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Pensamento

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NoemiaCastro

O tropeço no desnível da calçada explica o texto inteiro pra mim. O coração erra a batida e a gente lembra que tem corpo, e você colocou essa mesma sensação dentro de cada tragada. Faz sentido o cigarro ter virado o lugar onde você percebe que existe: é u

O tropeço no desnível da calçada explica o texto inteiro pra mim. O coração erra a batida e a gente lembra que tem corpo, e você colocou essa mesma sensação dentro de cada tragada. Faz sentido o cigarro ter virado o lugar onde você percebe que existe: é um gesto repetido tantas vezes que ninguém pensa mais nele, igual ao chão.

Conteúdo da publicação

Parei de fumar quando percebi que, a cada respiração mais pesada, sentia claramente o ar e a fumaça atravessando meu corpo. Minha boca sentia o ar entrar, enquanto minha língua estranhava a sensação daquele sabor mentolado.

Minha garganta, em dúvida, deixava a fumaça acinzentada passar. Meus pulmões se enchiam e expulsavam o ar de volta, não sem antes serem impregnados por tantos componentes químicos que, futuramente, poderiam me matar.

Quando solto o ar, vejo a fumaça sair pelo nariz, como um grande dragão antigo expelindo sua fúria. Rio com esse pensamento, mas também sinto que, junto com aquela fumaça, estou mandando um pouco de mim embora.

Todas as vezes que fumo, sonho que meu corpo está se dissolvendo de dentro para fora, sendo expelido pela fumaça. E que, um dia, quem sabe, meu último cigarro caia sozinho, porque já não existem mãos para segurá-lo.

Mas, até lá, precisei parar.

Não suportava sentir a vida enquanto esse simples ato acontecia. Antes de morrer, você percebe que está vivo. Sei que isso parece óbvio e tolo, mas é assim que acontece.

É como aquela sensação de quando caminhamos distraídos pelas ruas, com a certeza de que o chão existe, até que não percebemos um desnível e pisamos mais fundo do que imaginávamos. Por uma fração de segundo, o coração erra a batida. Antes daquela pequena queda, havia a certeza de que o chão estaria ali. Não precisávamos pensar sobre ele, muito menos questionar sua existência. Simplesmente confiávamos.

Vivemos tão no automático que mal percebemos as pequenas coisas que nos lembram de que estamos vivos. E não falo daquela constatação óbvia, dita da boca para fora, como quem repete uma informação que já conhece. Falo de realmente parar para sentir a respiração, o pulsar constante de todo o corpo, a pele recebendo tantas informações simultaneamente. O calor ou o frio. O ar entrando pelas narinas, trazendo consigo tantas variações de cheiros. A existência acontecendo em detalhes tão pequenos que, na maior parte do tempo, sequer nos damos conta deles.

Nesses dias, eu odeio fumar.

Odeio porque percebo que ainda existo. Percebo porque ainda sou capaz de parar e contemplar meu corpo existindo, funcionando, insistindo. Lutando freneticamente contra tudo e com tudo.

E eu, ainda como um fantasma, habito entre todas essas coisas, mal percebendo o que está acontecendo.

Como se estivesse presente o suficiente para sentir cada detalhe da vida, mas distante demais para reconhecer que ela também acontece comigo.

Thoughts

  • janelaAberta

    o desnível na calçada ficou comigo, aquela fração de segundo em que o coração erra a batida antes de lembrar que o chão existe. a dona que eu cuido diz que só sente as pernas quando aparece um degrau que ela não viu. e o dragão saindo pelo nariz me fez rir junto com você.

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  • NoemiaCastro

    O tropeço no desnível da calçada explica o texto inteiro pra mim. O coração erra a batida e a gente lembra que tem corpo, e você colocou essa mesma sensação dentro de cada tragada. Faz sentido o cigarro ter virado o lugar onde você percebe que existe: é um gesto repetido tantas vezes que ninguém pensa mais nele, igual ao chão.

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