei a entender que conhecer alguém não era apenas saber o nome, a idade ou aquilo de que gostava.
Era perceber o jeito como os olhos brilhavam quando falava de alguma coisa.
Era notar o que fazia rir.
Era descobrir suas pequenas manias.
Era respeitar seus momentos de silêncio.
E eu comecei a gostar daquela menina.
Não porque ela fosse a filha do homem que eu estava conhecendo novamente.
Mas porque, naquele pouco tempo, ela tinha se mostrado simplesmente ela mesma.
Em algum momento, olhei para ele.
Ele estava nos observando.
Havia um sorriso diferente no rosto dele.
Um sorriso que eu não sabia explicar.
Talvez alívio.
Talvez emoção.
Talvez apenas felicidade por ver duas partes importantes da sua vida compartilhando aquele momento.
Eu não perguntei.
Ainda não.
Quando chegou a hora de ir embora, ela segurou minha mão por alguns instantes enquanto me contava uma última coisa sobre o parque.
Foi um gesto pequeno.
Mas meu coração ficou quieto.
Naquela noite, compreendi algo que eu ainda não tinha conseguido colocar em palavras.
Eu não estava entrando em uma vida vazia esperando que ele abrisse espaço para mim.
Ele já tinha uma vida.
Uma história.
Responsabilidades.
E pessoas que amava.
Eu não precisava apagar nada disso para existir nela.
Precisava descobrir se havia um espaço verdadeiro para mim.
E aquele primeiro encontro me mostrou que talvez fosse possível construir esse espaço sem pressa.
Quando fomos embora, a menina ainda falou:
— A gente pode voltar outro dia?
Eu olhei para ele.
Depois para ela.
E sorri.
— Pode.
E, pela primeira vez desde que ele voltou para a minha vida, eu senti que aquele futuro que tanto me assustava começava a deixar de ser uma pergunta.
Ainda havia muito para descobrir.
Mas agora eu sabia que não precisava descobrir tudo de uma vez.
Algumas relações começam com grandes declarações.
A nossa começou com uma menina me ensinando a brincar.