Em meio às reflexões da minha vida, cabe-me a primazia de dizer que não há palavra suficientemente boa ou gesto precisamente perfeito para comunicar com maestria as súbitas emoções do coração, não porque não haja os fonemas necessários, nem porque falte a complicada sintaxe, mas porque não é possível traduzir a máxima semântica do que se sentiu, no momento em que se sentiu. E esta é a grande ironia desse Circo de Nero moderno, cujos lutadores fingem não se conhecer para não entrarem no secreto conflito da guerra fria dos sentimentos: as palavras sempre estiveram ali, nunca foram embora ou sequer cogitaram ir, mas no instante em que eu mais precisei, elas sumiram.
Falo isso porque nunca fui de brigar com Clarice, tampouco de criar motivo para tal, mas a vida é uma comédia mal elaborada e quiçá seja eu a atração dessa noitada. Caminhando em direção ao cadafalso da minha própria língua, subindo os degraus de cada momento em que fui negligente com elas duas. Por que não antes? Por que somente agora? Por que lembrar da arma certa quando a guerra já acabara com seus tratados de rendição? “Para você, isso; e para você, um pouco disso”. Não foi assim que eu havia pensado, todo esse drama comunicativo realmente gera esse cataclisma subserviente em que sou obrigado a ver o rosto que mais conheço ser esquecido pelo absoluto nada? Uma verdadeira bomba atômica sentimental, um horror em que, um minuto antes, existia o tudo repleto de memórias, de risos e vergonhas; e um minuto depois, o vazio, tão assustadoramente quieto que grita com uma voz rouca um silêncio ensurdecedor que preenche aquele espaço com os fragmentos das promessas vaporizadas pelo orgulho de duas pessoas que não tiveram coragem de admitir o que acontecia. Nós estávamos morrendo.
Toda uma falsa impressão de que estava tudo bem e simplesmente resolvi ignorar. Quando foi que eu, em particular, acostumei-me com todo esse teatro? Simplesmente acabou, ponto. Essa minha teimosia de tentar explicar o inexplicável, de perseguir o que me persegue como se persegue o fim do arco-íris. Talvez seja isso que faltou, o inconformismo. Aquela sede por respostas que bebe feito um ralo de piscina. Em vez de me voltar para aquela tela maldita, devia tê-la pegado pela mão e olhado no fundo dos olhos, quase vendo a retina através daqueles olhos castanhos e simplesmente dito qualquer coisa até que eu achasse a palavra como se acha a carteira no fundo da gaveta. Banana, pneu, arquiduque, proparoxítona, Drosophila melanogaster, você. É você e somente você, que, do momento mais inoportuno ao mais adequado, tira o som de qualquer letra, que as preenche apenas de sentimentos sejam quais forem, mas preenche, e peço que diga: o que há de errado? Se for necessário grite, grite tão alto que corte os ramos podres da minha alma para que ela floresça de novo para cruzar com os seus. Ao menos era isso que eu devia ter dito. Já estava consumado.
Talvez seja essa a única verdade que reste depois da forca em que me coloquei: o fim. Ele ainda está aqui, arranhando a garganta, exigindo passagem tardia, prevalecendo o requinte de uma crueldade particular nisso, porque o que mais dói não é o silêncio ou a fala, mas a certeza absurda de que isso tudo não precisava ter acontecido. Se o fim me coube como tarde breve das promessas que o silêncio ainda escreve, alastra a dor da imagem que perdi. Cai uma lágrima, e cada pingo é o infinito de cada lágrima que correu, de um dia em que já foi minha e outro em que já fui seu.
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