Reparo que o vento nunca prometeu nada a ninguém. Quem lhe pôs a promessa em cima foi o Lil, a cada rajada. A brisa é a única personagem que diz exactamente o que oferece e o que fica de fora, e por isso confio nela. Discordo um pouco da moral final: o vento forte levou os irmãos todos, para eles resultou.
Lil e a promessa do vento.
Pensamento
Reparo que o vento nunca prometeu nada a ninguém. Quem lhe pôs a promessa em cima foi o Lil, a cada rajada. A brisa é a única personagem que diz exactamente o que oferece e o que fica de fora, e por isso confio nela. Discordo um pouco da moral final: o ve
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Certo dia, o dente-de-leão Lil estava pronto para dispersar. Sua pequena estrutura, formada por delicados filamentos, havia alcançado a perfeição necessária para abandonar a mãe e partir em busca de um solo onde pudesse florescer novamente.
Seus irmãos já conheciam o caminho da despedida. A cada rajada de vento, um deles se desprendia do receptáculo materno e partia, flutuando pelo ar, entregue à incerteza de encontrar uma terra fértil. Alguns desapareciam no horizonte; outros pousavam sobre jardins desconhecidos. E Lil, imóvel, assistia a cada partida como quem contempla os últimos barcos deixando um porto.
Ele também estava pronto. Seus filamentos eram leves, sua estrutura era perfeita, e não havia nada em sua constituição que justificasse tamanha permanência.
Entretanto, o vento passava por ele, agitava seus fios delicados, fazia estremecer seu pequeno corpo, mas nunca o levava.
Lil começou a acreditar que talvez precisasse esperar um pouco mais. Afinal, o vento era vasto, conhecia distâncias que ele jamais compreenderia e, quem sabe, estivesse apenas escolhendo o momento certo.
Então, a cada nova rajada, Lil renovava a esperança.
Desta vez, pensava, ele me levará.
Mas o vento passava novamente, espalhava seus irmãos pelo mundo e deixava Lil para trás. E aquilo que antes parecia uma espera passageira começou a se transformar em tristeza.
Os dias avançaram. A mãe, que outrora sustentara tantos sonhos em sua estrutura verde, começou a secar. Seus tecidos perderam a firmeza, sua haste vergou sob o peso do tempo, e a vida que um dia alimentara seus filhos recolheu-se silenciosamente.
Até que, numa manhã sem grandes acontecimentos, a mãe caiu ao chão.
Lil desprendeu-se.
Não houve a grande rajada que imaginara, nem o sopro majestoso que o arrancaria do lugar onde havia esperado por tanto tempo. Ele simplesmente caiu, levado pela gravidade, pousando sobre a terra com seus filamentos ainda intactos.
Pela primeira vez, estava livre.
E, ainda assim, sentia-se abandonado.
Deitado sobre o solo, Lil observava o céu. Pensava nos irmãos, nos lugares que talvez tivessem encontrado, nas raízes que poderiam estar criando em terras distantes. Ele, que havia esperado tanto para conhecer o mundo, agora temia que sua oportunidade tivesse passado.
Certo dia, uma brisa leve atravessou o campo. Não vinha anunciando tempestades, tampouco carregava a força necessária para curvar árvores. Era apenas um movimento delicado, quase imperceptível, que fazia as ervas dançarem sem lhes causar sofrimento.
Ao encontrar Lil no chão, a brisa perguntou:
— És flutuante e estás no chão. Por quê?
Lil demorou a responder. Havia passado tanto tempo esperando que o vento o escolhesse que já não sabia como explicar sua tristeza sem falar de sua ausência.
— O vento não me quer — disse, por fim. — Ele passa por mim, promete levar-me, agita meus filamentos e desperta em mim a esperança. Mas nunca me carrega. Esperei por sua força, por sua chegada definitiva, por aquele instante grandioso em que finalmente me escolheria. E agora minha mãe se foi, meus irmãos partiram e continuo aqui.
A brisa permaneceu em silêncio por um momento. Depois, aproximou-se o suficiente para fazer estremecer os delicados fios de Lil.
— E se não precisares daquele vento que tanto esperaste? — perguntou. — Queres que eu te levante? Talvez, de brisa em brisa, encontres um lugar onde possas repousar. Não prometo levar-te para longe de uma só vez, nem conheço o destino que te espera. Posso apenas ajudar-te a sair daqui e confiar que outros movimentos te conduzirão adiante.
Lil olhou para o céu mais uma vez.
A brisa não lhe prometia o horizonte inteiro. Não jurava que o levaria ao jardim mais bonito, nem afirmava que sua viagem seria extraordinária. Oferecia apenas o primeiro movimento, pequeno o bastante para parecer insignificante, mas verdadeiro o suficiente para tirá-lo do chão.
E Lil aceitou.
A brisa envolveu seus filamentos, ergueu seu corpo delicado e o afastou alguns centímetros da terra. Depois, seguiu seu caminho, deixando-o entregue a outro sopro, que o conduziu um pouco mais adiante.
Lil já não sabia quantas brisas seriam necessárias, nem em qual solo terminaria sua jornada. Pela primeira vez, porém, não precisava conhecer todo o caminho para começar a percorrê-lo.
Enquanto flutuava, compreendeu que havia confundido intensidade com destino. O vento forte que tanto esperara despertava grandes esperanças, mas nunca o levava consigo. A brisa, ao contrário, não prometera mudar sua vida: simplesmente o ajudara a mover-se.
E assim Lil partiu, não pela força que imaginara indispensável, mas pela delicadeza que finalmente lhe oferecera passagem.
Nem sempre o vento forte representa movimento. Às vezes, é apenas uma promessa que nos mantém esperando. E, enquanto aguardamos por aquilo que nunca chega, uma brisa leve pode nos conduzir, pouco a pouco, aos lugares que desejamos alcançar.
Thoughts
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PermalinkFiquei com a mãe a cair numa manhã sem nada de especial. As coisas grandes chegam quase sempre assim, num dia banal.
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PermalinkReparo que o vento nunca prometeu nada a ninguém. Quem lhe pôs a promessa em cima foi o Lil, a cada rajada. A brisa é a única personagem que diz exactamente o que oferece e o que fica de fora, e por isso confio nela. Discordo um pouco da moral final: o vento forte levou os irmãos todos, para eles resultou.
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