Os casais a virarem lagartos e cágados mal as mulheres saem 😅 Epá, sonho dos verdadeiros, daqueles em que acordas desconfiado da própria cama.
Nesse mesmo quarto eu apareço. Ai m**! Ainda não tenho um…
Pensamento
Os casais a virarem lagartos e cágados mal as mulheres saem 😅 Epá, sonho dos verdadeiros, daqueles em que acordas desconfiado da própria cama.
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Nesse mesmo quarto eu apareço. Ai m**! Ainda não tenho um par como os outros. Nem vejo problema nisso, é bom ser livre. Tenho minhas vezes. Sendo assim, sou descriminado por eles; me repudiam, os canalhas. Dizem que somente eles têm o direito de ficar residindo ali. Somente os casais, pois são uma colônia.
O tempo passa. Vão ficando cada vez mais impacientes. Ignoram o carinha aqui e às vezes olham de lado para saber se não fico observando. Bom, na verdade, eu estou sim. Mas não com maldade ou coisa parecida. Olhava com curiosidade, com espanto de novato. Eles eram tão normais e ao mesmo tempo esquisitos, eu ficava querendo saber o porquê deles estarem ali e por que a situação desagradável.
Os casais nem pareciam ser do mesmo planeta que eu, essa é a verdade. Não se julgavam. Éramos distantes uns para os outros; isso e não me queriam ali nem me aceitavam. E eu, em contrapartida, queria observar esses espécimes, essa doideira, sem mais nada. Somente entender.
Mais um intervalo passou, cheio desses lapsos. Agora uma parada relevante aconteceu: eles se revoltaram! Expulsaram a mim! Fui levado pra rua à força, pelo braço. Chegando lá, me deparei com uma garota... ou mulher, não sei ao certo... muito familiar, como uma antiga namorada, uma amiga ou uma priminha boa. Ela gostava de mim e eu, naquele momento, também gostava dela. Alguns dos amigos ficaram dizendo que ela era minha namorada. Eu nem podia acreditar! O que sentia por ela era uma ternura, algo quase paterno, mas quem sabe.
Andamos por um tempo, esquecemos tudo, conversamos sobre situações banais e refletimos o sentido das caras daquele lugar onde eu apareci... e como fomos deixados juntos. Acho que éramos bons amigos. Eu não entendia bem, mas estava tranquilo. Acreditei que éramos uma coincidência boa — ou eu era maluco.
Logo, apareceu à nossa frente uma escola. Era hora da entrada. Muitos alunos pelas calçadas conversavam e corriam atrasados: garotas, crianças e adultos, todos juntos nessa bagunça; quase um movimento estudantil.
Nós víamos isso como espectadores, entrando na escola. Aquela gente também me parecia familiar. Ela disse que era aluna, e já estava na hora de começar — o lugar era grande, ao ar livre e espaçado, só havia uma sala de aula e nela ficavam distribuídos por todos os lados e em diferentes assentos todos os alunos.
Mas que dia! Logo antes dela entrar, eu também fui convidado por uma colega sua, que apareceu para nos receber. Recusei, é claro. Tinha a sensação de que a visão daquele tipo de colégio me indignava de um jeito especial, como se já tivesse estudado nele e sofrido algum dano. Despedi-me, e ela foi andando. Nesse momento, algo novo aconteceu: aquilo que sentia por ela se modificou. Agora eu sentia uma saudade enamorada, como se ela não voltasse mais e eu fosse ficar só, para todo o sempre. Acho que percebi o quanto amava essa garota. Endoidei, era minha hora.
Mas ela se foi. Sumiu na mesma velocidade que tudo acontecia, e me ludibriava. Sua colega ainda me perguntou, quando eu virava o rosto para ver se ela ainda estava ali: “Por que a deixou escapar? Como não percebeu logo que se amam? Depois de tanto estarem juntos e você ter sumido por tanto...” Sumir? Tempo? Qual devia ser o nome que eu não compreendia?!
Foi-se. E eu fiquei ainda mais confuso e perdido, pois um turbilhão de sentimentos angustiantes tinha me invadido. Mas solitário, como quando apareci ou me encontrava naquele tal quarto. Caminhei só, até o quarto novamente, porque era o único lugar que reconhecia e ao qual sabia chegar. Muito pensativo, fui entrando. Dois casais saiam, mas outros ainda estavam nas mesmas camas de antes. As fêmeas desses seres foram embora, então eles se transformaram em lagartos, moscas, cobras e cágados. Qual foi!
Algumas camas estavam vazias. Eu tentava sentar... em vão... não deixavam, ficavam no meu caminho me enxotando. Olhavam e eu sentia muita aflição, e ainda por cima sentia um cansaço amargo. Me senti bem ao me acovardar, ainda que o certo fosse peitar a situação... vai saber. Os casais remanescentes iam discutindo cada vez mais. E me olhando, ali, deslocado, deserdado. Quando finalmente consegui um canto para tombar, tudo se apaziguou.
“Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar.. Rir pra não chorar”
(Cartola, da música “Preciso me encontrar”)
Os Sonhos, Nicolas_ 2026, Reedição_ (Ed. Presente)_ Parte 2
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