O detento que não se abre, no meio de tanto palavrão e com a Lacrimosa no fim, me fez pensar em quanta gente passa o dia assim, falando pouco e ouvindo tudo muito alto por dentro. Aposto que esse poema saiu de uma vez, numa dessas tardes que você descreve. Obrigado por compartilhar aqui, xavier!
GRÃO DE FAVA
Pensamento
O detento que não se abre, no meio de tanto palavrão e com a Lacrimosa no fim, me fez pensar em quanta gente passa o dia assim, falando pouco e ouvindo tudo muito alto por dentro. Aposto que esse poema saiu de uma vez, numa dessas tardes que você descreve
Conteúdo da publicação
Deixar-me falar, só por um momento,
tô pouco me queixando já tem um tanto de tempo.
Mano, tá cansando agora pra caralho,
viver nessa mente embaralhada dentro dum baralho.
.
Tamo seguindo junto aí, a cada passo,
um a um como tijolos dentre um compasso
duma via, que podia ter até passagem,
mas nessa vida nem pude nadar na bendita margem.
.
E se um dom, com um tom um bom pouco diferente,
poderia até fazer bem belo esse sol nascente
na madrugada de mais uma bem longa manhã;
só queria ter licença para acordar um pouco sã.
.
Vejo o mundo ser bem menos o que és,
nas rodas matizadas com cordas nos pés.
Mas será o mundo a visão sobre ele?
Se isso for verdade, o que dirá dos seres?
.
Bem vejo bem menos belo ou convincente.
O que será de mim, pranto e eterno presente?
Sendo e acontecendo até a minha morte
O que será que será se não houver um dote
.
para o meu lado, ou para o lado seu?
Não posso ser mais isso ou menos que plebeu.
Quem é libertado dos confins do mundo
será aquele que não entende do quão é tão tudo.
.
Foda pra caralho, palavras bonitas
para confortar nossas margens positivas.
Pena e penar no pensar do céu,
pairando sobre a cama ou grade do réu.
.
Detento é aquele que não se abre,
acaba se valorizando na cor da sua carne.
.
Sangrando, saindo supra sua safra,
separando o que se sente e sussurra.
Serelepe, salgada, se soa salafra,
suba a sua sonda, solda, e se supera
.
Calado se deve beber o amargo
do cálice sujo pra matar a vontade.
Numa dessas e que me sinto salgado
na vontade que vem pelas horas da tarde,
.
e assim na madruga durmo lacrimejando,
escutando Lacrimosa sem o lindo canto.
Se perde a vontade até de sair tocando,
na vontade minha ou até nessa do santo.
Thoughts
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PermalinkBah, uma estrofe inteira só com S e ainda fecha com supera. Eu travo pra achar uma rima e tu solta sete palavras seguidas na mesma letra, tchê.
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PermalinkEu fui junto sem tropeçar até a margem onde nem deu pra nadar, me perdi um pouco nas rodas com cordas nos pés, e voltei inteira no final, com a Lacrimosa tocando sem o canto. Esse fim de madrugada é o pedaço que eu mandaria pra alguém que anda cansado e não sabe dizer de quê.
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PermalinkEpá, cá a fava é a do bolo-rei, e quem a apanha paga o bolo do ano seguinte. Se calhar o título vai por aí, com aquela sorte que não calha para o teu lado nem para o do outro.
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PermalinkMano, o título eu não saquei até agora, grão de fava. Mas o resto chegou inteiro, a parte do baralho então nem se fala.
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PermalinkA estrofe toda em S eu li em voz baixa umas três vezes, só pelo barulho. Parece alguém mordendo a raiva pra ela caber no verso.
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PermalinkO detento que não se abre, no meio de tanto palavrão e com a Lacrimosa no fim, me fez pensar em quanta gente passa o dia assim, falando pouco e ouvindo tudo muito alto por dentro. Aposto que esse poema saiu de uma vez, numa dessas tardes que você descreve. Obrigado por compartilhar aqui, xavier!
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PermalinkVocê junta duas coisas que quase nunca aparecem no mesmo poema: o palavrão logo na primeira estrofe e uma Lacrimosa no fim, que é o pedaço do Réquiem de Mozart que ele nem chegou a terminar. Sublinhei a mente embaralhada dentro do baralho, foi a descrição de cansaço que mais me pareceu verdade esta semana. Aposto que o poema nasceu dessa briga entre a fala da rua e o cálice.
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Deixar-me falar, só por um momento,