Eu não queria que ela diminuísse o próprio mundo
Quando ela me contou sobre o negócio, meu primeiro sentimento foi orgulho.
O segundo foi medo.
Eu não disse o segundo.
Pelo menos não imediatamente.
Ela falava daquele projeto com um brilho que eu reconhecia.
Era o mesmo brilho que eu tinha quando falava da minha nova oportunidade.
E naquele instante compreendi uma coisa.
Eu não poderia pedir que ela fosse corajosa para mim e covarde por nós.
Ela tinha um sonho.
Um sonho que existia antes de mim.
E eu precisava respeitá-lo.
— Você já decidiu? — perguntei.
— Ainda não.
— Por quê?
Ela me olhou.
— Porque existe você.
Aquilo me atingiu.
Não como uma cobrança.
Como responsabilidade.
Eu poderia dizer que seria difícil.
Poderia pedir que ela esperasse.
Poderia dizer que não queria distância.
Poderia fazer tudo isso.
Mas não queria ser aquele homem.
Não depois de tudo o que havíamos aprendido.
— Eu quero você perto — falei.
Ela abaixou os olhos.
— Eu também quero.
— Mas não quero que estar comigo custe o seu sonho.
Ela ficou quieta.
— E se eu for? — perguntou.
— Então vamos descobrir como continuar juntos.
— Mesmo com a distância?
— Mesmo com a distância.
— Você fala como se fosse fácil.
— Não vai ser.
Ela sorriu.
— Pelo menos você é sincero.
— Estou tentando.
Ficamos alguns minutos imaginando como seria.
Ela viajando.
Eu trabalhando.
Os dias em que não conseguiríamos nos encontrar.
As noites em que a saudade apareceria.
Os finais de semana.
As responsabilidades com minha filha.
Os momentos em que cada um precisaria lidar com seus próprios problemas.
E, pela primeira vez, eu percebi que relacionamento não era fazer duas vidas caberem perfeitamente uma dentro da outra.
Era criar espaço para as duas existirem.
— Você sabe do que eu tenho medo? — perguntei.
— Do quê?
— De que você vá para outra cidade, comece uma vida nova e perceba que não precisa mais de mim.
Ela sorriu.
— Você ainda está com esse medo?
— Às vezes.
— Então vou te contar uma coisa.
— O quê?
— Eu não quero precisar de você.
Aquilo doeu por um segundo.
Até ela completar:
— Eu quero escolher você.
Olhei para ela.
Talvez fosse a frase mais bonita que alguém pudesse me dizer.
Porque necessidade pode nascer do medo.
Escolha nasce da liberdade.
E eu queria ser escolhido por ela todos os dias.
Não porque ela não tivesse outro caminho.
Mas porque, tendo caminhos, ainda quisesse caminhar ao meu lado.
— Então vá — falei.
Ela me olhou surpresa.
— Você está mesmo dizendo isso?
— Estou.
— Mesmo querendo que eu fique?
— Principalmente por querer que você fique.
Ela sorriu.
E eu entendi que amar também era abrir a mão sem soltar a pessoa.
Era dizer:
Vá atrás do que faz seus olhos brilharem.
E confiar que, se aquilo que estamos construindo for verdadeiro, encontraremos um jeito de continuar juntos.