No decorrer da vida, somos tantos, que talvez só nos descubramos de verdade quando chegamos ao fim.
Somos nós quando ainda somos infância: inocência, dependência, descobertas… inteiramente entregues ao amor e ao cuidado de nossos pais. Ali, ainda não precisamos provar quem somos. Apenas somos.
Então, num pequeno salto, chegamos à juventude.
E chegamos carregados pelas companhias, pelas ideias, pelos desejos e pela necessidade constante de pertencer. Começamos a atuar para caber nos lugares, para sermos aceitos, para permanecermos onde todos estão.
E, sem perceber, começamos a nos perder.
Aquele que fomos parece distante. Já não queremos o silêncio da infância; queremos o agito, as pessoas, os lugares, as experiências. E, pouco a pouco, passamos a acreditar que somos aquilo que fazemos, aquilo que mostramos e, principalmente, aquilo que os outros enxergam em nós.
Então chega a vida adulta.
E ainda continuamos fugindo de nós mesmos.
Agora, porém, a corrida ganha outro nome: tempo, carreira, dinheiro, conquistas, patrimônio, reconhecimento.
Competimos com o relógio sem perceber que é impossível vencê-lo.
Construímos a ilusão de que estamos ganhando do tempo, quando, na verdade, é o tempo que silenciosamente nos atravessa.
Acumulamos bens, responsabilidades, títulos e tantas coisas que alimentam nossa vaidade, enquanto, sem perceber, vamos deixando pelo caminho aquilo que realmente somos.
Até que, um dia, as forças começam a diminuir.
Já não somos tão ágeis. O corpo começa a impor seus limites. A carreira perde o embalo. Outros começam a passar por nós, subindo com o mesmo ímpeto que um dia foi nosso.
E então chega a velhice.
E talvez seja nesse momento que finalmente nos perguntamos:
Para que tanta pressa?
De que adiantou correr tanto, se agora já não temos forças para viver tudo aquilo que acumulamos?
Onde estão as pessoas por quem abrimos mão de nós mesmos?
Onde estão aqueles lugares onde acreditávamos pertencer?
E, quando quase tudo silencia, as memórias começam a voltar.
E, curiosamente, as que mais nos confortam não são as das grandes conquistas.
São as da infância.
O colo.
A casa.
O cuidado.
O amor sem exigências.
A sensação de ser pequeno e, ainda assim, estar protegido pelo mundo inteiro.
E então, já velhos e marcados pelo tempo, talvez descubramos aquilo que passamos a vida inteira procurando:
queríamos apenas voltar a ser quem éramos.
Meninos e meninas.
Simples.
Inocentes.
Amados.
Cuidados.
Protegidos por quem realmente importava.
Mas o tempo não devolve aquilo que levamos a vida inteira tentando abandonar.
E talvez essa seja uma das maiores ironias da existência:
passamos a juventude tentando deixar de ser crianças e chegamos à velhice desejando apenas voltar a ser aquele menino ou aquela menina que um dia fomos.
Talvez amadurecer não seja deixar de ser quem fomos.
Talvez seja aprender a não perder quem realmente somos.
Porque, no fim, talvez a grande descoberta da vida seja perceber que nunca precisávamos nos tornar tantos.
Precisávamos apenas ter coragem de continuar sendo nós mesmos.
Edidania 🌹