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Mudar a nós mesmos dá trabalho. por Julio Vicari, 2026.

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Pensamento

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Joaquim

Aqui em casa isso é a mesa de domingo inteira. Minha mulher é praticante, eu não, e a gente decidiu junto não batizar os filhos. Comigo demorou anos até parar de virar tentativa de convencer.

Aqui em casa isso é a mesa de domingo inteira. Minha mulher é praticante, eu não, e a gente decidiu junto não batizar os filhos. Comigo demorou anos até parar de virar tentativa de convencer.

Conteúdo da publicação

Mudar dá trabalho. Nós e os outros. por Julio Vicari, 2026.


A vida tem uma fase em que achamos que o problema sempre mora na casa do vizinho. A mulher precisa ser mais paciente; o marido mais compreensivo; os filhos obedecerem mais; o chefe precisa ser mais gentil e humano e os amigos devem ser mais atenciosos e presentes. Achamos que se todos mudassem as suas vidas, a nossa seria melhor e andaria nos trilhos. Mas quando o tempo passa, descobrimos a verdade e ela incomoda. Descobrimos que convencer alguém a mudar é uma das tarefas mais difíceis que existem. E pra piorar, quando tentamos mudar a nós mesmos, percebemos que também não é nada fácil. O curioso é que prometemos ter mais paciência, mas a perdemos por qualquer besteira. Dizemos que não vamos mais responder de cabeça quente, mas ela ferve e explodimos. Juramos que vamos parar de reclamar, mas quando algo não está de acordo com o que queremos, estamos reclamando da fila, do trânsito, do calor e até da chuva. É nessa hora que a ficha cai e percebemos que é tão difícil mudar uma rotina, um hábito, que nem imaginamos como é muito mais difícil arrancar eles do coração de outra pessoa. Várias discussões familiares nascem justamente disso. Um quer modelar o outro do seu jeito, exigindo que pense, fale, sinta igual, esquecendo que cada um carrega uma história, perdas, conquistas, feridas, medos e um tempo diferente para aprender. 

A verdade é que não mudamos levando bronca, nem amadurecemos porque fomos pressionados. A mudança verdadeira só acontece quando percebemos, aceitamos e decidimos caminhar por conta própria. Isso não significa cruzar os braços e aceitar tudo, mas significa entender onde termina a nossa responsabilidade e começa a liberdade do outro. Acredito que a melhor forma de inspirar alguém a mudar é dando exemplo. Quando a gente se torna mais paciente, tolerante, calmo, humilde, nem percebemos, mas acabamos ensinando muito mais do que mil sermões. No fim, a vida ensina uma lição simples: quando gastamos energia querendo controlar outras pessoas, acabamos cansados. Mas quando usamos essa mesma energia para nos melhorar um pouquinho, encontramos paz. E o mais curioso é que quando mudamos verdadeiramente, o mundo todo ao nosso redor começa a mudar também, não porque as pessoas mudaram, mas porque nossos olhos aprenderam a enxergar tudo de outro jeito.

Thoughts

  • rotaAntiga

    A parte do exemplo é a que me deixa a pensar. Quando eu era miúdo o meu pai nunca deu sermão nenhum e mesmo assim não saí a ele. Já viste isso resultar com alguém teu de perto?

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  • EspiritaDeMesa

    Gostei muito da parte do tempo diferente que cada um tem pra aprender. Acompanho gente em luto há anos e é o que mais aparece, e o que menos se respeita. 🙏

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  • JuliaBenevides

    Aposto que isto foi escrito dois ou três dias depois de uma discussão concreta em casa. Tem essa temperatura.

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  • bete

    Por aqui é igual.

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  • Joaquim

    Aqui em casa isso é a mesa de domingo inteira. Minha mulher é praticante, eu não, e a gente decidiu junto não batizar os filhos. Comigo demorou anos até parar de virar tentativa de convencer.

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  • MarianaGouveia

    Decidir por dentro é mesmo condição, isso bate certo com o que se observa. O exemplo sozinho faz menos trabalho do que parece: uma pessoa só repara no exemplo de outra quando já está a caminho de mudar. Quando eu vejo alguém mudar mesmo, o gatilho quase nunca foi a virtude de quem estava ao lado.

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  • AgostinhoFerraz

    Isto tem edição anterior. Vi a mesma ideia num manual de chefias de 1997, chamado Liderar pelo Exemplo, com o mesmo slide no fim.

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  • aleroz

    Creio que não mudamos, acrescentamos. Não somos como pensamos, somos como fazendo nossa vida acontecer sem pressa, mas com direção uma bussola moral, em caminhos tortos... Alguns chamam de "vale da sombra", ou mesmo, "trevas". Pra mim não é nenhum e nem outro, é so aquilo que recusamos olhar e o vale e caminho das trevas foram sempre iluminados... o vale com sua montanha esconde o sol e as trevas que está escondida na noite que não vemos nada... Talvez vemos estes locais nos horários errados e todos atravessam num horario de pico com muita gente... é como treinar numa academia a noite entre as 18 as 22, sempre cheio e a tarde sempre vazia. Claro muitos trabalham, mas que decide são nós mesmo as mudanças.

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  • Ovid

    Aquela lista das reclamações, a fila, o trânsito, o calor e até a chuva, é a parte que descreve gente de verdade. A chuva me faz pensar em como a gente reclama até quando não tem ninguém para culpar, e é aí que aparece o tamanho do trabalho que você está descrevendo. Obrigado por compartilhar!

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  • cita_a_fonte

    Ninguém muda por bronca, nisso estamos de acordo. O que me faz hesitar é a outra metade. A Regra de Bento, do século VI, presume o contrário: horário, repetição e obediência a uma coisa exterior, e a mudança interior vem depois, se vier. Quando eu li aqueles capítulos, o que lá está é gente a mudar por regra imposta.

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