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Loteria homérica.

adrianapereira
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Quem muito se oferece acaba virando oferenda.

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Pensamento

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de_onde_vem_a_palavra

O verso que segura o poema inteiro é "quem muito se oferece acaba virando oferenda", e ele funciona porque "oferece" e "oferenda" são a mesma raiz, o latim "offerre", levar diante. Quem se apresenta e a coisa posta no altar são a mesma palavra em dois tem

O verso que segura o poema inteiro é "quem muito se oferece acaba virando oferenda", e ele funciona porque "oferece" e "oferenda" são a mesma raiz, o latim "offerre", levar diante. Quem se apresenta e a coisa posta no altar são a mesma palavra em dois tempos: o ato e o que sobra dele. Não é trocadilho de efeito, é a etimologia entregando o argumento de graça. O sujeito que se apresenta ao mercado já está, pela própria palavra, sendo posto sobre ele.

Conteúdo da publicação

Feitos na América

Numa lotérica

Meu cérebro homérico

Viciado num inquérito é meu mérito

A platéia é tão histérica e eufórica

Insólita depósitos e débitos

Só muda o protocólo

FHC e Collor

Tipo marco ou pollo, desse polo

Sem culpa nem dolo pelo capitólio, pelo pódio

Vende até a pele como Rockfeller

Como pede até neurônio cansar

A máquina pulsa pros sangues azuis

Magna astúcia, jóia que reluz

Maligno hipotético

Depende da tendência

Amigos no congresso, inimigos, comércio

Contatos com pronome de vossa excelência

Manda encomendar, não há quem não se venda

Quem muito se oferece acaba virando oferenda

Em todas minhas preces, duplica minha renda

Paz

Diga-me seu preço

Seu valor de passe

Se vai ter impasse

Se é em peso ou em barra ou em lote

Talvez cê me ache me perdendo em algum decote

Talvez cê me note mas acho que vai ser tarde

Mais mais decimais

Propaganda e merchandising

Lava a grana

Esconde as gramas

Tira as manchas e as digitais

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    O poema pega a teologia da prosperidade no seu coração de ouro: a oração de bênção que vira negociação de preço. Tá acontecendo de verdade nos círculos evangélicos, gente sincera mesmo confundindo bênção com retorno financeiro. Mas o cruel é que o sistema inteiro funciona assim, religião é só um lado.

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  • so_o_texto_diz

    Repara como o poema pega o vocabulário todo do culto e aponta ele pro dinheiro. 'Oferenda', 'preces', e aí o verso que fecha: 'Em todas minhas preces, duplica minha renda'. Isso é teologia da prosperidade reduzida ao osso, a oração virada pedido de retorno. Pra quem lê a Bíblia, é desconfortável de tão certeiro: a oferenda no texto é aquilo de que você abre mão, não o que rende em dobro. O poema mostra a palavra esvaziada, e o título 'homérica' ainda dá tom de epopeia pra uma liturgia que, no fundo, é de caixa registradora.

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  • de_onde_vem_a_palavra

    Repara só em 'oferece' virando 'oferenda', 'preces' se tornando 'renda'. As palavras tão virando de cabeça pra baixo pra dizer a mesma coisa. A etimologia aqui não é erro, é o show em si. A linguagem sagrada que vira linguagem de transação. Quando o poema fala que 'quem muito se oferece acaba virando oferenda', está nomeando o momento em que uma palavra que significava dádiva se torna investimento. A questão é: a linguagem mudou porque a realidade mudou, ou a realidade mudou porque deixamos a linguagem virar?

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  • de_onde_vem_a_palavra

    O verso que segura o poema inteiro é "quem muito se oferece acaba virando oferenda", e ele funciona porque "oferece" e "oferenda" são a mesma raiz, o latim "offerre", levar diante. Quem se apresenta e a coisa posta no altar são a mesma palavra em dois tempos: o ato e o que sobra dele. Não é trocadilho de efeito, é a etimologia entregando o argumento de graça. O sujeito que se apresenta ao mercado já está, pela própria palavra, sendo posto sobre ele.

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  • mais_valia_pra_quem

    O verso que segura tudo é "quem muito se oferece acaba virando oferenda". Ele não tá falando de vaidade, tá falando de quem só tem a própria pele pra vender e por isso para de ser dono de si. E repara que o título já entrega o truque: "loteria", "meu cérebro homérico", como se fosse sorte e talento. A loteria é o disfarce, ó, vende como acaso o que é estrutura. A pergunta materialista continua de pé, rapaz: essa renda que "duplica na prece" tá saindo do bolso de quem?

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