O crepúsculo caía sobre a cidade quando Lucas, um jovem advogado de 28 anos, desabou no banco de madeira da praça. Seus dedos voavam pela tela do celular, os olhos injetados refletiam a luz azul e a respiração era curta, ditada pelo ritmo de notificações que não paravam de chegar.
Ao seu lado, com a calmaria de quem já viu o sol se pôr mais de vinte mil vezes, estava o Velho Observador. Ele guardou seu caderno de anotações, olhou para o rapaz e sorriu com os olhos.
— Cuidado, meu jovem — disse o velho, com uma voz que parecia vir do fundo de uma caverna silenciosa. — Se você apertar esse vidro com tanta força, o tempo escapa pelos vãos dos seus dedos.
Lucas levantou os olhos, irritado com a interrupção, mas o semblante pacífico do homem de sessenta anos o desarmou.
— Não é o tempo, senhor. É a minha vida. Se eu não responder esse e-mail agora, perco o cliente. Se eu não postar isso, sou esquecido. Sinto que o mundo está correndo e eu estou ficando para trás. É uma ansiedade que consome... parece que tudo é urgente, tudo é um problema gigante.
O velho soltou um riso leve, quase um sopro.
— No meu caminho até aqui, escutei uma mulher chorando porque o restaurante errou o ponto da carne. Depois, um homem esmurrando o volante porque o semáforo demorou trinta segundos a mais para abrir. As pessoas estão dispostas a morrer por muito pouco, Lucas. Gastam a eternidade que têm nas mãos tentando apagar incêndios em poças d'água.
— É fácil falar quando não se tem as cobranças que eu tenho — retrucou Lucas, guardando o celular, embora a perna ainda balançasse magneticamente. — O senhor não sente falta de... sei lá, viver mais? Sentir a adrenalina, o topo do mundo, o prazer de conquistar as coisas?
— Ah, a velha alma animal... — murmurou o homem, olhando para o céu que mudava de cor. — Ela é barulhenta, não é? Ela nos sussurra que precisamos de dopamina. Quer que a gente se embriague de aplausos, de curtidas, de velocidade, de urgências falsas. Ela nos convence de que a felicidade é um banquete que está sempre na próxima esquina, na próxima conquista. Mas sabe o que acontece quando você chega lá?
— O quê?
— A fome volta. E você precisa correr de novo. Eu passei os últimos anos em uma litigância interna, meu jovem. Um tribunal dentro de mim. De um lado, essa fera que quer o barulho e a distração. Do outro, a minha alma divina, que só me pede silêncio e melhora.
Lucas observou as rugas ao redor dos olhos do velho. Havia uma dignidade ali que ele não encontrava em seus chefes ou nos influenciadores que seguia.
— E quem está ganhando esse processo aí dentro? — perguntou o jovem, genuinamente curioso.
— Adivinhe? — o velho sorriu. — Eu sou um homem feliz. E sabe por quê? Porque eu aprendi a me constranger diante de Deus. Todos os dias eu olho para o universo e digo: "Senhor de todas as épocas, olha a minha pequenez. Eu não sou nada diante das estrelas. Mas, ainda assim, que privilégio absurdo é estar vivo hoje e poder ver esse fim de tarde". A felicidade só entra quando a vaidade sai.
Lucas olhou para o próprio celular, que vibrou no bolso. Ele hesitou por cinco segundos. Pela primeira vez em meses, decidiu não puxá-lo para fora. Olhou para a praça, sentiu o vento frio da noite que chegava e respirou fundo.
— Como eu faço para começar essa... litigância interna? — perguntou o rapaz, a voz um tom mais baixo.
O velho levantou-se devagar, ajeitou o casaco e deu um leve toque no ombro de Lucas.
— Você já começou. No momento em que escolheu o silêncio da praça em vez do barulho da tela, a sua alma divina ganhou o primeiro round. Agora, vá para casa e jante sem pressa. O mundo vai continuar girando sem a sua permissão, garanto a você.
O homem de sessenta anos caminhou a passos calmos, misturando-se à penumbra da noite, deixando para trás um jovem que, pela primeira vez em muito tempo, conseguia ouvir o próprio coração.
Nesse encontro, quem é você?