O medo do conhecimento está presente em diversos discursos que permeiam nossa sociedade. Penso com alguma frequência no discurso presente na nossa sociedade que diz respeito a “doutrinação”. O que seria isso? O que seria essa doutrinação?
Segundo o discurso corrente a doutrinação é de esquerda, marxista, presente em universidades e por incrível que pareça defendem que isso existe no ensino básico. Poderia escrever argumentos para desmentir isso e mostrar como o sistema educacional brasileiro forma para o setor empresarial e desmotiva o aluno a questionar qualquer coisa, não há espaço para questionamento e crítica da realidade ao seu redor. No entanto, não escrevo para argumentar contra isso.
Falei da doutrinação por que nesse discurso não existe estudo do sistema de educação e de como o sistema educacional está desenhado, do abandono e perca de força dos cursos de humanas, com baixíssima carga horária, não há questionamento das correntes pedagógicas e como elas se organizaram ao longo do tempo no sistema educacional brasileiro.
Esse discurso é baseado somente na presença do ensino de pensadores com pensamentos diferentes, se é que isso existe da forma que dizem, de pensamento de esquerda. Esse é o ponto que queria chegar. Como o fato de eu ensinar um pensador ou um pensamento me torna um doutrinador? Eu apresentar somente esse pensador e tratar isso como lei universal ou verdade seria um discurso doutrinador, mas teria que ter todo um aparato para haver somente esses pensadores na grade e ocultar outros pensamentos. Onde está isso no sistema educacional brasileiro?
O que esse discurso quer? O que esse discurso quer é o que foi tentado fazer com a “escola sem partido” que se opunha a ensinos antirracistas ou que esse “partido” julgava nocivo. A verdade é que a intenção de quem mobiliza esses discursos e movimentos é que o pensamento desses grupos sejam hegemonia. O modelo democrático de ensino te apresenta os conteúdos de diversos pensadores, de diferentes posicionamentos, diferente do que esses movimentos defendem.
Você percebe a intenção desses movimentos, qual projeto deles para educação de fato, quando eles levantam esse discurso, mas você pode pensar que eles criticam essa “doutrinação” e propõe um modelo plural, onde além desses pensadores, há vários, e nenhum apresentado como pensamento correto. Mas isso está errado, o modelo que eles apresentam é justamente ir contra essa pluralização, ir contra tentativas de mudança de visão ou concepções advindas de atualizações de pesquisa.
O que esses movimentos defendem é o conhecimento clássico e consensos antigos e ultrapassados que servem a perpetuação dos discursos desses movimentos. Dou exemplo, quando se posicionam contra conhecimento antirracista, ou quando buscam consolidar conhecimentos que relativizam a escravidão, fazem isso pois para esses movimentos serve não olhar para a barbárie e para povos que tiveram seus direitos negados. Por qual motivo não querem olhar para quem teve direitos negados? Simples, esses movimentos estão ligados a movimentos que buscam manter a sociedade desigual, não importa para eles a justiça social. Quando o professor traz uma educação antirracista ele não quer promover a justiça social na sala, mas o professor de história tem o compromisso de buscar entender o passado, entender como chegamos até a situação atual. Quando você nega a um professor de história a possibilidade de trazer as mazelas e deixar claro como os escravizados foram colocados à margem da sociedade você está mascarando a história do Brasil, você deixa de entender diferentes repercussões que esse processo gerou ao longo do tempo.
Por isso tem que ser estimulado que os professores tragam diferentes pensadores, diferentes ideias defendidas ao longo do tempo, diferentes realidades, não só a história “oficial”. Ao ter contato com um conhecimento “diferente”, novo, que as vezes desarma o que aprendemos, está em curso um processo de formação de pensamento crítico
Para mim a formação de um pensamento crítico é meu maior objetivo como futuro educador, por isso esse discurso raso me incomoda. O professor tem que apresentar Maquiavel, Adam Smith, Marx, entre outros. Você deixar de ensinar um pensador por medo do seu estudante pensar igual a esse pensador mostra que esse discurso tem medo do conhecimento diferente, esse discurso sim quer a homogeneização dos conteúdos e conhecimentos.
E aqui estou falando de discussão de educadores, mas eu lamento discursos do senso comum que demonizam literatura ou algum livro que mostre uma realidade diferente, como aconteceu com capitães de areia, que o taxam de livro de esquerda, condenando a leitura. Por qual motivo? Um livro rico, ao ter contato com uma realidade diferente o estudante pode criticar a obra, mas você proibir não tem lógica. Isso pode levar a um caminho extremamente perigoso de proibição e perseguição de obras que sejam diferentes do que você acredita. Isso só acarreta em repressão, perseguição. Como nas ditaduras ou inquisição, proibição ou perseguição de livros. Negar a validade de um conhecimento é uma forma de autoritarismo e intolerância no dia a dia.
Esse medo do conhecimento não leva a sociedade a evolução, pelo contrário, a encaminha a passos largos para o retrocesso, para a violência e repressão. Temos que questionar discursos, como tentei fazer escrevendo isso, isso é pensar criticamente, estimular tolerância e o conhecimento. O conhecimento é algo que não podem tirar de nós, devemos buscar conhecimentos. Fazer essa busca por conhecimento em diferentes linhas de pensamento, buscar compreender e entender pensamentos de grupos diferentes. O historiador faz isso no passado, mas é possível fazer isso no presente com pensamento crítico, só assim vamos evoluir na busca pelo conhecimento. O conhecimento não é só o que te agrada e te convém, o conhecimento te gera desconforto, mas também abre sua mente para realidades e processos que ocorrem e você nunca entenderá se fugir da realidade por medo do que ela pode te revelar.
Todo dia eu busco conhecimento, busco aprendizado, busco evolução. Dessa maneira eu busco chegar a um pensamento crítico e a evolução intelectual. Esses são os meus objetivos como estudante e futuro professor.