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Ex? Pergunta Sem resposta

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Ex?

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dezanosjuntos

dez anos com a mesma pessoa e eu ainda falo meu ex de um cara de 2013 que eu não reconheceria na rua hoje. o meu ficou, o resto sumiu

dez anos com a mesma pessoa e eu ainda falo meu ex de um cara de 2013 que eu não reconheceria na rua hoje. o meu ficou, o resto sumiu

Conteúdo da publicação

Ex?

Há uma palavra que carrega um paradoxo inteiro: “meu ex”. Meu — posse, pertencimento, aquilo que ainda se guarda. Ex — passado, término, aquilo que já não é. Como pode ser meu se já não é meu? Como pode ser ex se ainda o chamo de meu?

A linguagem, às vezes, trai. Ou revela. “Meu ex” não é apenas uma forma de se referir a quem se amou. É um modo de dizer que, mesmo depois do fim, algo permanece. Não a pessoa — mas o lugar que ela ocupou. Não o corpo — mas a memória. Não o presente — mas o rastro.

E, no entanto, há uma violência nessa posse. Porque, se é ex, já não é. Já não responde, já não volta, já não pertence. E, no entanto, a gente insiste: “meu ex”. Como se, ao nomear assim, pudéssemos segurar o que já se soltou.

O que é esse “meu” que ainda se guarda? É a foto que não foi apagada. A música que ainda toca. A rua que se evita. O nome que ainda se escreve no rascunho. São pequenas permanências que sobrevivem ao fim e continuam dizendo, em silêncio: “Houve vida aqui.”

E o corpo lembra. Nem toda lembrança permanece apenas na consciência; algumas aprendem o caminho dos gestos. A mão procura um hábito antigo. Os pés seguem rotas já esquecidas. Certos lugares continuam despertando uma presença que já não existe. O ex não é apenas memória. É aquilo que o corpo continua a reconhecer, mesmo quando a razão já aprendeu o fim.

Talvez a palavra não seja sobre o outro. Seja sobre nós. “Meu ex” não é o que ele é — é o que nós sentimos que ele foi. É o que ocupou, o que marcou, o que deixou. É o que, mesmo depois de partido, ainda habita — não como pessoa, mas como ausência.

Há quem diga que o ex é como um livro que se fechou. Mas talvez seja o contrário. É um livro deixado aberto na página em que a história parou. E, às vezes, a gente volta. Não para reler. Nem para mudar o que aconteceu. Apenas para perceber que quem mudou foi o leitor.

Mas a página permanece a mesma. O que muda é o olhar. O tempo não apaga o passado; muda apenas o lugar que ele ocupa dentro de nós. O que era presença torna-se lembrança. O que era urgência torna-se silêncio. E o silêncio, aos poucos, aprende a não doer.

E talvez seja isso: o ex não é posse. É passagem. É o que foi, o que ficou, o que se foi. E, quando a gente entende isso, a palavra perde o peso. Deixa de ser “meu ex”. Vira apenas “ex”. E, nesse apenas, há uma liberdade: a de deixar ir, de deixar ser, de deixar permanecer apenas como parte daquilo que vivemos.

Talvez o “meu” não desapareça de uma vez. Permanece por algum tempo, como um eco que insiste depois que a voz terminou. Mas até os ecos aprendem o silêncio. E, quando isso acontece, resta apenas o ex — não como perda, mas como parte da história que nos trouxe até aqui.

Respostas

  • HeldonMenezes

    Parabéns pela excelente reflexão. A leitura me fez perceber como a linguagem, de forma sutil, reflete estruturas que aceitamos como fatos. Mesmo quando um relacionamento está superado, o uso do pronome possessivo estabelece um vínculo que evoca a ideia de pertencimento — um "já foi meu", parafraseando o conceito. Essa designação parece funcionar como uma tentativa interativa de marcar território no passado. Gostei muito do texto.

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  • HeldonMenezes

    Excelente reflexão... parabéns.

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  • dezanosjuntos

    dez anos com a mesma pessoa e eu ainda falo meu ex de um cara de 2013 que eu não reconheceria na rua hoje. o meu ficou, o resto sumiu

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  • denovonao

    eu voltei três vezes com a mesma pessoa então aqui o meu ex vira só o meu de novo e depois volta pra ex. tu tá em qual parte disso

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  • Tania_R

    Passou um ano e continuo a dormir do mesmo lado da cama, num T1 onde a cama é toda minha. Isso do corpo que reconhece antes da cabeça é mesmo assim. Deixaste de dizer meu ao fim de quanto tempo?

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  • de_onde_vem_a_palavra

    Interessante, 'antigo namorado' soa bem mais literal. Mas 'ex' segue sendo a palavra que se cola, mesmo com essas opções. Você realmente usa essas alternativas em conversa?

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  • EncontroDeQuinta

    minha mãe ainda fala o seu marido quando se refere a ele, e faz treze anos que eu não sou casada. o meu dela é mais teimoso que o meu.

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  • mesapradois

    eu não tenho ex, tenho a vera. faz três anos e eu ainda falo minha mulher no presente, e já parei de corrigir quem corrige.

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  • Luazys

    Pode usar outra forma como: antigo(a) namorado(a), uma pessoa que eu conhecia, um amigo da época...

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  • cafeDeSegunda

    aqui em casa tem uma caneca da minha irmã, que mudou pra Joinville faz dois anos, e eu continuo lavando e guardando no mesmo lugar :)

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