Eu Nunca Fui Segunda Opção
Eu me apaixonei à primeira vista.
Foi rápido demais,
bonito demais,
inocente demais.
Eu criei uma versão sua
antes mesmo de conhecer você.
E quando finalmente te conheci,
eu ainda estava cega
o suficiente para enxergar
apenas aquilo que queria ver.
Você sempre foi cheio de fantasias idiotas,
inventava histórias, situações absurdas,
brincadeiras que ultrapassavam o limite
e ideias que hoje me fariam ir embora
sem sequer olhar para trás.
Às vezes, eram fantasias tão infantis
que chegavam a ser ridículas,
outras vezes carregavam preconceitos
que eu deveria ter percebido.
Mas eu não percebia.
Ou talvez percebesse
e fingisse que não.
Porque quando a gente gosta,
até as bandeiras vermelhas
parecem decoração.
Então continuei.
Até notar que você se aproximava
quando eu estava bonita
e se afastava quando eu não estava.
Quando eu me arrumava,
seus olhos procuravam os meus.
Quando eu estava feia, cansada,
ou simplesmente sendo eu mesma,
você parecia procurar uma distância.
E ainda dizia:
“Você está linda.”
Mas eu já começava a entender
que algumas palavras bonitas
podem sair de bocas falsas.
Até que um dia
você veio pedir minha ajuda
para conquistar outra garota.
E eu ajudei.
Sem escândalo.
Sem lágrimas na sua frente.
Sem implorar para que olhasse para mim.
Eu apenas sorri
e fiz o que você pediu.
Depois, tranquei meu coração.
Não por vingança.
Por amor próprio.
Continuei minha vida
e, aos poucos,
você deixou de ocupar aquele espaço
que um dia eu havia reservado
para alguém que pensei que fosse especial.
Até que você voltou.
Disse que não queria mais aquela garota.
E me olhou.
Olhos brilhantes,
como se aquela revelação
fosse uma porta se abrindo.
Talvez você esperasse
que eu entrasse.
Mas eu já tinha aprendido
a não entrar em lugares
onde só me chamam
depois que outra pessoa vai embora.
Eu nunca quis ser a segunda opção.
Eu queria ser a primeira.
E, se não fosse a primeira pessoa
em um relacionamento,
eu queria ser ao menos
o primeiro amor verdadeiro.
Não uma substituta.
Não uma escolha conveniente.
Não alguém lembrada
quando o plano anterior falhou.
E então eu percebi:
não era apenas sobre você
não ter me escolhido.
Era sobre eu finalmente perceber
quem estava escolhendo.
Um garoto imaturo,
preso às próprias fantasias,
que ainda confundia atenção com amor
e desejo com sentimento.
Então eu me afastei.
Você me elogiou.
Eu não escutei.
Tentou fazer carinho.
Eu recuei.
Tentou se aproximar.
Eu coloquei distância.
E quanto mais você insistia,
mais eu tinha certeza
de que estava fazendo a coisa certa.
Porque eu já conhecia suas palavras.
Elas eram bonitas por alguns segundos,
mas nunca tinham futuro.
E talvez seja isso que mais assuste:
você continua falando
como se cada frase pudesse me conquistar.
Mas agora eu consigo enxergar
o que antes o meu coração escondia.
Às vezes dá vontade de te calar.
Não porque eu ainda queira você.
Mas porque algumas palavras
não merecem chegar
a um coração que finalmente
aprendeu a fechá-las do lado de fora.
Você pode continuar me olhando.
Pode continuar me elogiando.
Pode continuar criando
suas pequenas fantasias.
Eu não sou mais a garota
que acredita em todas elas.
Porque eu finalmente entendi:
eu não perdi a chance de ser escolhida por você.
Eu apenas parei de aceitar
ser escolhida por alguém
que nunca soube enxergar meu valor.