Quinze anos à espera, e a resposta chega numa varanda a meio de uma conversa sobre talvez. Fiquei com essa.
O Agora - Capitulo 20 (final) - Depois de tudo
Pensamento
Quinze anos à espera, e a resposta chega numa varanda a meio de uma conversa sobre talvez. Fiquei com essa.
Conteúdo da publicação
Depois de tudo
Havia dias em que eu ainda me pegava pensando em como tudo tinha começado.
Não no primeiro encontro.
Não no primeiro beijo.
Nem mesmo naquela noite em que ele apareceu depois de quinze anos e escreveu apenas:
"Oi. Tudo bem?"
Pensava antes.
Na menina que eu fui.
Naquele tempo em que amar parecia uma coisa tão simples e, ao mesmo tempo, tão impossível.
Eu tinha dezessete anos e acreditava que algumas histórias precisavam acontecer exatamente como a gente imaginava.
Hoje eu sabia que não.
Algumas histórias precisam esperar.
Não porque o amor seja pequeno.
Mas porque as pessoas ainda não estão prontas para carregá-lo.
Era uma tarde comum.
E talvez fosse justamente por isso que eu gostasse tanto dela.
Ele estava na cozinha tentando preparar alguma coisa para o jantar.
Tentando.
Eu estava sentada à mesa, observando.
— Você tem certeza de que sabe o que está fazendo?
Ele olhou para mim, ofendido.
— Depois de todo esse tempo, você ainda duvida das minhas habilidades culinárias?
— Não estou duvidando.
— Ótimo.
— Estou constatando.
Ele riu.
— Você poderia ajudar.
— Eu estou ajudando.
— Como?
— Evitando que você coloque mais alguma coisa nessa panela.
Ele levantou a colher.
— Está perfeito.
— Você disse isso da última vez.
— E estava.
— Nós quase precisamos pedir comida.
Ele começou a rir.
E eu também.
Era engraçado pensar que, anos atrás, eu imaginava que o nosso reencontro seria cheio de momentos extraordinários.
Grandes declarações.
Cenas perfeitas.
Palavras inesquecíveis.
Mas o que realmente me conquistou foi aquilo.
A simplicidade.
A possibilidade de estar ao lado dele sem precisar que cada instante fosse memorável.
Às vezes, o amor estava justamente ali.
No jantar que quase deu errado.
Na discussão sobre quem tinha esquecido de comprar alguma coisa.
Na mensagem perguntando se eu havia chegado bem.
Na preocupação com o trabalho.
No cansaço dividido.
Na risada depois de um dia difícil.
Na escolha de continuar conversando.
Na vida.
A nossa vida.
Depois do jantar, fomos para a varanda.
O céu estava começando a escurecer.
Ficamos alguns minutos sem falar.
Não era o silêncio de antes.
Era aquele tipo de silêncio que não precisava ser preenchido.
Ele encostou-se na cadeira e olhou para mim.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Você se arrepende?
Eu sabia exatamente do que ele estava falando.
Sorri.
— Às vezes.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Ainda?
— Do passado, sim.
Pensei um pouco antes de continuar.
— Mas não de ter vivido tudo o que vivi depois.
Ele ficou me olhando.
— Por quê?
— Porque, se eu pudesse apagar os anos que passei longe de você, também apagaria a mulher que me tornei nesse tempo.
Ele baixou os olhos.
— Eu penso nisso também.
— No quê?
— Em tudo que aconteceu antes de você voltar.
Ficamos quietos.
— Eu gostaria de ter tido coragem naquela época — ele disse.
— Eu também.
— Talvez tivéssemos sofrido menos.
— Talvez.
— Talvez tivéssemos ficado juntos.
— Talvez.
Ele sorriu.
— Você continua respondendo tudo com "talvez".
— Porque ninguém sabe.
Ele assentiu.
E então segurou minha mão.
— Mas sabe de uma coisa?
— O quê?
— Eu não quero mais saber como teria sido.
Olhei para ele.
— Não?
— Não.
Ele apertou minha mão.
— Porque eu gosto de como está sendo.
Sorri.
Talvez aquela fosse a resposta que eu tinha esperado durante metade da minha vida.
Não porque apagasse o passado.
Mas porque finalmente colocava o passado no lugar certo.
Atrás de nós.
Mais tarde, enquanto arrumávamos algumas coisas dentro de casa, encontrei uma caixa antiga.
Não era minha.
Era dele.
— O que é isso?
Ele olhou para a caixa.
Por alguns segundos, não respondeu.
— Coisas antigas.
— Posso ver?
Ele sorriu.
— Agora você ficou curiosa.
— Sempre fui.
Sentamos no chão.
Dentro havia fotografias, papéis, algumas lembranças de uma vida que existia antes de mim.
Eu não senti aquela antiga necessidade de competir com aquilo.
Não precisava.
Aquela história também fazia parte do homem que estava sentado ao meu lado.
Assim como a minha fazia parte da mulher que ele havia escolhido amar.
Peguei uma fotografia.
Ele ainda era muito jovem.
Olhei para a imagem e sorri.
— Você era tão diferente.
— Você também.
— Eu era bonita.
— Era?
Olhei para ele.
— Está querendo arrumar confusão?
Ele riu.
— Você continua igual.
— Ainda bem.
Ele pegou outra fotografia.
Ficamos alguns minutos lembrando.
Não tentando voltar.
Apenas lembrando.
Até que ele encontrou uma foto antiga nossa.
Nós dois muito jovens.
Olhei para ela por um longo tempo.
Era estranho.
Aquela menina não sabia nada do que viria.
Não sabia das perdas.
Dos erros.
Das escolhas.
Dos anos.
Das lágrimas.
Das mudanças.
Não sabia que um dia aprenderia a se perdoar.
Não sabia que encontraria o mesmo garoto quando já fossem adultos.
E, principalmente, não sabia que o amor que tanto desejava naquele momento não chegaria da maneira como imaginava.
Ele chegaria depois.
Muito depois.
Quando os dois já tivessem aprendido algumas das lições mais difíceis da vida.
— Se pudesse falar com ela agora, o que diria? — ele perguntou.
Olhei para aquela menina.
Pensei por alguns segundos.
— Eu diria para ela não ter tanta pressa.
Ele sorriu.
— E só?
— Não.
Respirei fundo.
— Diria para ela não acreditar que perder alguém significa perder a própria vida.
Ele ficou sério.
— E diria para ela amar?
Sorri.
— Diria para ela se amar também.
Ele apertou minha mão.
E naquele momento percebi que talvez aquela fosse a maior diferença entre a mulher que eu era e a mulher que eu tinha me tornado.
Aquela menina queria ser escolhida.
Eu também.
Mas agora eu sabia que precisava escolher a mim mesma primeiro.
E foi justamente quando aprendi isso que consegui amar alguém sem desaparecer dentro desse amor.
Naquela noite, antes de dormir, ele me perguntou:
— Você acha que a nossa história finalmente terminou?
Olhei para ele.
A pergunta me fez sorrir.
— Não.
— Não?
— Acho que uma história nunca termina quando duas pessoas continuam escolhendo escrevê-la.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Então o que vem agora?
Olhei para ele.
Não tinha resposta.
Ainda.
Porque pela primeira vez eu não precisava ter.
Havia sonhos.
Planos.
A vida profissional dele.
O meu negócio.
Nossa rotina.
Minha vontade de crescer ainda mais.
Os planos dele para o futuro.
A família.
As responsabilidades.
E tantas outras coisas que ainda nem sabíamos que enfrentaria.
A vida não tinha prometido que seria fácil.
Mas também não precisava.
Nós já não éramos aquelas duas pessoas que precisavam de garantias para continuar.
Éramos duas pessoas que tinham aprendido a conversar.
A ouvir.
A esperar.
A ceder.
A colocar limites.
A respeitar os sonhos um do outro.
A escolher.
E talvez isso fosse amor de verdade.
Não a ausência de problemas.
Mas a disposição de enfrentá-los sem transformar um ao outro em inimigo.
Antes de dormir, voltei a pensar naquela pergunta que me acompanhou durante quinze anos.
E se?
Dessa vez, ela não doeu.
Porque eu finalmente tinha entendido.
Talvez eu nunca soubesse o que teria acontecido se tivéssemos ficado juntos aos dezessete.
Talvez tivéssemos sido felizes.
Talvez não.
Talvez tivéssemos nos perdido de outra maneira.
Talvez tivéssemos aprendido as mesmas coisas mais cedo.
Ou talvez não.
Mas hoje eu sabia de uma coisa.
Nós não precisávamos voltar no tempo.
Precisávamos apenas continuar caminhando.
Olhei para ele e sorri.
Durante quinze anos, eu vivi perguntando o que teria sido de nós se tivéssemos escolhido diferente.
Hoje, finalmente, eu sabia.
Talvez Deus não tivesse escrito a nossa história para acontecer naquela época.
Talvez tivesse permitido que a vida nos levasse por caminhos diferentes para que, um dia, quando nos encontrássemos novamente, já não fôssemos dois adolescentes tentando descobrir o que era amar.
Fôssemos duas pessoas capazes de escolher.
Capazes de permanecer.
Capazes de construir.
E, principalmente, capazes de entender que algumas histórias não acontecem quando queremos.
Acontecem quando estamos prontos para vivê-las.
Fechei os olhos naquela noite com uma certeza tranquila.
O passado tinha finalmente encontrado o seu lugar.
O presente era nosso.
E o futuro...
O futuro ainda tinha uma pergunta esperando por nós.
Porque, depois de tudo o que havíamos vivido, ainda existia uma última coisa que precisaríamos descobrir:
quando a vida nos colocasse diante de uma escolha que pudesse mudar tudo, nós escolheríamos continuar sendo apenas um casal... ou escolheríamos construir uma vida que fosse verdadeiramente nossa?
Talvez essa fosse a pergunta que encerraria aquela parte da nossa história.
Mas não a nossa história inteira.
Porque algumas escolhas não encerram uma história.
Elas abrem o caminho para o último capítulo.
Thoughts
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PermalinkMinha filha, a menina da foto que num sabia nada do que vinha me pegou de jeito. Tenho um retrato de moça numa lata de biscoito e olho pra ele pensando quase a mesma coisa: calma, num tenha tanta pressa não.
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PermalinkQuinze anos à espera, e a resposta chega numa varanda a meio de uma conversa sobre talvez. Fiquei com essa.
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PermalinkO título diz final, mas a última linha fala de um último capítulo ainda por vir. Vem aí um capítulo 21 sobre essa escolha que pode mudar tudo?
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PermalinkEla diz que não sentiu vontade de competir com a caixa dele, mas passou um bom tempo nas fotos de antes dela até chegar na dos dois. Quem conta assim geralmente sentiu um pouquinho, sim, e tá tudo bem. Meu palpite é que essa caixa ainda volta no fim, visse.
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PermalinkRomance não é a minha área, mas a conversa na varanda sobre o talvez me convenceu mais do que qualquer declaração. Ele admitir que também faltou coragem naquela época divide a conta entre os dois.
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PermalinkA briga pela panela bem no meio do capítulo final me fez pensar que é assim que as histórias longas acabam de verdade, com alguém quase pedindo comida. Aposto que quem acompanhou desde a primeira mensagem depois de quinze anos esperava uma cena enorme e ganhou um jantar quase errado, e gostou mais. Obrigado por trazer a série até aqui!
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PermalinkEle tentando fazer o jantar e ela ajudando só por impedir que entre mais coisa na panela, kkk. Depois daquele capítulo em que ele mandou ela ir mesmo morrendo de medo, ver os dois discutindo tempero é um alívio, visse 😂
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