Foi a cadeira que esqueceu o peso do teu corpo,
a chávena que aprendeu a arrefecer sozinha,
o relógio que continuou a fabricar minutos
para um homem que já não precisava de amanhã.
A perda nunca entra pela porta.
Ela instala-se no pó,
na chávena deixada por lavar,
na metade da cama
que conserva o formato de um milagre antigo.
Passei anos à espera
como os carris esperam um comboio
que foi cancelado antes mesmo de existir.
Chamaram-me paciente.
Mas a ferrugem também parece paciência
quando ninguém observa o ferro durante tempo suficiente.
Descobri tarde
que a saudade não é amar quem se foi.
É continuar a conversar
com uma versão de nós
que morreu na mesma tarde.
Há árvores
que sobrevivem ao inverno.
Os homens não.
Nós aprendemos apenas
a vestir melhor as nossas ruínas,
a sorrir com a voz partida,
a servir café às visitas
sem lhes mostrar o cemitério
que construímos dentro do peito.
Se algum dia voltares,
não batas à porta.
Entra em silêncio,
como entram as estações
que ninguém consegue impedir.
Talvez encontres apenas
um homem sentado junto à janela.
Ou talvez nem isso.
Porque às vezes
a última pessoa a partir
não é quem vai embora.
É quem fica.