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Nós e Osíris: I - Os Olhos

FinnMcCool

Conteúdo da publicação

Nota preliminar: O que você está prestes a ler é um Work in progress, portanto, o texto é passível de erros de digitação ou tipografia. Sinta-se livre para apontar erros perceptíveis ou comentar, sou todo ouvidos. Espero que gostem.

* * *

Morte

A Morte é uma flor que só abre uma

vez.

Mas quando abre, nada se abre com

ela.

Abre sempre que quer, e fora da

estação.

E vem, grande mariposa, adornando

os caules ondulantes.

Deixa-me ser o caule forte da sua

Alegria.

- Paul Celan

"Acreditar: significa acreditar nas suas próprias mentiras. E

eu posso dizer que sou grato por ter aprendido essa lição

muito cedo."

- O Tambor, Günter Grass.

"Quando o homem nasce, ele é débil e frágil, e quando morre, é forte e resistente. Enquanto uma árvore cresce, é suave e flexível, mas quando está seca e dura, ela morre. Força e resistência são companheiras da morte. Flexibilidade e vulnerabilidade são expressões do frescor do ser. Por isso, quem endurece, nunca vence."

- Stalker, 1979, Andrei Tarkovsky

I

- (Mais um. Quarto não: quinto. A primeira impressão do Coluna de Sacrário errou o número. Não pesem as consciências com maiores pesares e compadecimentos, não economizaram nas advertências das mais sensacionalistas as mais francas ao tal músico estrangeiro sobre não permanecer as ruas até muito mais tarde (um italiano que escuta o último badalar do sino da igreja e não se ajeita? E depois nós quem somos os estranhos). Como se a integridade de um qualquer de fora fosse melhorar e a morte deste fosse piorar a reputação dessa já insólita da cidade. Cantor ou violinista ou flautista (um Hamellin mamma mia?), presumo (até porquê acho que pianista celestista ou coisa que o valha das orquestras violoncelista harpista se é que ainda existem para fora do imaginário helênico baterista algum estaria perambulando com seu instrumento por aí na madrugada da cidade da boca do monte). Sem a minha foto. Quem mandou tentar conciliar menores valores depois de já as ter tirado? Daqui

a pouco o pessoal do Hercúleo ou do Serra Notícias deve perceber a desimagem do concorrente local já sabendo previamente da minha contratação por parte deles e assim deduzir uma quebra de contrato e vem aqui pechinchar. Ainda hoje até o fim da tarde. Já se aproveitam dos benefícios que o atraso traz atrelado à análise (sanguessugas, pulgas e percevejos, uns ordenhadores de vacas centenárias...) para fazerem uma matéria de melhor rendimento, proveito, mais acurada. Construindo as imagens por si próprias. Algarismos: letras, números, fotos... manchas em um bom, dobrável e redobrável, formal, constructo papel (reunião de celuloses). Descontos (as etiquetas da miséria), chamadas à vagas de empregos (certo desespero de quem posta e quem procura), nada mundial concreto: mais retrógrado do que jamais nos pareceu, a informação monocromática sem representação nenhuma como me recusei a fazer. Mas as do morto que vão

fazer falta. Uma mina de ouro (Alquimia: da putrescina à pepita) particular. Particular não, é do Alicerce. Me pergunto se mamãe foi pra lá (provável, todos nós para lá vamos)... como receberia, entregaria, teria maior acesso aos meus modelos se não fossem quase imediatamente contidos e embalados para a cerimônia o mais veloz possível para assim descansarem no topo. Foi atrás do pai? Como fazia viajando até desisrir na metade dos meus treze anos. De antes até esse momento ela existia para mim em sua presença física tanto quanto meu pai em seu corpo decapitado nas molduras quebradas por vovó enquanto a mãe se recuperava. Dos longínquos campos da Estônia (o favorito destino de férias do homem) até o mais próximo (nem tanto) porto de Santos (em que o tal saia de barco até o crepúsculo); três anos de caso ideal até a gravidez. Pura mecânica dos corpos: dependendo da natureza entre dois corpos, ambos se atraem ou se repelem. O terceiro vem e aí o problema dos três começa desgovernado... Só de relance já percebo que não há nenhuma notícia digna de nota (já costumo ler apenas os textos complementados com minhas fotografias de qualquer maneira). Alvejado, quatorze tiros: três na cabeça (pra quê? Se um já seria o bastante? Mórbido desperdício), dois na perna direita e um na esquerda, 4 no pé (marca de tortura? Resposta a alguma possível tentativa de escape?), mais três no braço direito (o braço a tocar o instrumento?) E um de raspão no pescoço (no caso do instrumento serem as cordas vocais?). Fingem surpresa, e como. Os da delimitação religiosa de Piedade, das igrejas as sinagogas aos templos budistas tibetanos, chineses e japoneses prestam suas condolências imprevistas. Olha só, graças aos Trâmites insuportáveis com o exterior e os com o próprio interior do país, o tal haverá de ser velado e levado ao Alicerce. Vai ser privado de seus ritos, estará em um domínio a parte do além. Só nos aniversários, na Páscoa e no dia de Zepar (dia dezoito de Dezembro) é que se pode visitar o Alicerce (mas não ver quem quer que sejam os mortos que lá estejam). Geralmente os mortos são dispostos para baixo: enterrados, cremados e lançados às águas. Em Sacrário (não do mesmo modo que a transcendência), os mortos são elevados acima de seu lar. Já fazem dois anos desde que resolvi investir na... "natureza morta". Nunca tive problemas financeiros, tudo, claro, graças a ela... aquela que esgotou todo o meu propósito neste mundo (ainda não me parece, mesmo hoje, um preço tão caro). Certo tempo que não a vejo, nos editais dos jornais, nos anúncios da cidade, em todas as divulgações sobre mim... deve ser porque a evito como posso... a mesma evasão que eu deveria dedicar, se não para meu trabalho, para...)

- Léo! Léo! Qual é, abre logo!

O alaranjecer da luz solar do início de Setembro de 1980 em Sacrário não veio sozinho, muito menos silencioso. Um lembrete sensciente. Cicios de Banshee pervagam o triângulo equilátero que é o bairro de Piedade de Sacrário e pela intensidade escapam levemente numa parcela infinitesimal das extremidades de Clementia e Corona, entoo além do audível, as mãos das fadas sem asas.

- (... Vagabunda, como abusa da minha boa vontade. Juro que se as coisas não se acertarem até o fim do ano o Alicerce ganha mais um morador.)

Passo a passo, range a madeira, corre o corrimão, dentes não escovados e os loiros cachos revirados, sem pressa. "Não vá fugir". Vagarosamente. Temos todo o tempo do mundo. O Alicerce está a pelo menos uns dez quilômetros daqui, Na ponta direita da Piedade. Aquiles e a tartaruga. Por que não ruge contra esse desaforo? Brada o grito do fim? Ainda não é noite, e a madrugada é irmão mas não suficiente. Tarde, não é o habitual, mas a cidade acorda.

- Leve o tempo que precisar aí em cima. Esses seu degraus compulsivamente encerados estão é prontinhos pra te derrubar.

- Você fala como seu eu já não estivesse acostumado com quedas junto com toda nossa espécie, desde ADÃO E EVA, sabe.

- Sabe que eu posso te ver do olho mágico não é?

- E você tem alguma dúvida?

- Claro que sabe.

- Está frio ai fora?

- Se eu disser que está frio você certamente não abre.

- Acima de trinta graus também não.

- Ah, Leonardo, como você ainda me faz rir!

- E como você me dá asco Aisha.

Muito mais tempo até que se chegue ao batente. Saliva dos nervos, ahg ham, leve deschavear. Choque de olhares, nenhuma pupila dilata nem se pisca. Até quando? Se Deus quiser hoje.

- ... Tratativas da divisão de bens?

- Precisamente.

- Vê se entra logo.

- Mas que sucessão de grosserias, até pra você.

- Pra combinar bem com seu, o se preferir, nosso tipinho.

O cavalheiro não mais puxa a cadeira e as donzelas se sentam por si. Papelada. Ruído radiofônico vindo do mesmo cômodo. Mobília mista. Ela levou metade da última vez. O que mais ela quer? O que mais uma mulher poderia querer? Helena move montanhas (menos o Alicerce). Qual dos dois quer? Cantam ou Urutaus em círculos. A perfeita estrutura civil, envolta em montes: uma fábrica de ecos e reverberações em que palavras, barulhos e súplicas nenhumas podem escapar e apenas se direcionam para outra localidade do mesmo epicentro. Nada que se cria ou entra em (e no) Sacrário tem permissão de deixá-la (lo).

- A coleção de A Comédia Humana?

- Pode ficar. Presente da academia. Nunca gostei e nem terminei.

- Recherche du Temps Perdu...

- Meu. Você não merece Proust e nem sabe francês.

- E você sabe?

- Sim. Eu viajava um tanto antes de tudo.

- Não me lembro de nos ter algemado.

- E nem precisou.

- ... Os Roland Barthes são seus.

- Não fazia tanta preferência. Pronto, sou fotógrafo então Roland Barthes é o topo da minha prateleira! Você fez letras de língua inglesa? Seu topo de estante é Shakespeare?

- Geoffrey Chaucer.

- Pior ainda. Enfim, prosseguindo...

- Posso ficar com seus Edgar's Allan Poe?

- Podemos por favor parar de falar de livros?

- São muitos.

Tic tac tic tac. Janus olha à janela e ao interlocutor. Empilhar. As peras glaceadas com nata do Selena já devem estar acabando e o horário propício (o seu) deve logo começar. Quem será o próximo? Ligeia...

- Posso ficar com o piano?

- Não.

- E onde ele está?

- Penhorei. Sabe bem quanto um Essenfelder vale por aí.

- Não minta pra mim.

- Por que eu mentiria? Só tomaria mais do meu precioso tempo tendo que ver a sua cara.

- Talvez porque você ainda quer sair mais na vantagem.

- E eu estou?

- A vitrola com todos os discos, a porcelana, os chapéus e as outras peças de roupa universais, essa casa que eu quem fiz o favor de mobiliar e agora tenho só as partes, o carro, todas as molduras e esculturas que não são enquadramentos seus, muito gentil da sua parte se apropriar do passatempo dos outros, inclusive.

- Você acredita mesmo que eu estou na vantagem com isso?

- Acho.

- Pense o que quiser, mas ele não está mais aqui.

- Então não vai se importar se eu ir até o sótão.

Nem os nascidos compreendem, estão todos acima. Ou é porque vivos estão? Conto do Cavaleiro. Seu olhar nos condena, Percival. Trombetas e cornetas e berrante abaixo. Tentamos.

- Isso não vai ser necessário.

- E por que não?

- Porque essa casa está no meu nome então eu a presido logo se você ousar subir lá sem minha permissão eu não me responsabilizo pelo que pode ou não te acontecer.

- Rebecca?

- Você ouviu bem.

- Você sempre foi um péssimo mentiroso. O arzinho ladeado que sai dos seus lábios e a sua mudança de expressão que tentando não se demonstrar súbita só destaca mais o esforço.

- Claro Lacan, fale mais Lacan.

- Será que dá pra parar com o sardonismo?

- Parece que alguém não leu Sterne nem Joyce nem Rabelais o bastante, nesse último ah é esqueci, você não sabe francês.

- Uau, quanta maturidade da sua parte Léo.

- Quando foi a última vez que visitou o Alicerce?

- No dia de Zepar do ano passado, pelo meu pai.

- Não foste nem no aniversário dele e nem na Páscoa?

- Por que a pergunta?

- É que também esqueci que você estava ocupada demais com o Purson.

Invocação. Os trinta e um mil habitantes de Sacrário sabem. Catalisador associativo. Esse é seu jeito de se rebelar. Gaturamos e Pintassilgos se resguardam nos poleiros (esses são meus sim). Tão volúvel quanto um pássaro, ave de rapina. Agora só faltam setenta e um não é verdade? E o anel

é a aliança. Me emaranhe mais nisso tudo.

- ... Eu entendo sua indignação, mas por favor sejamos razoá...

- Doze, anos.

- ...

- Valeu a pena? Ver tudo descer pelo ralo?

- Pelos últimos três anos?

- Dois.

- Cinquenta e um anos e cinquenta e três, Léo. Trezentos e sessenta e cinco dias e uns quebrados no cerco Napoleônico de tédio não fazem mais a menor diferença para a gente.

- Valeu?

- Com toda certeza.

- O piano não vai com você.

- Pelo menos uma rendição pacífica. Mas você nem toca. Prometia e prometia aprender um Wagner ou Brahms, mas preferiu ficar fotografando defuntos por aí.

- E você toca?

- Não.

- Ah é, não é verdade? Quase me esqueci, Purson toca!

- Aumente mais meio tom na sua voz e ele vai ouvi-lo.

- Pois que me ouça um filho da puta como aquele!

- Buscou saber mais sobre ele depois de tudo? Tem de admitir então de que ele inevitavelmente desperta interesse. Por acaso anda espionando além de vasculhar a vida alheia?

- Esse já é o trabalho da sua corja de intelectuais, se alimentando muito mais de mortos do que eu jamais poderia, só me ocupo com os da cidade, mas só na Inglaterra vocês tem George Eliot, Marlowe, Jane Austen, Byron, Shelley, Dickens...

- São estudos para posteridade, um tributo e um ato solene de profundo respeito a nossa leitura.

- Diga quantas palavras que não são suas e se esconda atrás da carapuça decomposta dos seus mestres o quanto quiser, citações não são argumentos.

- A pessoa que se deu ao trabalho de tirar o piano da sala e levar pro sótão só para tentar me fazer de trouxa quer me dar sermão sobre sinceridade.

- Eu o penhorei, pode pegar no antiquário Chronos.

- Ah, faça me o favor Leonardo! Acabou de falar!

- Olha! Olha só gente! A mulher infiel se sente tão acuada e ofendida quando lhe ocultam a verdade! Quando a privam de sua, dignidade! Se é que ainda lhe resta alguma ou se algum dia a tivera, Emma Bovary!

- Em momento algum eu levantei a voz a ou contra você. Quem busca o alarde o burburinho terá, mas não por mãos minhas.

- Você avisou a ele de que vinha até aqui?

- Claro que não, provavelmente ele iria querer vir trocar algumas palavras cordiais e acolhedoras com você, lamentar

como as coisas transcorreram.

- Ele deve ser um homem de muitos sentimentos, até porquê tocar uma ópera com a batuta requer isso, e deixar o serviço para com o Alicerce também.

- Um trabalho do mais mórbido, não pode culpá-lo por isso, é só a você que agrada os... "preparativos".

- Nem posso culpá-lo por nós, porque tudo foi culpa sua. Nem o conhecia.

- E nem ele a você. Oito anos de vizinhança? Mesmo antes você não olhava para os lados.

- Sim sim, ele não conhecia Leonardo Allocer nem sua esposa Aisha!

- Acha que o mundo gira em torno de você? Fotógrafo de A Verdade? Sempre achei aquela foto estúpida, pra não dizer enfadonha. Seus enquadramentos de setenta e três a setenta e seis no geral são bem melhores.

- Pronto, me console, letrada! Dê a sua opinião única que converge com a minha e mitigue o que vem direto, mas dê mais algumas e eu tenho de dar razão a Sócrates sobre o conceito.

- Claro claro, como eu sou uma pessoa terrível por não querer alguém que se vendeu tão facilmente e que deixou de lado as nossas tradições pessoais e que passa todo o tempo possível enfurnado em uma ambulância ou carro fúnebre ou ruas abaladas e nunca nos pôde prover filhos.

- EU! SEMPRE! DISSE! QUE EU! ERA! ESTÉRIL!

Entremeados dedos aos olhos, a vertigem vem de outros mecanismos mas altera a visão, lupas enxeridas, prisma. Polegar indicado para trás:

- O centro de adoção é logo ali óh, trezentos metros da sua casa. Tenho decorado a localização já faz um bom tempo...

- (Diabo, por que trabalhas...) Então por que você não aproveita e vai lá com o Purson, escolham o bebê mais bonitinho que lá estiver e pronto! Estão feitos! Daí ele resolve tocar a ópera de Arame e vai longe, você fica aqui com ele, e daí ele tem mais uma Aisha por lá, não se ponha no pódio, existem outras Aishas por aí e você não é a última bolachinha do pacote, daí dependendo da idade em que pegarem a criança, um ou dois anos: ele vai para Estônia tocar a ópera sei lá porque, daí você vai lá e buscar ele e ele não está lá, deixe sua tão amada criança em casa e vá buscá-lo, já que se não foi um problema procurá-lo enquanto você ainda tinha um compromisso, sem nenhum obstáculo pra te impedir, oh, você não vai parar mesmo! Orfeu! Ou quem sabe só de você cogitar se aproximar desse centro ele já te deixe ou quem sabe antes de você abrir a boca ou muito, muito antes disso!

- Leonardo! Os bens são o assunto e isso não vem ao...

- Raio que o parta! Por acaso A Verdade é dura demais pra você? É por isso que não gosta dela? A mim ela repulsa pura e simplesmente pelo fato de me ter sido um final insatisfatório.

- Olha Léo, não vamos nos fazer de difíceis...

- Devia ter pensado nisso antes pular a porra da cerca. Eu ainda fui muito brando em sempre deixá-la bem, bem baixa e sem arames.

- Nos seus termozinhos de Francês, deve ter lido Mauriac. E no seus termozinhos de fotógrafo, se minhas vergonhas não estão abertas ou se estou viva, sou absolutamente desinteressante para você.

- E como as suas vergonhas estão trancadas! Castas! A sete chaves!

- É pedir demais um olhar descompromissado?

- Essa foi a única maneira que você encontrou pra se livrar da inércia? Por que se foi, seu curso não ajudou na criatividade.

- O orgulho da cidade faz jus a sua estupidez.

- Não tente fingir que minhas reações não são justificáveis.

- E o que eu te disse desde o começo? Só me dê as minhas exigências e o piano que tudo se resolve, a razão pode ficar com você, não preciso dela.

- Por que a droga do piano?

- Não é da sua conta.

- Ah é sim, e muito.

- Você nem toca.

- E daí?

- Não sei. Quer abrir espaço pra mais uns dos seus cadáveres?

- Você acha que eu tenho prazer nisso?

- Se não tem pior ainda. Porque assim sua indiferença seria um ponto ainda mais assustador.

- Pois é, não sobrou muito pra me importar depois que A PESSOA QUE SELOU MATRIMÔNIO COMIGO NO ALTAR RESOLVEU PUF OLHAR PARA O LADO! Não olho para direita nem para a esquerda e pelo menos os mortos não vem aqui buscar o que NÃO É DELES!

- Começou a gostar do Alicerce.

- Não, me privam deles, e quando você for pra lá, faço questão de morrer em qualquer outro lugar que for.

Sacrário: O frio não traz neve. Quando chove, um poço, uma sopa, um caldeirão... e a cidade anda, andou, e como pouco ou muito antes, já está quase parando.

- ... Pra mim já deu, Léo.

- Então tá, a porta é logo atrás de você.

- Escuta aqui, já te disse tudo que cedi, nos menores pormenores, e eu não vou sair daqui sem esse piano.

- Ótimo, você não sai daqui sem a garantia para com o seu manuseador de varetas.

- Eu não exigi satisfação alguma do porquê você querer ou o que você faria com minhas conseções, você podia fazer o mínimo da sua parte e respeitar a minha privacidade...

- PRI, VA, CIDADE! Não sente vergonha? Em pronunciar essa palavra? Da sua boca?

- E o que isso...

- Vá, aprender seus Brahms e seus Wagners, ou quer que ele toque uma pra você?

- JÁ CHEGA!

Não se submeta, Lilith. Como aumentou o trânsito afora. Era hoje o discurso. Mais significados presos. Cai o Vajra. Ruas sempre em rótulas, cubículos. Dance Salomé, um tango propositalmente solitário. Eles já devem chegar, livramento pelo divulgar, a abordagem de Deus. Chiam organismos e decorações. Imprecam sobre tudo de onde moram.

- ... Dai-me paciência, Deus...

- ... Não vou a Paróquia nem a Igreja desde tudo...

- Não fizera falta alguma...

- ... As... fotos. As nossas.

- ...

- ... Posso ficar com elas?

- Queime-as assim que as pegar.

- Não... não.

- E por que?

- Por que não é justo... nem com você, nem comigo.

- Esse é o seu problema. Você acha que o presente vale mais que ou define o passado. Até poderia ser, se não se tratasse de nascidos e crescidos em Sacrário...

Todos sobem ao Calvário, ninguém desce ou é trazido de lá. Transformados em Wendigos, Homo homini lupus.

- ... Estão no sótão, junto do piano.

- Esquece, não vou levaro instrumento... você me cansou.

- As Gotas d'água...

Um, dois e toc toc

- Olá, o senhor Allocer se encontra em casa?

- Bem em tempo.

- Seus chapinhas de publicação?

- Os secundários, os outros me passaram a perna e eu não deixei barato.

- Entendo o seu cansaço... as pessoas te enganando...

- Sente nada.

- Não vai responder?

- Sempre espero baterem três vezes ou mais. Dez vezes foi mo seu caso no seu caso, puro capricho. Que nem a jurisdição municipal sobre que a distância máxima entre alguém e o Alicerce ser de trinta metros se for nativo e se estrangeiro sessenta, demarcados pelo Limiar.

- Dizem que é sobre a sensibilidade do nosso povo em relação a estrutura e que os do exterior começam a se sentir mal a menos dessa distância, se bem me lembro.

- Claro, os dois tomos do Panorama Cultural e Histórico de Sacrário estão com você não é?

- Sim.

- ENTRE

Desfaz-se a desfaçatez. Passe, Hermes, rubrica e cera. Passe o caduceu enquanto se acalma a já pouco atribulada cidade: apomórfica. Cerração e serões. Abra para mim, faça as honras, Circe.

- Olá.

- Olá senhorita, procurador do jornal Hercúleo. Por acaso Leonardo Allocer se encontra em casa?

- Sim, pode entrar. Não vou atrapalhar seus assuntos.

Apelos, um algar profundo. Lá atrás o carro do Serra Notícias. Dem meia volta, não chegaram a tempo. Já consumiram todo o hoje, nada mais. E não é que dão mesmo

- Renomado senhor Allocer, não pude deixar de notar...

- As fotos são suas, sem encenação. Já as tinha aqui logo de antemão.

- Ah... então está tudo nos conformes. Se me permite a pergunta, o que Aisha faz em sua casa?

- Veio encher o meu saco.

- Lamento pelo que lhes ocorreu apesar de não saber detalhes.

- Guarde seus sentimentos pra você, só hoje já me ocorreram

demais.

- Eu ouvi bem isso, Leonardo!

Norte-sul-leste-oeste, não há onde olhar para além. Pegue, processe, revise, publique, arquive... faça e refaça, as atualizações, reciclagem dos fatos. Sussurre, Harpócrates: murmereje tranquilo as inconsequências siderais, dimensionalmente ineludíveis e inenarráveis da humanidade; invadida, violada.

- Muito obrigado por sua colaboração, senhor Allocer. Um prazer inexprimível fazer negócios com você.

- O prazer é todo meu.

Passo, passo, passo passado. Como o cometa passou tão rápido...

- Que rápido, e profissional.

- Isso se chama compostura.

- Sim, sim...

- ... Vá logo pegálas.

- Já o fiz. Não vou guardálas mas também não vou pôlas em um mural. Mas se algo existe, é porque algo ou alguém permitiu.

- Nada do piano?

- Já disse pra esquecer. Talvez eu te libere mais algum sonho, sei que a fotografia não pode suprir a audição, nem no cinema e nem se você quisesse muito.

- Sem cinema na minha área.

- Os filmes nem chegam direito ou a tempo mesmo por aqui.

Tudo exarado, tendo sentidos se volta. A ponta da piedade se eclipsa como qualquer outro ponto das pirâmides. Isso é meu, Sacrário nosso. Adiando, portraindo as próximas moradias...

- ... Já são horas, não?

- E por hoje, é isso, Leonardo...

- Ambos temos muito ainda o que acertar, mas nenhum de nós vai... embora.

- Nunca nem cogitei coisa parecida...

- ...

- ... Estônia? Se não fosse... bem, você quem sabe de verdade... eu pelo menos diria como a sua imaginação é fértil.

- Pois é...

Na mosca. Não, não nesse gelo. Bater de asas escamosas, o escaravelho empurra sísifico a sua bola. O que desce de lá são somente nossos esforços, caem ao abismo, o caldeirão... Khepri surge de trás, acentua a presença do topo... já estamos lá...

- ... Realmente... me havia fugido à memória completamente que sua mãe quem tocava, peço perdão...

- Nada muito grandioso: Shostakovitch, Beethoven, Debussy, no máximo um Schubert.

- ... Nenhuma notícia?

- Fazem dois meses... Talvez ela esteja lá e não foi reconhecida e consequentemente não fui informado.

- Talvez... prometo informar-te caso eu tome conhecimento de algo.

- Quanta generosidade...

- Muito sábia, me deu ótimos conselhos até pouco tempo inclusive sobre nossa questão. Alguém grande demais pra ficar aqui.

- ...

- ... Existe em você... algum tipo de ânsia, um desejo... de que ela tenha de fato... transcorrido como todos os outros... que ela tenha decidido... ficar com você, para sempre ou que somente você fosse o bastante para ela. Estou errada?

- ... Tire as suas próprias conclusões. Se é nisso que acredita,

não há esforço suficiente que eu possa fazer para te convencer do contrário, especialmente você...

- ... Combinamos?

- Acordamos.

Todo adeus ressentido é um ademônios. As maçãs só vem em janeiro, agora são os pêssegos: pericarpo felpudo, fermentado: desata e embriaga! Fonte da imortalidade! Mizaru, não veja o mal. Kikazaru, não ouça o mal. Iwazaru, não fale o mal.

- (... As coisas já estão por fechar... sete e meia da noite provavelmente deve ser uma grande fagulha de dia para os de fora. Hoje vivemos só de escárnio e biscoitos. Vou beber apenas um mate para enganar a fome, como mamãe no farol de Corona quando lá trabalhava guiando o trânsito da montanha (e escrevia os maiores absurdos em morse para os outros a distância). Amanhã tem mais. Outras coisas possuem mais.)

Passo, passo, passo passado. A trupe termina o espetáculo sem deixar rastros...

- (... Ou vai parar nesse italiano (quarto, quinto...), ou teremos mais um (quinto, sexto...), mais alguns (quantos)... as dele foram bem ruins mesmo... de muito longe de notável desfoque, mas o homem aceitou o material sem nem hesitar, um desespero penitencial... estamos todos bem, até o presente momento... Se for acontecer, que não seja tão cedo... o que é e... será de mim a esas horas sem o pleno funcionamento da visão, meu mais crucial sentido? Espero que isso somente me ocorra somente quando os Mangaves me levarem ao Alicerce (se bem que... seja qual for a crença... a verdade, quantas fotos eu lá teria acesso... mesmo com auras, almas, infernos... precisaria tanto dela quanto na vida). Mais amarga, Argentina a erva. Fiz certo em quase ebulir a água, nesse frio. Não há deflúvio nem da água nem dos vapores e nuvens aqui. Não me deixam acessar o farol mesmo agora, a cerração não tem sido de níveis alarmantes. Mesmo sendo um dos poucos que sabe operá-lo. Perdi o discurso hoje e Aisha também (sou mesmo tão importante a ponto de privar alguém de exercer sua presença política por minha causa?). As coisas se endireitam. Posso aproveitar e rever No Caminho de Swann agora, memória involuntária. Sacrário insiste tanto quanto suas pessoas. População, várzea geográfica. Preguiça de pegar minhas peças mais aconchegantes, sofra o que a sua terra sofre. Posso adormecer sem pesares e mesmo esses conflitos não tiram meu sono. A hora dos saltimbancos ou do esoterismo, se divirtam e, pelo menos sob a luz da lua, nos deixem sádicos mas em paz...)

Passo, passo, passo passado. O que é o que é: quem conhece o tempo mas não os horários?

A cidade dorme.

* * *

"Dizem então que a estáua brônzea de Magno Zepar, localizada no centro do grande parque Park Bosco no triangular centro geográfico da cidade entre Corona, Clementia e Piedade, aponta sempre para o pôr do sol. A antiga comunidade metodista mista com mais de cento e quarenta e cinco anos fundada por Zepar em muito se divergiu do metodismo original do seu colega catequista Elliot Pitts e se tornou uma comunidade muito diversa e com uma grande receptividade espiritual. A despeito do Alicerce, certamente a localidade de maior fascínio da cidade, construída aproximadamente em 1840 na região média central do Rio Grande do Sul por Zepar, nunca ficou totalmente claro nem aos historiadores nem aos próprios habitantes o porquê de sua construção e manutenção: Alguns supõem um mausoléu de toda uma cultura, preservado com esmero, outros apontam uma fortificação autêntica tanto a reforçar as qualidades de dentro quanto a afastar os males, e outros apenas desqualificam o Fundador como um megalomaníaco egocêntrico; qualquer que seja a resposta, não atenua em nada as peculiaridades que a cidade carregam. Muitos apontam que a existência da estrutura e de suas regras é justamente o que permite a ilimitada coexistência entre as mais divergentes partes da crença, e do partido um verdadeiro contrato. A propósito de outras características relevantes de Sacrário, podemos também destacar a produção frutífera de alta qualidade como de pêssegos, laranjas e maçãs, outros pontos turísticos como a confeitaria Selena aberta desde a fundação da cidade e o leste do Monte Esperança, onde foi tirada a fotografia A Verdade de Leonardo Allocer, além da prática de asa-delta que permite ver a cidade de cima e a vista e busca da Íris-de-Roseline-de-Villeneuve, uma rara flor azul-bebê endêmica da cidade montanhosa com propriedades opióide presente na flâmula oficial de Sacrário e homonimamente homenageando tanto a santa católica romana que as fez aparecer em seu cesto quanto o primeiro nome da amada de Zepar, que a favor da excentricidade da zona e suas manias, resolve crescer suas espinhosas trepadeiras quase que exclusivamente nas mais estreitas encostas de onde se encontra o Alicerce, sendo geralmente recolhidas pelos funcionários da estrutura e usada em remédios e culinária locais."

- Introdução de O Panorama Cultural e Histórico de Sacrário, de 1979, pg 16 e 17.

* * *

Era uma vez Hameln, agradável, paisagística e sólida, tão sólida quanto a outra que vos fala. Fartura. Achavam-se prontos ao que desse e viesse. Do trigo faziam-se os pães das fontes e poços corriam as águas e da estrada iam e vinham pessoas. Quantas são as maravilhas de outrora. Infestação roedora, uma desgraça viera e se perderam os dotes. Resistiu-se bravamente até não mais poderem, ao menos sozinhos. Assim veio distante um salvador, movido à pura solidariedade com sua música conquistou reconhecimento messiânico. Mas antes de acordar, mesmo a solidariedade não sobrevive apenas pelo sol, logo uma promessa é cunhada. Soa a pífaro, a manada segue o homem gracioso cegamente, e bem os observa que nem do ápice da submersão se apercebem. Da onda que saiu retorna somente o movedor de títeres, alimentado mas não saciado pelo otimismo. E que erro os do cerco! Não acreditam no que nós olhos veem ou no que os sons dizem, consumidos pela barganha, regulamentando arbitrária injustamente um ostracismo. Ciente de seus poderes, brotando mais algum pecado, senso de retribuição, a flauta não teme a coroa ou mesmo as espadas. Mudado o feitiço, a fórmula, notas e contrapontos, a noite outra vez harmonizou, ressonante: os novos alvos se levantam e são tão levados quanto como acordados. Xingar e não permanecer de olho nos ofendidos é um ato de grande tolice. Subida dançante, mas a água é muito simples: apenas aqueles que ainda não separaram a dedicação da inconsciência são aqueles que podem viver no céu. Alguns poucos passam

para o outro lado escuro como o da lua, apenas alguns se entregaram à justiça, apenas alguns atenderam ao chamado.

Muitos se perderam no caminho, muito se perdeu do futuro.

Disseram e disseram vezes e vezes. Os poucos que se foram foram os que então decidiram, a voz gravital, e em todos estados em que a humanidade continua.

E Morfeu e Ícelo e Fântaso completam o longo trabalho de Hypnos. A partir do momento em que se acorda já se começa o sonífero. E Morfeu abre o portão, ocupa o vazio e Ícelo e Fântaso dão o que cada um merece. E Morfeu dorme em Ébano e Papoulas (aqui, Cedros e as Íris íngremes). Nos vemos e desencontramos, com as divindades dissociativas. Facas de dois gumes. Desde o momento que se acorda, começa a sonhar. Sob a lua se programa e sob o sol se faz. Assim os que se foram sonham, porque delegam seus ideias aos próximos, novos e novos e novos Oneiros. Próximos e acerca e próximos agentes. O pensar desvanece, a razão perece, palidez, fechar de pálpebras, onde quiser: os irmãos da cidade. E Hypnos processa, tem uma ideia e permite e Morfeu incita e Ícelo e Fântaso dão forma. As asas do segundo levam a seu mundo, seus habitantes e o arco-íris para passar

das nuvens. Estão em toda parte e lugar algum, no que se profetiza, realiza, promete-se e se esquece. Por enquanto e para sempre. Prestando atenção, sem distrações. Tente, tente, tente. As piadas que nunca sonharam em serem regra e as seriedades que de tanto falarem transformam-se em humor.

As asas me levam e eu subo alto. Talvez já seja minha hora. Lá estão eles me esperando. Minhas esculturas eternas em corpo e quadro mais uns vários velhos rostos conhecidos.

A chuva quer vir mas não quebra a tensão. Quase nos pegaram. Trinta metros. Nos convidam a entrar pela porta da frente. Podemos nós passar por isso e sairmos impunes? A surpresa maior é existir uma porta, como se essa fosse abrir dos dois lados. Surpresa é ser tão robusto, não é como se os inquilinos fossem tentar fugir dos seus aposentos, por mais caros que sejam os aluguéis ou por maior tumulto que tentem causar. Podem internar mais do que isso? Não senhor. O pacote completo vai ser quando se mudar.

Saguão. Veludo. Três adentram comigo e um espera lá fora. E quem é que poderiam eles visitar? Por acaso alguém para eles aqui se passou? Como poderiam? Eles não possuem o seu próprio monte ou seu próprio subterrâneo? De qualquer

forma, nunca entramos sozinhos por aqui.

Feita a mesa. O das vezes. Um teatro. Todas e todas as possíveis condolências, cíclicas, uma para cada canto. E eles

continuam aqui, comendo, assistindo às festividades, incautos. Esses não são seus costumes. Certos semblantes de assombro.

Elegias, Trenos, Endechas, Epicédios, Nênias. Do bastião alguém bate à porta. Falta algum convidado? É claro. Não aberto mas não fechado.

Receber. Me deixaram a cargo. Sem chave, apenas às mãos. Maçaneta? Ponte elevadiça? Não entendo mas há um caminho.

Eu quem faço? Não trabalho aqui. Não trabalho em lugar nenhum. A impermanência é justamente parte do meu trabalho, não poderia representar somente o... mesmo... lugar. Mais um para dentro. Próximos.

Abre, luz. E... mãe?

Desculpe a demora, filho. Surpresa ser você a abrir.

Para o tio? A vovó? ... o pai?

Do que está falando? Deveria eu ter me precipitado também de que é muito indelicada da minha parte como anfitriã ter me atrasado

Passo, passo, passo passado. O que é o que é: quem conhece o tempo mas não os horários?

Como?

Por que se faz de desentendido?

Não, você...

Não me toque, nem se isso fosse possível no momento. Sabe como é, eu fui para lá e para cá com muita euforia, porque no fim, sabia que acabaria aqui novamente de jeito ou de outro. Eu espero que me perdoe, Leonardo.

O que diz, e por que?

Te disse, ditei, mostrei tudo o que pude. Esperei pacientemente o momento que você pudesse fugir e fôssemos nos encontrar. Passar o que é possível passar fora disso. Mas não sei dizer se subestimei a influência dos montes sobre as pessoas, ou se...

...

... Superestimei a sua determinação.

... Ambos levam ao mesmo lugar, irrelevante.

Principalmente agora, que estamos, aqui...

Não mudou nada.

O mesmo cheiro, o mesmo felpo, o mesmo baile. E o que muda? Nada muda.

Por onde andas?

Sacrário.

Quo vadis?

Ao oeste, onde se põe o sol.

Onde indica Zepar.

Símbolos irrisórios. Não sigo mais ninguém.

A Estônia é bonita?

Sim. Tão nublada quanto. A lama é terapêutica. É só subir mais um pouco e ignorar os que sofrem.

Schopenhauer.

Você e seus nomes. Anda conversando com a Aisha?

Conversar é uma palavra muito forte. Tartamudeamos nossas mesquinhezes.

E o que são cacos dispersos se não um vaso, um copo, cerâmicas?

Estamos falando de pessoas.

As unidades são as mesmas, se não menores e mais frágeis, em se tratando do gênero humano.

O que você disse à ela?

A César o que é de César.

Nomes são úteis nessas ocasiões não são?

São sim. Quando vão usar os nossos?

Já uso o seu.

E os outros certamente usam o seu. Um orgulho. Como é bom ao menos você poder tornar esse lugar um pouco mais agradável.

Passo, passo, passo passado. Crescendo e sofrendo desde o parto...

...

... Vai me fotografar?

Só se quiseres.

Entendo... mais um jeito de ser guardada, retida, enclausurada... "Não sou nenhum pássaro e nenhuma gaiola me prende"...

... Jane Eyre?

Ela reconheceu bem mais rápido.

Não fode, é o trabalho dela. Um dos poucos que você leu.

E nem por isso fui mais ou menos satisfeita.

Faz muito bem em tudo.

Não tente me imitar. Somos todos inigualáveis, incomparáveis, incorrigíveis...

Não sou de trejeitos.

É sim. Só são os seus.

Não se arrepende de nada?

Só de não te mostrar o que eu vi. Não só de não ter te trazido junto a todas, eu tinha minhas questões, mas também poder projetar e te dar incólumes os meus próprios olhos.

Mais e mais fotos...

Você pode fazer mais do que isso.

... Algum dia vou embora daqui.

Acha que tem tempo?

Talvez.

Não é desejando, mas vão te arrastar de volta.

Que assim seja. Mesmo no meu porte atual, vão ter trabalho.

Não fiz tanta resistência, primeiro por que não a tenho tanto ao menos não mais tanto na forma de ímpeto quanto na de força, segundo que nascer Allocer inerente e tragicamente me concedeu uma inextinguível fagulha por mais minguada que esteja em relação ao lar.

E qual seria a faísca? Sua natureza?

A de Héstia. Carregando a saudade.

Por acaso achou ele?

Não. Nossas liberdades extrapolavam e extrapolaram a atração, como imãs de mesma polaridade.

O tecnicismo resultante do trabalho.

Três cursos não concluídos me levaram ao farol, como Woolf, que antes que você se precipite, é outra das poucas coisas que li. Eu senti que podia guiar as outras pessoas, logo depois que voltei a você e de longos hiatos, como não eu não havia conseguido guiar explicitamente você até aquele ponto... e todas as idas de carro suas de saindo ou chegando em Sacrário, fazia questão de ser eu a responsável pela luz...

O topo seria todo seu hoje em dia. Só tem mais dois além de mim nas redondezas que o operam.

Não os julgo. Uma cidade interiorina, no meio das montanhas, que de tanta mais tanta a Névoa, mesmo sem mar ou ao menos rio, precisa de um farol!

Bem-vinda a Sacrário.

Não poderia estar menos a vontade...

... Alguma hora deve poder vê-lo, talvez muito em breve...

Não... nunca de fato partilhamos do mesmo espaço, nem mesmo se agora fosse...

Um italiano foi trazido hoje, o que impede...

Seu pai... propositalmente, sabidamente... não se envolveu o suficiente para que pudesse ser capturado... sempre manteve, uma distância segura...

As tentações desta não o conseguiram iludir.

Não mesmo. Nunca gostei de acabar em órbita elíptica, meu período quadrado constante ao raio cúbico, até que se desgaste e nosso ponto atrator expanda e nos devore.

Como gosta de Kepler. Antes de eu ser amamentado eu já ouvia a lei das áreas.

Graças a oportunidade no farol conheci o Desvendor dos céus e do horizonte. Invejo a sua sorte. Por muitos anos mal conheci os céus ou vi estrelas por nosso clima, e permaneci por mais um longo tempo não os conhecendo por pura ignorância.

Um grande homem o qual você homenageia com muito ardor.

Suas imagens... são um alento aos desamparados, não uma prestação a um necrotério...

Eu sei...

... Espero que me perdoe... e a Aisha também, filho.

Ela está bem... melhor agora.

Não faça da sua presença grosseira ou repulsiva... nossa casa já faz esse trabalho por nós, já fazemos um esforço muito maior do que a maioria para sermos simpáticos.

Esforço maníaco.

Modestia a parte, tive de sorrir muito mais para cobrir a indisciplina e o desfavor dos infelizes que sempre viveram ao meu redor...

... Comigo incluso...

Só de levantarmos a cabeça, costumamos nos sentir melhor.

Por que a esperança reside acima das coisas mundanas, mas seria muito mais agradável se tudo isso a nossa volta não existisse.

Entre o vale da estranheza do céu o nada da terra, preferi achar a beleza do firmamento excêntrico.

Temo seus chamados, suas promessas, seus mensageiros, como Rilke.

Que engraçado, seu pai, das poucas atividades para além de velejar, do carteado e da Sinuca, recitava poesia, dentre elas As Elegias, Jerusalém Liberta, Manuel Bandeira...

Que eu não tenha puxado mais nada dele... além do medo,

esse do poeta alemão do que não se pode se ver...

Seu trabalho, como andou transcorrendo, foi privando-te da abstração.

E agora, não tinha como retratar coisa mais concreta...

Não generalizemos a realidade.

Claro. O farol, dava para guiar o pai? De verdade, onde deveria ou pelo menos seria suposto de se estar? Em alto mar, ao longo de rios?

Sou só um caso isolado de uma condição isolada de um mundo isolado. Jamais me poriam a tocar nem os guias de uma lagoa.

Não se subestime.

Só se você for na frente.

Vai matar a saudade de uns quantos por aqui?

Só de você, ironicamente. Temos nossas solitárias, cada um a sua.

Parte da rotina.

Sempre me perguntei apenas por que tamanha pompa? Glória? E o tamanho porte?

Me perguntei a exata mesma coisa enquanto vinha para cá.

E como subiu tão rápido?

Os patronos, quem me trouxeram.

Como usufrui do luxo.

É o mínimo.

Já são horas, não?

Passo, passo, passo passado. O que é o que é: quem conhece o tempo mas não os horários?

Levem-nos aos trópicos. O objeto é moldado, os corpos autopsiados. O atraso não anula o progresso. Prontos, os preparativos. Fechamos logo a Última Ceia.

... Você mentiu.

Em quê?

Na parte da desistência. Sinto sua força, vigor, vida transbordando em cada centímetro do seu ser.

... Não neguei alguma insatisfação...

... Eu fiz... uma ponte. Eu quem compeli você para cá... de novo... sempre fui eu quem sempre fiz com que você tivesse, benévola ou à contra-força, que voltar para cá...

Não se cobre tanto. Não era nenhum castigo voltar aqui por você.

Mas agora vai ser. Todo martírio que acumulou por todos esses anos bate à porta agora.

Eu preferia não enxergar dessa maneira.

E o que é que vai sobrar para mim? Se você quem se dedicou a ir além está aqui, o que vai ser de mim?

Tudo tem seu tempo.

Passo, passo, passo passado. Aguarde o tempo, não perca o horário.

Eu... te condenei... desde o princípio.

Estamos aqui, juntos, isso, é o que importa.

Juntos? Por quanto? Mais alguns minutos?

Sim... alguns. Sei que trinta e cinco anos juntos são próprios e não se sobrepõem ao passado, façamos valer a pena.

... "Esse é o seu problema. Você acha que o presente vale mais que ou define o passado. Até poderia ser, se não se tratasse de nascidos e crescidos em Sacrário...", Eu disse isso à ela hoje...

Como um erro político, um erro econômico, ideológico, religioso... me pus, em ojeriza a essa afirmação muito mais velha do que você pensa, em outro oposto... porque o presente, dentro do tempo, não é o meio de duas extremidades lineares: é a altura de um triângulo.

Como qualquer lugar que se olho daqui para baixo...

Temos, aos moldes de Deus e de muitos outros deuses também, muita fortaleza, muitas fortalezas... até demais.

O que faz o nome daqui de cima que não mais usamos.

E que é melhor não pronunciarmos, logo na minha vez.

... Você não se importa com minhas decisões? Renegar Marchosias? Meu trabalho? ... aquele crime?

Em relação apenas ao que você apontou, tudo é direito individual. De certa forma, Marchosias era para mim apenas um penduricalho de título que de fato não me pertencia por sangue cuja função era apenas mais uma das formas de me realocar daqui. Você anda se corrompendo, no segundo quesito... mas não importa, no fundo, enxergo sua alma a prestar

tributos, "O belo é apenas o começo do terrível", como sempre ouvi dizer, disperse o seu caleidoscópio como bem quiser, se na mais oblíqua e sutil fundação de algo há amor, então nada mais importa. Aquilo está no passado, novamente. Em apenas um lado do triângulo, enquanto você está no outro, e agora estamos no topo, no presente, aqui. Alguns favores, diria, por mais terrível que tenham sido as circunstâncias. Lembra do lema? De Sacrário? Há amor na fundação, então basta corrigir o que pode da forma que for e apenas encontrá-lo.

"Sacrário vive".

"Sanktuarium żyje!", para sermos mais específicos.

Na minha geração já não se tem o mesmo ensino do Polonês por aqui.

Nem de língua alguma com verdadeira aptidão, não querem que saíamos por aí.

E para visitarmos, conversarmos plenamente com Zepar?

Ele está aqui, já posso ouvi-lo.

Diz O Andarilho... que antes a casa de seus pais era bem no Limiar estrangeiro, mas que na infância, nunca conseguia dormir por conta dos sussurros... ele desmontou a casa depois dos pais irem embora e de se tornar minimamente proeficiente na marcenaria e usou os materiais e reconstruiu aquela mesma casa quase um quilômetro mais longe. Mesmo

assim, diz ele ser infinitas vezes melhor dormir nu em pelo na selva com borrachudos a dormir minimamente acima do nível do mar aqui.

Aquele homem, é mesmo uma figura.

"O que é um fantasma? Perguntou Stephen. Um homem que se desvanece até se tornar impalpável, por morte, por ausência, por mudança de hábitos."

... Poderia, sem aquilo, haver alguém como eu para te acompanhar?

Deixe-o em paz... e ele também lhe vai deixar...

... Se ele estivesse aqui, ao menos teria, justificadamente, nenhum lugar para onde ir...

Isso é cruel.

Ele quem deveria estar...

Não diga isso...

As competências dele...

Para quê uma competição como essa? Justo agora que poderei vê-lo...

Está mais ansiosa para isso, não vou tomar mais do seu tempo. Mas eu te digo, você não vai. Ou talvez veja. Você veio aqui só pela esperança de vê-lo.

Leonardo...

Minha vida é parasitária, sempre vivi as custas da vitalidade de outras pessoas...

Leonardo...

Só dessa vez... fiz o que nenhum dessa espécie busca fazer com seu hospedeiro...

Léo...

Que é...

Leonardo!

Leonardo!

Leonardo!

Em nome do Pai, do filho, do Espírito Santo, Amém.

Mãe! Mãe!

Derrete a cera. Não são de mármore as esculturas. As tintas também. Todos os seus traços. Eles não aguentam mais esperar. Passo, passo, passo passado. O que é o que é: Quem são os trouxas que toleram atrasos?

Ele! Me! Disse!

O que...

Naquele! Lugar! Você! Men! Tiu! Eu! Sei!

Como você sabe?

Você sabe! Que ele! Nos observa! Junto! De Deus! Aqui! Aqui! Eles já! Vão! Te! Arrastar! Esfolar!

Cala a boca cala a boca cala a boca!

Por que? Porque? Por quê? Porquê?

Eu não sei!

Eu! Já não estou no ponto! Pode! Tirar! Aperte! O! Botão! Mexa! As! Engrenagens!

Não, não, não!

Você! Poderia! Mais do que isso!

Você também!

Eu? Só! Os ossos? Só eu! Aos pedaços!

Pensasse antes!

Cérebro nefasto! Neuro-hipófase! Estoura! E liberem as almas!

E o veludo é pegajoso, e a festa escorre, e todos são veludos, e todos se unem, e todos resolvem irem juntos, e os patronos não estão mais aqui, ou eles são tudo que está aqui, e o pai que olha de fora e das asas sai areia e os outros dois também são veludo, e ele se dobra, e ele se abre, e ele pulsa, e ele se quebra, e ele ausculta, e ele não sabe se absorve ou se expele, e ele é verossímil, mas ele mente, e eles pensam, logo mentem.

"E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro

céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.

E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, preparada como uma esposa adornada para o seu marido.

E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o

tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.

E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas."

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