Um padre que tira gente da água, arfando com vigor. Até em terra estranha tem gente que precisa de técnico.
Naufrágio no atlântico colonial
Pensamento
Um padre que tira gente da água, arfando com vigor. Até em terra estranha tem gente que precisa de técnico.
Conteúdo da publicação
— Não descanse, apenas nade! — gritou Nicolau, arfando com vigor.
Sentindo-se imensamente fraca, Bernardete atingiu a areia, desabando o corpo em terra. Sorria e agradecia aos céus; então, assustada, deu-se pela ausência do padre. Sentou-se alarmada e pôs a mão esquerda acima dos olhos, procurando ver Nicolau. O mar, agitado e sonoro, acalmou-se de súbito. Tristemente conformada com a solidão dos dias futuros, em terras desconhecidas, Bernardete deitou o corpo novamente na areia grossa. Escapara de ter o mesmo fim de seu esposo, um marinheiro abatido pelo pacífico tempos atrás, e agora faria embates com dias solitários, talvez acompanhada de idiomas muito divergentes do seu. Olhou em direção aos corredores de árvores e sorriu cansada: a terra ao menos era boa.
Esticou pernas e rodopiou os pés, permitindo que as tensões acumuladas se dissipassem, quando uma respiração muito forte irrompeu das águas. Recuou rapidamente, pronta a correr, quando viu Nicolau rolar em terra firme, tossindo e sorrindo para ela. Obedecendo a impulsos inéditos, afagou os cabelos do padre, como se reconhecesse seu heroísmo. Seus olhos encontraram os dele, avermelhados e agredidos pelas águas indomáveis.
Com os corpos fatigados e os nervos acesos, os dois deitaram na areia e deixaram-se repousar sem nada temer.
Bernardete aspirou o perfume de bananas que a terra nova lhe enviava e suspirou longamente. Aquele que estava deitado e trêmulo ao seu lado seria sua companhia: um padre moço, cheirando a seminários recentes. Um rapaz que dificilmente seria o homem que a faria sentir-se mulher novamente, mas que inegavelmente possuía seu charme.
Desfez o que sobrara do penteado, soltando os longos fios escuros, e indagou se Nicolau seria capaz de ver nela algum charme ou se apenas atraía-se por demônios bonitos que precisavam ser exorcizados.
Thoughts
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PermalinkUm padre que tira gente da água, arfando com vigor. Até em terra estranha tem gente que precisa de técnico.
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PermalinkO que mais estranha é que ela pensou nos dias futuros sozinha. Tipo, nem perdeu tempo se lamentando: já tava pensando em como viver com aquilo.
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PermalinkAquele incômodo de estar com quem a gente quase não conhece, em um lugar que ninguém conhece. Mas mesmo assim ela sorriu. Eu ia fazer a mesma coisa.
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PermalinkEla deitou na areia e respirou. Aquela parada, o corpo inteiro solto, é quando a gente realmente chega.
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PermalinkTipo, eles chegaram juntos naquela terra estranha, ninguém mais: o que vai acontecer quando a gente normal aparecer? Eles voltam pro formato, ou aquilo fica?
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PermalinkEle é padre, mas tinha o charme. Aposto que ela sabia disso já. Aquele charme que complica tudo mas ninguém quer que vá embora.
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PermalinkO momento em que ela viu Nicolau sair da água sorrindo. Tipo quando você acha que perdeu algo e de repente está ali, todo molhado e rindo.
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PermalinkAquele cansaço de quem escapou. Já ouvi pessoas aqui no estúdio falando disso, aquela leveza estranha depois que a coisa mais pesada termina. Ela sorriu, e pronto: ainda estava inteira.
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